ASSINE PLACAR DIGITAL NO APP POR APENAS R$ 6,90/MÊS

Tite, a esperança do hexa

Nunca um treinador da seleção brasileira chegou à Copa com popularidade tão alta. Mas o gaúcho não se empolga: promete desempenho, não o título

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 28 set 2021, 20h27 - Publicado em 25 Maio 2018, 11h18

Não é exagero dizer que Tite chega ao Mundial da Rússia tão protagonista quanto Neymar na seleção brasileira. O treinador gaúcho que completa 57 anos nesta sexta-feira hesitou em assumir o cargo em 2016, por um motivo que hoje soa risível: o receio de ficar marcado como o primeiro técnico a deixar o Brasil fora de uma Copa do Mundo. Topou o desafio e conseguiu justamente o oposto, a campanha mais avassaladora da história. Em dezenove jogos, entre Eliminatórias e amistosos, somou quinze vitórias, três empates e apenas uma derrota. O prestígio, que já era grande com os vários títulos conquistados pelo Corinthians, se multiplicou e Tite passou a ser visto como sinônimo de competência e lisura em um país abalado por escândalos políticos. O caminho de Adenor Leonardo Bachi, no entanto, teve seus percalços desde os primeiros chutes na bola em Caxias do Sul.

Tabela completa de jogos da Copa do Mundo de 2018

O apelido lhe foi dado, por acidente, por um personagem importante na vida de Tite: Luiz Felipe Scolari, com quem rompeu relações há alguns anos, por desavenças relacionadas à rivalidade entre Corinthians e Palmeiras. Na década de 70, Felipão iniciava sua carreira de treinador do Caxias e gostou do futebol de dois garotos que viu jogar em um colégio: Ade e Tite. Convidou a dupla para um período de treinos e acabou confundindo os nomes. O jovem Adenor jamais o corrigiu e acabou assumindo a alcunha de quatro letras – um terror para a pronúncia dos jornalistas estrangeiros que passaram a conhecê-lo nos últimos anos. Tite se profissionalizou e teve certo destaque. Meio-campista de bom passe e visão de jogo, tornou-se conhecido na Portuguesa e no Guarani, mas ainda jovem passou a conviver com as lesões no joelho que causaram o fim precoce da carreira, aos 29 anos. Tite admite: esta cicatriz é eterna.

“Quando sonho com futebol, é sempre jogando. O sucesso como treinador não apaga essa frustração, queria ter jogado vários anos mais, jogar é um prazer do c…”, desabafa o treinador, em entrevista no início do ano, na sede da CBF. Tite chorou com a esposa Rose sua derrota mais dolorosa, na final do Brasileiro de 1986, contra o São Paulo. Também dividiu com ela as agruras e alegrias da nova vida de treinador, desde o duro início no Guarany de Garibaldi (RS), passando por bons trabalhos por Inter e Grêmio, fracassos no Atlético-MG e Palmeiras, até a consagração no Corinthians. Atualmente, a família desfruta de uma vida luxuosa na Barra da Tijuca, no Rio, e ganhou um integrante ilustre: Lucca, o primeiro neto de Tite, filho de Matheus Bachi – que é um dos auxiliares do técnico na seleção. “O Tite é um avô bem babão”, entrega Ademir, o “Miro”, irmão de Tite, que vive em Caxias com a matriarca da família, dona Ivone.

Mas apesar de ter abandonado a rotina diária de treinamentos dos clubes, Tite trabalhou como nunca nestes dois últimos anos. Dá expediente de segunda a sexta na sede da CBF, quando não está em viagens para acompanhar partidas de seus potenciais convocados. Um de seus grandes parceiros na carreira, o ex-jogador Edu Gaspar, coordenador de seleções da CBF, revela que Tite é metódico e workaholic. “Eu até tento puxar outros assuntos com ele, mas acaba sempre voltando ao futebol”, brinca Edu.

Tite gosta de compartilhar os méritos com sua extensa equipe e dá liberdade para que todos deem palpites em tudo – inclusive na lista final de 23 convocados, que deu uma leve, bem leve, arranhada na popularidade do treinador. Inovou ao pedir ajuda aos clubes da Série A para fechar as análises das 32 seleções do Mundial. E até mesmo entre os atletas, Tite preza pela divisão de responsabilidades, o que explica seu “rodízio” de capitães – no próximo amistoso, contra a Croácia, em 3 de junho, Gabriel Jesus será o 16º atleta a ostentar a braçadeira. “Saber ouvir é um dos grandes méritos do Tite”, conta Fernando Lázaro, um de seus analistas de desempenho.

Tite é extremamente metódico e ao longo de 2018 dedicou um período para entrevistas exclusivas, outro, curto, para o descanso e outro para intensos dias de trabalho – que incluem presença em diversos comerciais. “Ele não gosta, mas faz, até para ajudar os parceiros da CBF”, conta o irmão Miro. O sucesso, porém, não lhe sobe à cabeça. “Eu não ouço muito os elogios. Não sou falso humilde, gosto do reconhecimento, claro. Principalmente quando embasado em fatos. E o que realmente me incomoda são as críticas rasas, baseadas se ganhou ou perdeu o jogo.” Tite pretende seguir na seleção para o ciclo de 2022, mas prefere esperar o desfecho na Rússia para definir seu futuro. De qualquer forma, a possibilidade de derrota não o atormenta. “É do jogo. Eu estou em paz, cara, sério. Do processo eu tenho controle, do resultado não.”

[googlemaps https://www.google.com/maps/d/embed?mid=1d0NcRqFZVKi2aRAF0XYhtuEBpFWDLNjv&w=640&h=480%5D

Continua após a publicidade

Continua após a publicidade

Publicidade