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Memória: em 1989, a indignação de Maradona nas Páginas Amarelas

Em entrevista a VEJA, campeão do mundo condenou os militares golpistas da Argentina, elogiou Fidel Castro e falou de sua admiração pelo futebol brasileiro

Por J.A. Dias Lopes Atualizado em 23 set 2021, 20h49 - Publicado em 26 nov 2020, 17h06

Entrevista publicada em VEJA em 18 de janeiro de 1989

Quem o vê pela primeira vez, com aquele reluzente brinco de platina e brilhantes na orelha esquerda, caminhando como se desse ligeiros saltos do chão, talvez para compensar a baixa estatura e o corpo atarracado — 1,66 metro e 70 quilos —, fica convencido de que a fama subiu à cabeça de Diego Armando Maradona. A impressão é falsa. Aos 28 anos, esse argentino de Villa Fiorito, nos arredores de Buenos Aires, campeão do mundo e considerado o maior jogador de futebol da atualidade, desfaz completamente a imagem negativa logo no primeiro contato.

Maradona recebe mensalmente do Napoli, o clube italiano com o qual tem contrato até 1993, um salário de 125 000 dólares, fora a casa de graça, os automóveis de presente, as viagens particulares pagas e os inúmeros contratos de publicidade que assina. Ganha tanto dinheiro e é tão assediado que mantém uma equipe de profissionais a acompanhá-lo: uma secretária, um técnico, um empresário e até um médico particular. Em Nápoles, ele é adorado. Os motoristas de táxi usam sua fotografia ao lado das estampas de San Genaro, o padroeiro da cidade. Na Itália, é a personalidade mais solicitada a aparecer em shows e na televisão. Cobra cachês altos e, frequentemente, destina-os a sociedades beneficentes que acolhem crianças pobres e abandonadas.

O campeão do mundo desmente a lenda de que um jogador de futebol só é capaz de usar a cabeça quando calça as duas chuteiras. Na Copa do México, em 1986, ele fez um gol de mão contra a seleção da Inglaterra — o país que, como todo bom argentino, tinha atravessado na garganta depois da derrota na Guerra das Malvinas. Solicitado a exibir seu orgulho em ter vencido a Inglaterra em campo, e com a ajuda de um gol duvidoso, ele respondeu: “Foi a mão de Deus que fez aquele gol”. Na semana passada Maradona recebeu VEJA em Roma para falar — num italiano fluente mas com sotaque — sobre Pelé, sobre a Copa do Mundo de 1990 e criticar ferozmente os militares insurgentes da Argentina.

Você se recusa a ser o novo rei do futebol. Gostaria, pelo menos, de ser o presidente da Argentina? Sou um jogador de futebol, não um político. Não gostaria de ser presidente do meu país. Para que isso acontecesse, precisaria entrar para a política. E tenho um péssimo conceito da política e dos políticos argentinos. Sou uma pessoa decepcionada. No meu país, a política tem sido usada contra o povo. Estou cansado de ouvir promessas de políticos e não ver nenhuma realização importante deles.

Os carapintadas, como são conhecidos os militares golpistas argentinos, que camuflam o rosto e saem às ruas para tentar derrubar o governo democrático, dizem a mesma coisa. Mas é diferente. Tenho criticado muito os carapintadas. Como todos os argentinos, estou cansado deles. É inacreditável que um carapintada possa acordar de manhã e decidir dar um golpe naquele dia, para colocar o seu grupo no poder. Estou cansado disso. O sentimento dos argentinos em relação aos militares ainda é movido pela questão dos desaparecidos. Eles sumiram com 30 000 pessoas. É inacreditável, mas os carapintadas parecem ignorar isso.

Na última tentativa de golpe, no fim do ano passado, referindo-se aos carapintadas, você afirmou que a Argentina rejeita aqueles que pretendem meter medo no seu povo. O que quis dizer com isso? Eu me referia ao fato de eles pintarem o rosto e saírem à rua desse jeito. Não acredito que o povo argentino possa ter medo de gente assim. Os argentinos reagem, não querem mais os militares que sumiram com 30 000 conterrâneos seus. Quando quero uma coisa, vou de rosto descoberto. Os carapintadas me deixam triste. Mas, ao mesmo tempo, me fazem rir. Quando vejo as fotografias deles na imprensa, dou risada. Mostro-as à minha filha, Dalma, de 1 ano e 9 meses, como se fossem fantoches, bonecos engraçados.

