CLIQUE E RECEBA EM CASA A PARTIR DE R$ 14,90/MÊS

Sócrates: ‘Sou gente, não uma mercadoria’

Trecho de 'Doutor Sócrates — A Biografia', cedido pela Editora Grande Área a PLACAR relembra conturbada passagem do craque pela Fiorentina

Por Da redação Atualizado em 4 dez 2021, 15h28 - Publicado em 4 dez 2021, 15h22
Na Toscana: o treino em dois períodos e a vida social o fizeram demorar meses para conhecer o Davi, de Michelangelo
Na Toscana: o treino em dois períodos e a vida social o fizeram demorar meses para conhecer o Davi, de Michelangelo SERGIO BEREZOVSKY/Placar

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira (1954- 2011) foi um incontestável craque de bola e também um dos mais fascinantes personagens da história do futebol. A fama de gauche na vida o seguiu para além das fronteiras brasileiras. O jornalista escocês Andrew Downie foi quem mergulhou mais a fundo na personalidade do ex-jogador nascido em Belém (PA). Em Doutor Sócrates — A Biografia, lançado em 2017 e que apenas agora ganha edição em português, pela Editora Grande Área, Downie passeia por detalhes do cotidiano do atacante criado em Ribeirão Preto (SP), ídolo do Corinthians e da seleção brasileira. Além de episódios mais conhecidos, como a derrota na Copa de 1982, sua participação na Democracia Corintiana ou o gosto pela bebida, que o mataria cedo demais, aos 57 anos, o livro detalha a turbulenta passagem de Sócrates pela Fiorentina, da Itália, entre 1984 e 1985. PLACAR publica com exclusividade, a seguir, trechos da aventura italiana do doutor.

Black Friday Abril: Assine #PLACAR digital no app por apenas R$ 6,90/mês. Não perca!

O presidente da Fiorentina, Ranieri Pontello, assistiu à Copa do Mundo de 1982 com prazer indisfarçado e, quando o torneio acabou, fez uma lista de jogadores que queria levar para o clube toscano. O primeiro era Daniel Passarella, e Pontello não perdeu tempo para contratar o capitão argentino, que se juntou ao compatriota Daniel Bertoni como segundo jogador estrangeiro do clube para a temporada 1982/1983. O segundo atleta a impressioná-lo no Mundial foi Karl-Heinz Rummenigge. Pontello tentou contratar o astro alemão no verão de 1984 e, quando Rummenigge decidiu jogar na Internazionale de Milão, Pontello se concentrou no terceiro nome da lista — Sócrates.

Em maio, o diretor-geral do clube, Tito Corsi, voou até São Paulo para abrir as negociações. Sócrates ainda estava sentido pela derrota da campanha das Diretas Já e demorou apenas vinte minutos para concordar com a proposta de dois anos de contrato. O Corinthians, no entanto, não foi tão receptivo. Waldemar Pires se reuniu com diretores da Fiorentina em seu escritório, na Avenida Paulista, e pediu 4,6 milhões de dólares pela transferência, enquanto a Fiorentina avaliava pagar cerca de 1,8 milhão. Pires se encontrou com Corsi numa festa naquela noite, e já tinha baixado a pedida para 3,5 milhões.

A distância diminuiu ainda mais no dia seguinte, quando os doisvoltaram a conversar na casa de Pires e os italianos aumentaram a oferta para 2,5 milhões. Sócrates deixou claro que queria sair e as negociações continuaram. Um acordo parecia iminente, mas o Corinthians estava disposto a arrancar o máximo possível dos italianos. Na terceira noite, Pires e Corsi se reuniram com Sócrates e seus advogados uma vez mais e a coisa quase saiu dos trilhos. A meia-noite se aproximava e ambos os lados ainda discutiam sobre os valores, e Sócrates explodiu numa mistura de frustração e tristeza. “Eu sou gente!”, ele gritou, batendo a mão na mesa. “Me respeitem! Eu não sou uma mercadoria!” Levantou-se, com lágrimas no rosto, e saiu da sala.

