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Perguntas e respostas: a polêmica ação da Anvisa em Brasil x Argentina

Agência sanitária alega que argentinos falsificaram documento ao entrar no país; AFA e CBF se apoiam em acordo com a Conmebol e aguardam posição da Fifa

Por Guilherme Azevedo Atualizado em 23 set 2021, 17h18 - Publicado em 6 set 2021, 13h05

A partida de 5 de setembro de 2021 entre Brasil e Argentina, interrompida com pouco menos de seis minutos do primeiro tempo por agentes da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), deve ficar para sempre conhecida como uma mancha na histórica no Superclássico. Adiada do mês de março, por efeito da pandemia, e com rivalidade acirrada devido a última Copa América, vencida pelos visitantes em solo brasileiro, as imagens renderam manchetes pelo mundo todo e deixaram dúvidas sobre o futuro.

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Mas, afinal, de quem foi a culpa? Por que os quatro atletas argentinos não foram impedidos antes de entrarem em campo? Quais serão as punições? Em meio a versões desencontradas e notas oficiais evasivas, PLACAR, que acompanhou os acontecimento na Neo Química Arena, tenta esclarecer alguns pontos (enquanto outros seguem nebulosos):

Qual o motivo para a paralisação?

Quatro atletas da delegação argentina – o goleiro Emiliano Martinez, os meias Emiliano Buendia e Giovani Lo Celso e o zagueiro Cristian Romero – deveriam cumprir quarentena ao chegarem ao país. O motivo? O fato de terem passado pela Inglaterra nos últimos 14 dias. Os quatro atuam no futebol britânico, os dois primeiros no Aston Villa e os dois últimos no Tottenham. Eles chegaram ao Brasil vindos da Venezuela, após vencer a seleção local em Caracas.

De acordo com a Anvisa, houve informação errônea no formulário de entrada ao país, sem mencionar que estiveram na Inglaterra no período. Segundo o G1, o documento oficial da autoridade de saúde mostra que um membro da delegação, o diretor técnico Fernando Ariel Batista, falsificou a informação para a entrada dos quatro jogadores em solo brasileiro.

A PLACAR, Batista, que é treinador da seleções inferiores da AFA, negou participação com veemência. ” Sou treinador, nem sequer estive no Brasil. Não sei se há outro Fernando Ariel Batista na AFA, mas eu não fui. Não tenho nada a ver com questões administrativas”, garantiu o técnico, que comandou a Argentina nos Jogos Olímpico de Tóquio e depois seguiu a serviço das equipes sub-20 e sub-23.

Por que os argentinos chegaram até o campo de jogo?

A Anvisa alega que, desde sábado, 4, após reunião com a Conmebol e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) recomendou quarentena aos quatro jogadores argentinos, tentando isolá-los desde então. A posição é respaldada por nota oficial, emitida na véspera da partida, na qual diz que os jogadores estavam expressamente proibidos de “exercer qualquer atividade” em solo brasileiro. Sem retorno, a Anvisa acionou ação da Polícia Federal no caso para que a medida imposta pudesse ser cumprida. “As tentativas foram frustradas, desde a saída da delegação do hotel, e mesmo em tempo considerável antes do início do jogo, quando a Anvisa teve sua atuação protelada já nas instalações da arena de Itaquera”, diz em nota.

Quem tomou a decisão de deixar o campo?

A seleção argentina já estava decidida a não jogar caso algum dos quatro jogadores fossem impedidos pelas autoridades. Depois, o técnico Lionel Scaloni explicou que o delegado da partida, da Conmebol, sugeriu que os argentinos se retirassem de campo para evitar maiores problemas. A ordem era a mesma da mais alta cúpula da AFA. “Fico muito triste, não busco culpados. Se aconteceu alguma coisa, não era o momento de fazer esta intervenção. Devia ter sido uma festa para todos desfrutarem dos melhores jogadores do mundo. Eu, como técnico, vou defender meus jogadores”, disse. Scaloni ainda completou que “em nenhum momento fomos notificados de que não poderiam jogar.”

Mas os argentinos já sabiam ou não?

Não é verdade que os argentinos não sabiam dos riscos. Além da nota oficial emitida pela Anvisa na sexta-feira, noticiada por todos os jornais brasileiros e argentinos, houve contato entre a agência sanitária e a AFA. Dias antes, em 2 de setembro, a CBF enviou aos argentinos um documento à AFA alertando sobre todas as restrições sanitárias para entrada no país, assinado pelo secretário geral Eduardo Zebini. Junto com o ofício, anexou a portaria de número 655, de 23 de junho, que explica sobre a necessidade de quarentena para àqueles que estiveram no Reino Unido. O documento foi divulgado pelo Ge.com. Ele também foi encaminhado à seleção peruana, adversária na próxima quinta-feira, 9, em Recife.

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A CBF consentiu para que houvesse jogo?

