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Opinião: Com escolhas ultraconservadoras, Tite atrai mais pressão

Apego por Willian e outros veteranos reforça a impressão de que o treinador prefere se manter no cargo a montar base para 2022

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 28 set 2021, 11h57 - Publicado em 7 jun 2019, 18h24

Tite sempre foi um treinador conservador e foi assim que conquistou admiração e títulos, como da Copa do Brasil, Brasileirão, Sul-Americana, Libertadores e do Mundial de Clubes. No entanto, sua cautela e, sobretudo, uma espécie de confiança irrestrita em atletas que já lhe entregaram resultados no passado causaram alguns problemas durante a Copa da Rússia e no Corinthians – no clube onde é ídolo, sua gratidão excessiva a atletas “cascudos”, como Emerson Sheik, também teve efeitos negativos. Às vésperas da Copa América, Tite se manteve fiel a seu estilo: apostou na segurança, especialmente no setor defensivo, e atrasou a renovação do time, cujo grande objetivo deveria ser a Copa do Catar em 2002. A estratégia parece clara: ganhar o torneio em casa e se manter, em paz, na medida do possível, no cargo.

Tabela completa da Copa América

O novo presidente da CBF, Rogério Caboclo, já afirmou categoricamente que Tite será mantido qualquer que seja o resultado na Copa América. O treinador gaúcho de 58 anos, no entanto, já está vacinado contra bravatas de cartolas. A escolha de Willian, 30 anos e duas Copas (apagadas) no currículo, como substituto de Neymar, foi mais uma das decisões conservadoras – e contestadas – do técnico. A torcida brasileira, cada vez mais distante da mística da camisa amarela, quer uma “nova cara” e uma opção mais ousada, como Vinicius Júnior, que recém completou a maioridade e já é uma das estrelas do Real Madrid. Tite, porém, preferiu priorizar a carência de títulos à de ídolos. O último de Copa América foi no longínquo 2007, com Dunga, outro técnico que não se importou com a renovação – foi ele quem preferiu Grafite a Neymar (e não mexeu no time na derrota para a Holanda, em 2010).

Ao recordar apenas seleções campeãs da América – pois é, sim, possível, vencer e pensar adiante –, o Brasil contou com o frescor de jovens talentos, como Romário e Bebeto, 23 e 25 anos, respectivamente, em 1989, a dupla que guiaria o Brasil ao tetra cinco anos depois; Ronaldinho Gaúcho, a revelação de 19 anos de 1999, que seria penta em 2002; e Adriano Imperador, carrasco da Argentina 2004, aos 22 anos. Tite também fez suas apostas no ataque, com David Neres e Richarlison, ambos de 22 anos, e com grande potencial e carisma. Mas poderia ter rejuvenescido outros setores, por exemplo, com Fabinho, destaque do Liverpool aos 25 anos, na vaga de Fernandinho, 34, entre outras possibilidades.

O Brasil terá o quinto elenco mais velho da Copa América, com média de idade de 27,3 anos. A defesa é o setor mais “experiente”, com destaque para Daniel Alves (36 anos), Miranda e Thiago Silva (34) e Filipe Luís (33), atletas que dificilmente chegarão ao Catar em 2022. O lateral do Atlético de Madri defendeu a escolha do chefe. “Se eu fosse o técnico, viriam os melhores, não importa a idade”, disse Filipe Luís, na zona mista do Mané Garrincha, há dois dias. No dia da convocação, no Rio, Tite também desconversou ao falar sobre a importância de vencer para se manter no cargo. “Eu me sinto pressionado desde quando assumi o Guarany de Garibaldi no meu primeiro jogo e vai continuar assim.” Mas chamando ainda mais para si a responsabilidade de vencer, com escolhas impopulares, Tite se coloca mais em perigo. Ao menos o técnico se livrou, contra sua vontade, de outro problema: a incapacidade de gerir o “furacão Neymar”, cortado do torneio por lesão. Mas até isso pode se voltar contra ele, que passa a ser a maior vidraça do time.

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