Pires finalmente entendeu quanto a transferência significava para o jogador e, no dia seguinte, baixou o preço pedido pelo Corinthians para 3,2 milhões de dólares. Corsi concordou em pagar, embora mais algumas negociações tenham levado a um valor final de 2,7 milhões. Os italianos gastaram mais várias centenas de milhares de dólares para cobrir o que Sócrates pretendia receber, e o jogador renunciou a parte de seu porcentual relativo à transferência para garantir o negócio.
***
O futebol na Itália estava em alta depois da vitória na Copa do Mundo de 1982 e os clubes, ricos, contratavam os maiores nomes do futebol. Glamorosa, atraente e bem- sucedida, a Itália era o lugar para estar e a elite do futebol da Europa embolsou todas as liras que pôde e se mudou para a península. Foi um dos mais sensacionais períodos de transferências já vistos e, ao longo das seis semanas seguintes à assinatura do contrato de Sócrates com a Fiorentina, Junior foi negociado com o Torino, Graeme Souness com a Sampdoria e, no maior de todos os negócios, Diego Maradona deixou o Barcelona e foi fazer história no Napoli. A Juventus tinha o francês Michel Platini e o polonês Zbigniew Boniek; HansPeter Briegel e Preben Elkjær desembarcaram no Verona; enquanto os ingleses Mark Hateley e Ray Wilkins chegaram ao Milan.

A Fiorentina tinha terminado o campeonato em terceiro lugar na temporada anterior e o clube estava otimista a respeito do novo brasileiro que poderia levá-los a voos ainda mais altos. Mais de 5 000 torcedores acompanharam a partida do time para a viagem de pré-temporada, e Sócrates não diminuiu as expectativas, dizendo a eles que tinha chegado “para ganhar a Copa da Itália, a Copa da Uefa e o scudetto”. Era exatamente o tipo de coisa que os torcedores adoravam ouvir.

No primeiro dia em seu novo clube, Sócrates se juntou a seus companheiros para exames médicos. Enquanto esperava para subir na esteira para os testes respiratórios e cardiológicos, ele calmamente acendeu um cigarro. O médico do clube chegou e mal pôde acreditar no que via: “O que você está fazendo, fumando? Nós vamos examinar sua respiração!”, ele reclamou. “Mas, doutor, eu estou aquecendo meus pulmões para o exame”, Sócrates brincou. Seus companheiros gargalharam e o médico foi embora, irritado. Foi uma brincadeira, mas também uma espécie de mensagem intencional do brasileiro, e o incidente resumiria à perfeição a passagem de Sócrates pela Fiorentina. Desde o primeiro dia, ele deixou absolutamente claro que faria as coisas como quisesse. As coisas seriam do jeito dele — ou não aconteceriam.

O preparador físico Armando Onesti era famoso por seu rigor e nem todos os atletas suportavam seus métodos. Eles também conheciam a reputação de Sócrates e suas excentricidades, algo que logo se confirmou. Na viagem de ônibus para um jogo, ele se deitou num dos bancos na parte de trás, em vez de se sentar ao lado de um companheiro. Contra o Napoli, pela Copa da Itália, jogou de tênis porque o gramado era muito duro. E se irritava com os rígidos horários determinados por Onesti, que dava aos jogadores pouco tempo livre. “Onesti prestava atenção a detalhes como o tempo das refeições”, disse o goleiro Giovanni Galli, companheiro de quarto de Sócrates e um de seus poucos amigos no clube. “Ele não achava necessário gastar um longo tempo comendo, então nos dava apenas vinte minutos para almoçar. Aí ele nos fazia andar ao redor do campo para digerir a comida, e, um dia, Sócrates se levantou da mesa com o prato na mão e andou
em volta do campo, comendo.”
***
Ignorar as idiossincrasias de Sócrates foi uma decisão fácil, porque a Fiorentina teve um início de temporada decente. O elenco era forte e tinha condições de lutar pelo título. Nas quatro primeiras rodadas do campeonato, a Fiorentina ganhou dois jogos e empatou outros dois. Na Copa da Itália, três vitórias e dois empates classificaram o time para as oitavas de final, e duas vitórias sobre o Fenerbahçe significaram uma vaga na segunda fase da Copa da Uefa. Sócrates atuou por quase todo o tempo nos primeiros seis jogos e foi o melhor jogador em campo em dois deles: a vitória na estreia na liga italiana contra a Lazio, fora de casa, e o triunfo na Turquia, na Copa da Uefa. Um lindo gol na goleada por 5 x 0 sobre a Atalanta, na quarta rodada do campeonato, levou a Fiorentina ao segundo lugar na classificação e pareceu confirmar o otimismo da pré-temporada.