A entidade se manifestou poucas mais de duas horas após o ocorrido e criticou a ação da Anvisa. “Ficamos absolutamente surpresos com o momento em que a ação da Agência Nacional da Vigilância Sanitária ocorreu, com a partida já tendo sido iniciada, visto que a Anvisa poderia ter exercido sua atividade de forma muito mais adequada nos vários momentos e dias anteriores ao jogo”. O presidente interino, Ednaldo Rodrigues, negou que a CBF ou dirigentes tenham interferido quanto a qualquer ponto relativo ao descumprimento do protocolo sanitário estabelecido pelas autoridades brasileiras para a entrada de pessoas no país.

“O papel da CBF foi sempre na tentativa de promover o entendimento entre as entidades envolvidas para que os protocolos sanitários pudessem ser cumpridos a contento e o jogo fosse realizado”, escreveu em nota, dizendo aguardar um posicionamento da Fifa sobre o caso. Tanto a CBF quanto a AFA eram a favor da realização do jogo com todos os atletas em campo, se baseando em um acordo estabelecido junto à Conmebol.

Como era o acordo com a Conmebol

Segundo informações do Uol, em julho de 2020, a direção da Conmebol se reuniu os ministérios da saúde dos dez países filiados e apresentou um plano que flexibilizaria as exigências sanitárias, dando uma autorização especial durante disputas das Eliminatórias e outros torneios continentais, contato que testassem negativo para a Covid-19. A chave do problema foi uma recente portaria interministerial assinada em 23 de junho pelas pastas da Casa Civil, Saúde e Justiça e Segurança Pública, que determina que viajantes que chegam ao Brasil com passagens por Reino Unido, África do Sul, Índia e Irlanda do Norte devem fazer quarentena de 14 dias.

Integrantes da AFA, da Conmebol e da CBF confiavam que o acordo seria cumprido, o que não ocorreu, causando surpresa geral. Há ainda uma confusão envolvendo o inciso 6.2 do artigo 7 da portaria que diz que  “o viajante que se enquadre no disposto no art. 3º, com origem ou histórico de passagem pelo Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, pela República da África do Sul e pela República da Índia nos últimos quatorze dias, ao ingressar no território brasileiro, deverá permanecer em quarentena por quatorze dias”. Isso significa que a norma valeria inclusive para cidadãos brasileiros.

Em entrevista à ESPN argentina, Antônio Barra Torres, presidente da Anvisa, confirmou que a norma valeria para brasileiros, dando a entender que mesmo que os atletas brasileiros que atuam na Premier League tivessem sido liberados por seus clubes, eles seriam impedidos de jogar. Ele disse ainda desconhecer os casos de Willian, do Corinthians, e Andreas Pereira, do Flamengo, que treinaram normalmente após chegar da Inglaterra e afirmou que investigará os casos.

Qual a versão da AFA sobre o caso?

A associação argentina manifestou críticas às autoridades brasileiras e também disse esperar uma ação definitiva da Fifa. “A AFA se encontra surpreendida pela ação da Anvisa uma vez iniciada a partida”, disse em um trecho, explicando que a chegada ao país ocorreu em 3 de setembro, às 8h, “cumprindo com todos os protocolos sanitários vigentes regulados pela Conmebol”.

Como a Fifa atuará agora?

O caso foi encaminhado ao comitê disciplinar da entidade que deve decidir se Brasil ou Argentina levarão os pontos da partida. A decisão, no entanto, pode demorar e dá direito a recursos por parte das federações. Uma nova partida é tida como muito improvável por não haver data livre tanto para brasileiros, quanto para argentinos. Ambas as seleções devem ficar com um jogo a menos, e sem a pontuação, até que saia um veredito da entidade que rege o futebol. O Brasil ainda lidera as Eliminatórias com sete vitórias e 100% de aproveitamento. A Argentina é a segunda, com 15 pontos.

O que dizem os clubes do jogadores envolvidos?

Segundo o diário The Telegraph, o Tottenham não deu permissão para que Cristian Romero e a Giovanni Lo Celso se apresentassem à seleção argentina, postura diferente do Aston Villa que, segundo a publicação, consentiu com a liberação de Emiliano Martínez e Emiliano Buendia. Vale dizer os 20 clubes da Premier League acordaram, por unanimidade, em não liberar atletas convocados para seleções que disputariam partidas em países que estão na “lista vermelha” do Reino Unido, ou seja, que contém altos índices envolvendo o novo coronavírus.

A Associação do Futebol Argentino (AFA) obteve um acordo junto à Premier League para que seus jogadores que atuam em clubes ingleses fossem liberados para disputar apenas duas das três partidas desta data-Fifa.

O que diz a Conmebol?

Por meio de nota, a entidade suspendeu a partida e deixou claro que caberá a Fifa decidir o futuro do confronto. A decisão, segundo diz, foi tomada pelo árbitro do jogo, que apresentará um relatório que será encaminhado a comissão disciplinar. Segundo o diário argentino Olé, o posicionamento da entidade é favorável aos argentinos uma vez que alertou a CBF que poderiam perder os pontos caso o jogo não fosse disputado, ou houvesse impedimento aos quatro atletas pivôs da polêmica.

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