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Novato de Tite amargou reprovações e fama de franzino até encantar Bielsa

Destaque no Leeds e ainda pouco conhecido no Brasil, Raphinha superou frustrações para virar a aposta da seleção na rodada tripla das Eliminatória

Por Klaus Richmond 6 out 2021, 09h29

Causou surpresa na penúltima convocação da seleção brasileira, em 13 de agosto, no Rio de Janeiro, o vigésimo segundo nome na lista anunciada pelo técnico Tite: “Raphinha, Leeds United”. Sem nenhum histórico no futebol brasileiro e afastado do chamado Big Six, grupo dos seis maiores clubes da Premier League composto por Arsenal, Chelsea, Liverpool, Manchester City, Manchester United e Tottenham, sobraram dúvidas em relação ao meia-atacante canhoto de 24 anos. Os fãs mais assíduos das ligas portuguesa, francesa e britânica, no entanto, sabem se tratar de um raro talento.

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“É um atleta que tem uma característica técnica, de drible, acentuada. É um dos maiores assistentes de sua equipe e da Premier League, tem um número de gols importante, um jogador decisivo, que marca o ‘gol-chave’. Isso a gente analisa muito. Então, ele traz componentes técnicos, ele traz a velocidade de um externo, junto com qualidade técnica. Tomara que se confirme também nessa oportunidade dentro da Seleção”, justificou Tite.

Onze dias depois, Raphinha e mais outros oito convocados (Thiago Silva, Richarlison, Alisson, Fabinho, Roberto Firmino, Ederson, Gabriel Jesus e Fred) foram comunicados de que precisariam ser cortados devido ao veto unânime de clubes da primeira divisão inglesa. O episódio frustrou o jogador, mas nada tão grave para quem acumulou reprovações em categorias de base e esperou por quase 19 anos até a primeira grande chance no futebol, na equipe sub-20 do Avaí. Um novo chamado, último dia 24, o transformou na maior novidade do atual grupo de convocados.

  • Raphinha celebra gol do Leeds United diante do West Ham United -
    Raphinha celebra gol do Leeds United diante do West Ham United – Zac Goodwin/Getty Images

    “Foi bem complicado, fiquei bastante frustrado. Claro que tive esperança de vir até o último momento. Mantive contato com o Juninho [Paulista, coordenador da CBF], com pessoal da comissão, também, falando com o clube para ver se de alguma maneira isso poderia ser resolvido, mas, infelizmente, não foi. O que poderia fazer era manter minha cabeça no lugar, continuar trabalhando, porque sabia que em poucas semanas ia ter outra convocação. Então, só poderia manter foco, a cabeça boa para seguir trabalhando para ter outra oportunidade”, disse em sua primeira entrevista pela seleção. Quarenta e dois dias e mais algumas horas separaram as convocações.

    Raphinha nasceu e cresceu em Restinga, bairro localizado no extremo sul de Porto Alegre, comunidade com mais de 60.000 moradores. Ele conta que, na época, durante os testes e treinos, chegou a dividir lanche com amigos para não passar fome e pedia dinheiro a desconhecidos devido a distância e longo tempo para chegar em casa.

    Até os 17, só havia jogado torneios de várzea, “rejeitado por tantas categorias de base que já não conseguia mais contar”, relatou ao The Player’s Tribune. Internacional e Grêmio estavam entre eles. “Ele é muito pequeno, muito franzino, ele não tem força”, conta que eram as frase que mais escutava de avaliadores. Só conseguiu a sonhada aprovação longe de casa, no Avaí. No início, sequer era relacionado para as partidas e treinava sozinho. Pensava em desistir, voltar a jogar em torneios de futebol amador

    “Toda criança quer ser aprovada para jogar na categoria de base de um deles [grandes clubes]. Isso significa receber uma ajuda de custo para colaborar com a família e a possibilidade de se tornar jogador profissional. Muitos garotos reprovados nos testes acabam lá”, explicou no mesmo depoimento.

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    Raphinha e Mattheus Oliveira, filho de Bebeto, jogando pelo Vitória de Guimarães., de Potugal, em 2018 -
    Raphinha e Mattheus Oliveira, filho de Bebeto, jogando pelo Vitória de Guimarães., de Potugal, em 2018 – Gualter Fatia/Getty Images

    Condicionado a trabalhar pela mãe e sem ter completado os estudos, preferiu tentar mais um pouco no futebol. Acabou vendido, em fevereiro de 2016, ao Vitória de Guimarães, de Portugal, por 600.000 euros (2,7 milhões de reais à época). Ele havia se destacado na Copa São Paulo e o clube precisava pagar salários atrasados.

    Passou pela equipe B por uma temporada e se tornou titular absoluto nas duas seguintes fazendo entre 2017 e 2018 o melhor momento da carreira: 18 gols em 43 jogos, além de cinco assistências para companheiros. Indicado por Jorge Jesus ao Sporting, acabou negociado em 2018 por 6,5 milhões de euros.

    No clube de Lisboa, levou uma Taça da Liga e estreitou amizade com o português Bruno Fernandes, a quem chama de irmão mais velho por ter lhe ajudado na adaptação ao novo clube. “Em Portugal, conversávamos sempre e saíamos para jantar. Quando fui para o Rennes, ele me deu vários conselhos”, contou ao The Player’s Tribune.

    Bruno Fernandes, Raphinha, Fredy Montero e Nani celebram gol do Sporting na Liga Europa de 2019 -
    Bruno Fernandes, Raphinha, Fredy Montero e Nani celebram gol do Sporting na Liga Europa de 2019 – David Martins/Getty Images

    Antes da chegada ao futebol inglês, Raphinha foi vendido pelo Sporting ao Rennes por 21 milhões de euros. O fim da passagem no futebol português, encerrada em 2019, foi lamentada na ocasião pelo jogador. Duas temporadas depois foi para Leeds, por 18,8 milhões de euros, a pedido do técnico argentino Marcelo Bielsa.

    Técnico Marcelo
    Técnico Marcelo “El Loco” Bielsa observa arrancada de Raphinha – Paul Greenwood/Getty Images

    “Ele é um treinador muito exigente, dentro e fora de campo. Acredito que pela minha maneira de ser, muito exigente comigo mesmo também, acabou unindo duas coisas boas para o clube. Bielsa cobra sempre o máximo, tirando o máximo. Se o jogador conseguir entender que é a melhor maneira de evoluir individualmente e coletivamente todo jogador tem grande chance de evoluir”, afirmou na entrevista pela seleção.

    Com Bielsa, foram seis gols e nove assistências na primeira temporada, o brasileiro com mais passes decisivos para gols na liga, a frente de Firmino (7), Matheus Pereira (6). Sexto no ranking geral.

    A convocação foi comemorada com uma ligação do ídolo de infância: Ronaldinho Gáucho. A história dos dois, ligada por Restinga, aconteceu quando seu pai, que tem um grupo de pagode, foram chamados para uma festa de aniversário do antigo jogador, na ocasião no Barcelona. “O Ronaldo me mandou vídeo, ligou para o meu pai e me deu parabéns. Fiquei mais feliz do que já estava. Receber elogios de grandes pessoas é muito gratificante”, concluiu.

    Com a maior chance até aqui, Raphinha espera conquistar Tite agora. Buscando carimbar vaga na Copa do Catar em 2022, o Brasil enfrenta pela rodada tripla das Eliminatórias a Venezuela na próxima quinta-feira, 7, em Caracas. Depois, encara a Colômbia, em Barranquilla, no domingo, 10, e fecha a rodada tripla contra o Uruguai, em Manaus, dia 14.

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