As duas derrotas em jogos equilibrados contra Sampdoria e Verona, no fim de outubro, não chegaram a ser desastrosas, mas atrapalharam os planos do clube, e as coisas pioraram alguns dias mais tarde, contra o Anderlecht. O jogo de ida do confronto na Copa da Uefa terminou empatado em 1 x 1, em Florença, com Sócrates marcando o gol da Fiorentina. A partida de volta, no entanto, foi um massacre. Sócrates fez o gol de empate, de pênalti, depois de o Anderlecht ter aberto o placar no início do jogo, mas os belgas demoliram os visitantes no segundo tempo: 6 x 2. A derrota marcou o começo de uma sequência de nove jogos sem vitória que se estendeu até 1985 e expôs as divisões existentes no time. Os jogadores se trancaram no
vestiário por três horas depois de uma derrota para a Roma, onze dias mais tarde, e palavras duras foram trocadas na viagem de ônibus de volta para casa. Um Sócrates indignado deu um sermão aos companheiros no trajeto, dizendo a eles que deveriam estar “envergonhados pra caralho” e exigindo mudanças. Fazia tempo que ele suspeitava de que algo estava acontecendo, mas não sabia dizer exatamente o que era, e, após a derrota em Roma, as coisas enfim se esclareceram.

O vestiário da Fiorentina estava rachado; um lado era liderado por Daniel Passarella e o outro pelo capitão do time, Eraldo Pecci. O técnico Giancarlo De Sisti tinha conseguido colocar um esparadrapo sobre a ferida, mas, quando ele foi hospitalizado com um abscesso no cérebro, no fim de agosto, um vácuo de poder destruidor se instalou. Onesti passou a ser o treinador interino e foi incapaz de se impor, o que permitiu que transbordassem os ressentimentos que vinham permanecendo no limite da superfície enquanto o time vencia. Inicialmente, Sócrates não sentiu nenhuma simpatia particular por Passarella ou Pecci e relutou em escolher um lado, não apenas porque sabia que o time jamais conseguiria vencer se estivesse dividido, mas também porque fazê-lo seria aceitar um papel de subordinado a um dos dois. Mas vários dos jogadores escolheram lados e Sócrates ficou no
meio. Ele estava convencido de que alguns de seus companheiros o evitavam deliberadamente e se sentiu perseguido tanto por ser estrangeiro quanto por ser progressista.

Sócrates e Zico, 1982
Sócrates e Zico, 1982 J. B. Scalco/VEJA
Continua após a publicidade

O brasileiro ficou vulnerável sem o suporte do técnico que o contratou e, sem aliados, transformou-se em bode expiatório. Muitos de seus companheiros achavam que ele não vinha fazendo sua parte e vários tinham objeções ao que consideravam atitudes antiprofissionais e falta de esforço. “Esses caras eram profissionais dentro e fora do campo e não entendiam por que Sócrates, que podia ser grande dentro, não era fora também”, disse Galli sobre  seus companheiros. “Ele não tinha profissionalismo e não queria fazer sacrifícios. Queria que os outros jogadores corressem por ele, e os outros diziam: ‘Eu corro por Sócrates, ele precisa correr por mim’. Na cabeça dele,os outros jogadores deveriam ser
mais como ele, não o contrário.Mas eles acreditavam que ele precisava se acostumar ao nosso mundo. Esse foi o grande erro de Sócrates. Ele se recusou a fazer qualquer concessão.”
***
O descontentamento de Sócrates era exacerbado pelas dificuldades para se adaptar à vida italiana fora do campo. Florença é uma cidade antiga, cruzada por ruas estreitas que inesperadamente chegam a praças espetaculares com igrejas, bibliotecas e monastérios ainda mais maravilhosos. As ruas são ladeadas por antigos edifícios de pedra, coloridos por séculos de fumaça e fuligem. As igrejas têm mais de cinco
andares de altura, torres e cúpulas dominam o horizonte com as colinas da Toscana ao fundo. Sócrates, entretanto, via muito pouco disso. Ele se mudou com a família para uma mansão em Grassina, uma vila no alto de uma colina a cerca de 10 quilômetros do Stadio Comunale. A casa de dois andares tinha uma grande lareira, uma adega e era cercada por pomares que produziam uva chianti e azeitonas. Giancarlo Antognoni e Claudio Gentile estiveram entre os convidados para jantar na casa de Sócrates, mas Antognoni perderia toda a temporada por causa de uma lesão e, embora Sócrates provocasse Gentile — que nasceu na Líbia — apelidando-o de “Kadafi”, eles nunca foram próximos. Certo dia, Sócrates convidou parte dos jogadores para um churrasco e, para seu desgosto, apenas um deles apareceu.

