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Soteldo, de garoto problema a candidato a Rei da América

Melhor em campo contra o Boca Juniors, venezuelano tem histórico de superação de dificuldades desde a base; permanência no Santos ainda é incerta

Por Klaus Richmond Atualizado em 23 set 2021, 20h37 - Publicado em 14 jan 2021, 12h39

Um dos heróis da classificação do Santos à final da Copa Libertadores, Yeferson Soteldo desfruta de enorme moral nos vestiários da Vila Belmiro, mas nem sempre foi assim. Causou enorme preocupação no clube um ato de indisciplina cometido pelo meia venezuelano de 23 anos durante a concentração para uma partida contra o Goiás, em 4 de outubro, pela 13ª rodada do Campeonato Brasileiro.

Na ocasião, o técnico Cuca havia liberado os jogadores para sair, com orientação de cuidados e reapresentação às 23h. Soteldo chegou horas depois e acabou multado. Na semana seguinte, seus empresários tinham a convicção de que o futuro dele parecia bem longe da Vila Belmiro, sustentado por uma proposta de 7 milhões de dólares (40 milhões de reais) do Al-Hilal, da Arábia Saudita.

“Não é que pode ser o último jogo do Soteldo. É o último jogo do Soteldo. Fizemos a preleção em cima disso. Foi um jogador muito importante para nós e vai seguir a vida dele em termos financeiros. Temos que entender”, afirmou Cuca ao Esporte Interativo, na vitória por 2 a 1 contra o Coritiba, em 17 de outubro.

Na partida, Soteldo foi decisivo. Marcou de pênalti e deu a assistência para o gol de Kaio Jorge, ganhou de Cuca a braçadeira de capitão, até então nunca utilizada por ele desde a chegada ao clube, em janeiro de 2018. Mas o venezuelano, surpreendentemente, resolveu seguir no litoral paulista. Declinou ficar escondido no futebol árabe, apesar do alto salário, para poder superar os problemas e liderar o Santos na Libertadores.

Contra o tradicional Boca Juniors, na última quarta-feira 13, marcou um golaço e foi eleito o melhor em campo pela Conmebol, se credenciando de vez como candidato a Rei da América, como é chamado o atleta premiado como melhor jogador do continente – em 2019, Gabigol, do Flamengo foi o eleito.

“Me arrepia, a gente passou por muita coisa no começo do ano, mas Deus compensou hoje tudo o que a gente vem fazendo. É agradecer a Deus por esse prêmio que a gente ganhou. Agora é trabalhar e pensar na final. Agradeço a esse grupo, merecemos a classificação hoje”, disse Soteldo., logo após a partida.

Soteldo ainda tem permanência incerta na Vila Belmiro após a competição. O clube não chegou um acordo com o Huachipato, do Chile, para negociação da dívida de aproximadamente 20 milhões de reais, referente a sua compra, valor nunca pago pela gestão do ex-presidente José Carlos Peres. Mas o jogador, curiosamente, já tem como rotina superar desconfianças e problemas ao longo da carreira. “Se não fosse pelo futebol poderia ter terminado mal, talvez até morto”, explicou o jogador ao jornal La Tercera, do Chile, logo após chegar ao Huachipato, em janeiro de 2017.

Problemas na adolescência 

Soteldo, da Venezuela, contra a Alemanha, no Mundial sub-20 de 2017
O baixinho Soteldo pela Venezuela contra a Alemanha, no Mundial sub-20 de 2017 Alex Livesey/Getty Images

A declaração, na época, foi um desabafo sincero de Soteldo de tudo o que precisou vencer para realmente viver do futebol. Além da baixa estatura,  1,60m, ganhou fama por dificuldades de relacionamento nas categorias de base do Caracas FC, quando tinha apenas 14 anos.

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Soteldo já admitiu a jornais locais que andava com más influências e que não gosta de recordações da época, quando era conhecido como “Manzanita” (maçãzinha, em espanhol). Acabou dispensado por mau comportamento, teve de lidar com o drama de ver sua mãe presa e, neste momento, não queria mais pensar em futebol.

O resgate aconteceu na figura de Noel Sanvicente, ex-jogador da seleção venezuelana, técnico como longa passagem como técnico pelo Caracas FC. Assim que chegou ao Zamora, mandou buscar Soteldo em sua cidade para uma nova e derradeira chance, longe dos problemas que o cercavam.

Soteldo deixou o passado difícil para trás e passou a ser tratado como joia no clube, comparado por jornais locais a Lionel Messi, apesar de destro, pelo estilo característico de carregar a bola. Viveu a melhor temporada em 2015, marcando 12 gols em 47 jogos, e liderou dois anos depois a Venezuela a um improvável vice-campeonato mundial sub-20, na Coreia do Sul.

Passou por Huachipato, Universidad de Chile até chegar ao Santos, novamente cercado por desconfianças. Logo na apresentação, o então presidente José Carlos Peres arrancou risos ao brincar com sua estatura: “é o nosso pequeno polegar”.

Soteldo virou absoluto no clube e, só nesta Libertadores, já foi decisivo também para a vitória por 2 a 1 contra a LDU, na altitude de 2.850m de Quito. Após a partida contra o Boca, participou de uma chamada de vídeo com Neymar, herói da conquista da Libertadores de 2011, de quem recebeu rasgados elogios. Na saída do estádio, seu carro foi cercado por centenas de torcedores que, contrariando as normas de isolamento na pandemia, festejaram a classificação pelas ruas de Santos.

De quebra, Soteldo pode ganhar um presente inusitado da família. “Se você ganhar a Libertadores, te dou outra menina”, brincou sua esposa, a modelo Elianny Jiménez, com quem já tem três filhos. Sem saber se fica, a final contra o Palmeiras, no próximo dia 30, no Maracanã, terá um valor ainda mais especial para ele.

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