A relutância dos italianos em socializar-se era um problema sério para um homem que enxergava a amizade e a camaradagem como prioridades, e a frieza dos companheiros aprofundou sua sensação de solidão. Sem amigos no time e com poucos conhecidos na nova cidade, ele se voltou para os brasileiros em busca de conforto. Sócrates e Regina estabeleceram uma amizade com José Trajano, um jornalista que conheciam de São Paulo e estava viajando num ano sabático com a namorada. Trajano, ex-editor de esportes da Folha de S.Paulo, aproveitava o período para escrever sobre o futebol na Itália. Os dois casais se tornaram próximos e, após mais uma de tantas noites regadas a vinho que terminaram com Trajano e a namorada dormindo no quarto de hóspedes, eles foram convidados a deixar a pensão onde se hospedavam e se mudar permanentemente. O isolamento mútuo e a saudade de casa aproximaram Sócrates e Trajano, como, nas palavras de Sócrates, dois bêbados infelizes que se apoiaram um no outro para sobreviver.

Sócrates e Trajano iam à cidade para comprar discos ou comer em alguma trattoria local, ou então ficavam apenas em casa bebendo e conversando. Mas mesmo quando seu círculo de amigos cresceu, Sócrates ainda considerava a vida italiana intolerável. Ele tinha ido à Itália, em parte, para aproveitar a cultura do país, mas demorou meses para ver o Davi, de Michelangelo, ou os Caravaggio, Botticelli e Da Vinci na Galeria Uffizi, pois os treinos em dois períodos, combinados com sua vida familiar e social, o mantinham ocupado. O inverno mais frio em 100 anos não ajudou em nada. Sócrates odiava o frio e as temperaturas de 23 graus negativos ao menos permitiam que ele impressionasse os visitantes colocando a cerveja para gelar do lado de fora da casa.

Sócrates passou apenas um ano na Itália e nós que estávamos aqui não o ajudamos”, disse Pecci. “Platini precisou de seis meses para compreender a liga italiana, Falcão também. O único que jogou bem desde o início foi Zico. Um período para se assentar é muito importante.” Soando até mesmo um pouco ridículo, Pecci afirmou ter amizade com o homem que ele chamava de “Magron” e reconheceu que Sócrates não deveria ser responsabilizado
por aquela frustrante temporada da Fiorentina. “Muitos jogadores não renderam o esperado. Quando as coisas não vão bem, as pessoas procuram razões em exageros com mulheres ou na vida noturna. A verdade é que vários dos jogadores não jogaram bem e nós não conseguimos os resultados.” E havia também a política. Horas depois de chegar ao clube, Sócrates foi apresentado à torcida numa cerimônia improvisada no Stadio Comunale. Milhares de torcedores se reuniram do lado de fora para ver a nova estrela e foram à loucura quando Sócrates lhes fez uma saudação com o braço erguido e o punho cerrado. Ele não sabia, mas o gesto com o punho cerrado era usado pelo Partido Comunista Italiano, o que criou problemas com os donos do clube, todos apoiadores dos democratas-cristãos, o partido de direita que era o maior do país.

Quando o evento acabou, eles almoçaram juntos e diretores do clube discretamente o puxaram de lado e pediram para que não repetisse o gesto. Sócrates ficou perplexo com a controvérsia, mas não estava disposto a esconder suas preferências. “Por que você fez aquele gesto?”, o presidente do clube, Ranieri Pontello, perguntou a ele. “Porque aquilo sou eu, é o símbolo da minha vida”, Sócrates respondeu. “De onde vem esse gesto?”, Pontello quis saber. “Eu não sei exatamente, mas me lembra do movimento black power na Olimpíada do México, em 1968. Tem a ver com várias coisas. É um símbolo, sei lá, uma comunicação com o público… Seja qual for essa comunicação.” “Você sabia que é o símbolo do Partido Comunista Italiano?”, Pontello perguntou. “Não”, disse Sócrates. “Mas adorei saber.”
***
Faltando apenas três jogos para o fim do campeonato, a Fiorentina jogaria contra a Udinese, e Sócrates, machucado, foi assistir ao jogo de calção e chinelos. Ele chegou tarde e, em vez de se dirigir ao camarote da diretoria, pegou uma cerveja e se posicionou perto da grade para ver o jogo a poucos metros da linha lateral. Os diretores gritaram para que se juntasse a eles, mas Sócrates ignorou os pedidos e os esnobou ainda mais. Um amigo, comediante local, estava perto dele e, no intervalo, Sócrates sugeriu que eles fossem ver o segundo tempo na Curva Fiesole, o setor atrás do gol onde se reuniam os “ultras” do time — os torcedores organizados. Eles foram recebidos como heróis quando chegaram e a experiência de passar 45 minutos perto de torcedores reais foi uma das memórias mais duradouras de sua passagem pela cidade. Inevitavelmente, entretanto, a aventura serviu para agravar as relações com os diretores e companheiros. Os Pontello ficaram irritados por terem sido esnobados e os jogadores acharam que Sócrates era louco. A distância entre eles estava ficando grande demais.

Um dos poucos momentos ensolarados durante aquele inverno gelado aconteceu em janeiro (de 1985), quando Sócrates foi a Roma para se encontrar com Tancredo Neves, o homem que o Congresso tinha escolhido para ser o primeiro presidente civil do Brasil em 21 anos. Sócrates adorou encontrar. Tancredo, que morreria tragicamente antes de tomar posse, e sentiu mais saudade de casa do que nunca ao pensar que uma mudança tão profunda estava acontecendo em seu país sem que ele pudesse testemunhá-la. Mas o encontro no hotel Excelsior, em Roma, teve
pelo menos um efeito positivo.

Os jogadores brasileiros que foram convidados reclamavam da aborrecida vida social na Itália e combinaram de organizar alguma coisa na época do Carnaval. Sócrates adorava o Carnaval e enxergou as celebrações como uma oportunidade não só de reunir os jogadores brasileiros, mas também de tentar mostrar aos companheiros de clube como fazer uma festa de verdade. Ele passou semanas gravando fitas cassete com seus sambas favoritos e comprou 200 litros de cerveja alla spina, antepasto suficiente para alimentar um estádio lotado e um leitão para fazer um churrasco, na parte de fora da casa, sob temperaturas abaixo de zero. Sócrates dividiu o evento ao longo de dois dias, com os brasileiros chegando na segunda-feira e os italianos no dia seguinte, que, por coincidência, era seu aniversário de 31 anos. A festa começou timidamente no domingo à noite, quando ele voltou de Bérgamo após marcar no empate em 2 x 2 com a Atalanta, mas as coisas realmente esquentaram na manhã seguinte, quando os brasileiros chegaram para a “fase 1”. Zico veio em seu BMW com Pedrinho, do Catania. Cerezo chegou de Roma e Junior apareceu com toda a família e um pé enfaixado. Edinho chegou em seu Maserati turbo. Só Falcão, que estava machucado, perdeu o evento.

A tradição no Brasil, em tempos carnavalescos, era cheirar lança-perfume, e Sócrates não seria derrotado pela ausência da droga — que era parte integrante do Carnaval brasileiro nos anos 1980, tanto quanto o samba e o sexo. Ele conseguiu que o cabeleireiro de Regina trouxesse spray para cabelo, que tinha o mesmo efeito intoxicante, e, quando os convidados passavam pela porta, tentava convencê-los a experimentar. “Esse baile foi planejado por muito tempo”, lembrou Trajano. “Ele passou dias gravando músicas de Carnaval, comprou serpentina para decorar a casa. Ele falou: ‘Pô, baile de Carnaval sem um lança-perfume não tem graça’, e comprou, com esse cabeleireiro da Regina, uma caixa de laquê. Com todo mundo que entrava, os jogadores também, ele pegava o lenço e punha para a pessoa cheirar. Só que cada laquê tinha uma cor. Tinha amarelo, verde… Durante a
festa, tinha gente com nariz verde, amarelo, vermelho.”

Sócrates durante treino do Corinthians, 1985
Sócrates durante treino do Corinthians, 1985 Rodolpho Machado/VEJA

A recepção aos companheiros da Fiorentina, no dia seguinte, foi igualmente inesperada. Eles chegaram vestindo terno, exibindo a típica elegância italiana, e Sócrates, em seu uniforme usual — roupas amassadas e tênis surrados —, não perdeu tempo na tentativa de tornar a festa mais brasileira. Havia preparado um par de tesouras de jardim para acabar com as formalidades e, quando os convidados entravam na casa, o anfitrião se divertia ao anunciar que as gravatas Armani e Dolce & Gabbana estavam prestes a ser aparadas. Oriali, Massaro, Galli e Gentile foram algumas das vítimas, que não tiveram escolha a não ser se render. Passarella se ajoelhou e implorou para que Sócrates poupasse seu caro acessório. Antognoni argumentou que sua gravata tinha sido um presente de sua mãe e quase chorou. Sócrates adorou e, com seu típico bom humor, ignorou os pedidos e abraçou cada um deles com metade de suas gravatas nas mãos. Estava radiante com a presença dos companheiros e, por um breve momento, imaginou que o feito de reunir os jogadores italianos para se socializar poderia funcionar como um estímulo para o time. “Agora, sim, somos um time de futebol”, ele disse.

***
O técnico De Sisti não se recuperou totalmente da cirurgia no érebro e foi substituído por Ferruccio Valcareggi, o respeitado treinador que tinha dirigido a Itália na Copa do Mundo de 1970. Mas a atmosfera era tão corrosiva que Sócrates pediu uma reunião urgente e os jogadores foram convidados a se encontrar na mansão de Pontello. Sócrates estava convicto de que tinha descoberto a razão para o racha no vestiário e queria fazer algo a respeito. “Por que você pediu esse encontro?”, Pontello perguntou, de um lado da enorme mesa de seu escritório. Os jogadores se ajeitaram nervosamente em suas cadeiras e murmuraram alguns chavões inconclusivos, enquanto olhavam para Sócrates, do outro lado da sala. “Eu quero dizer uma coisa”, ele respondeu, e começou com a costumeira cordialidade brasileira, antes de fazer acusações controversas. “Se eu puder explicar”, ele disse. “O que aconteceu foi o seguinte: um cara está dormindo com a mulher de outro e formou seu próprio grupo. Agora esses caras não falam com os outros caras, e esse grupo não passa a bola para os caras do outro grupo. A única solução é mandar o capitão embora.”“De jeito nenhum”, disse Pontello. “Não vou fazer isso. Ninguém vai sair.” “Tudo bem”, disse Sócrates. “Então me deem licença.” Ele se levantou e saiu.
Faltando quatro jogos para o fim da temporada, uma lesão impediu Sócrates de viajar a Turim para enfrentar a Juventus, e Cecconi, de 21 anos, fez sua quarta aparição no campeonato. Ele marcou um gol na vitória por 2 x 1 sobre os maiores rivais da Fiorentina, e o destino de Sócrates estava selado. Os torcedores tinham encontrado um novo herói. Sócrates nunca mais vestiu a camisa do clube. “Para ele, o futebol era uma questão de felicidade”, refletiu Stefano Carobbi, que depois se tornou treinador. “Ele queria estar sempre feliz. Na Itália, temosuma mentalidade diferente. Aqui
você precisa ter sua mente focada no jogo. Não é possível sorrir antes de um jogo e isso o fez sofrer. De acordo com ele, o time tinha de transmitir alegria, mas nós transmitíamos o oposto. Hoje eu sou treinador e percebo que ele estava certo. Não é uma questão de vida ou morte. Nós vamos para um jogo para desfrutar. Ele era o único que entendia isso.”

Sócrates tinha mais um ano de contrato em Florença, mas sabia onde encontrar a alegria que buscava, e não era na Europa. Ele estava desesperado para ir para casa. Talvez um pouco desesperado demais.

 

Matéria publicada na edição impressa 1481 de PLACAR, de novembro de 2021 

Continua após a publicidade

Publicidade