Na época em que seus conterrâneos desapareciam, você vestia a camisa da seleção argentina e a ajudava a conseguir vitórias que acabavam sendo usadas como propaganda do regime militar. Como se sentia diante disso? O povo argentino não sabia de nada. Eu vivi todo aquele momento no meu país e não via nada. Mataram 30 000 pessoas, e eu não via nada. Minha mãe não via nada, meu pai também não.

Os militares argentinos estiveram no poder de 1976 a 1983. Nesse período eles fizeram alguma coisa positiva para o seu país? Certamente eles fizeram uma coisa boa: acabaram com o terrorismo. Esse é um fato positivo. Mas não acredito que os terroristas fossem todos aqueles a que os militares deram fim.

Você é uma pessoa de esquerda? Sim, um pouco.

Há um mês, 100 intelectuais de todo o mundo divulgaram um manifesto em que pedem que Fidel Castro convoque um plebiscito livre, democrático, através do qual o povo cubano possa julgar os trinta anos de convivência com a revolução, nos mesmos moldes que o realizado no Chile, no ano passado. Você assinaria aquele manifesto ou só aprova moções contra regimes de direita? Assinaria. O princípio é justo. Mas acho que Fidel Castro o venceria. Ele é o mais inteligente de todos os atuais governantes do mundo. Não vi uma potencialidade igual em nenhum outro. Se convocasse um plebiscito, iria se sair bem.

O que você acha das atitudes do presidente Raúl Alfonsín na condução das últimas crises político-militares da Argentina? Ele cedeu muito? Deveria ser mais rígido? Não se pode criticar o comportamento de Alfonsín. A ele foi entregue uma nação arruinada. Criticar o papel que ele tem tido nas crises não torna a Argentina maior. Acho que o Alfonsín faz aquilo que pode. Ele não é um mágico, capaz de estalar os dedos e mudar o país.

Se houvesse outro golpe militar, você continuaria a vestir a camisa da seleção argentina? Sim, mas sem nenhum tipo de concessão. Procuro separar o futebol da política. Não permitiria que os militares se aproximassem de mim e dissessem qualquer coisa. Sem concessões, jogaria. Pelas pessoas que gostam de futebol na Argentina, que vibram comigo. Pelos torcedores do resto do mundo.

Em quem você vai votar nas próximas eleições presidenciais de seu país, no fim deste ano? Nenhum dos candidatos que se apresentaram eu considero ideal. Os peronistas podem ser favoritos, com o seu candidato, Carlos Saúl Menem, mas não creio que representem uma solução para a Argentina. Também não me entusiasmo com o outro candidato, Eduardo Angeloz, do Partido Radical. O melhor mesmo seria que Alfonsín continuasse. Esse é meu pensamento sincero.

Vivendo numa democracia, como a italiana, o que você aprendeu? Em primeiro lugar, que a gente pode falar livremente. Depois, que se pode mudar o governo em eleições. Aprendi também, com a democracia, que o mais importante é o povo. É para o povo e pelo povo que existe o governo.

Quando você está jogando, tem a consciência de que hoje é considerado o melhor jogador de futebol do mundo? Nem posso pensar nisso. Caso contrário, não teria a mesma garra em campo, uma qualidade que considero fundamental para qualquer jogador de futebol. Se estou jogando, procuro pensar que devo atuar o melhor possível e fazer o melhor pela equipe. Quando passo a bola para um companheiro e ele marca um gol, sinto-me tão feliz como se a conclusão tivesse sido feita por mim. Muitas vezes, porém, é inevitável que a consciência da fama me venha à cabeça.

Em que momento isso costuma acontecer? Quando a partida termina, principalmente aquela que meu time ganhou e na qual tive um bom desempenho. Começo a ouvir os comentários sobre o que fiz em campo, os elogios, e me convenço de quanto é importante o homem e jogador Maradona para o esporte de hoje.

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Você se considera o novo rei do futebol mundial? O único jogador considerado rei, na história do futebol, é Pelé. Mas um aviso: não gosto de comparações.

Pelé foi seu ídolo na infância e na juventude? Não. O meu grande ídolo era Angel Clemente Rojas, o “Angelito”, um centroavante inigualável que jogou no Boca Juniors da Argentina.

Você parece não gostar muito de Pelé. Há dois anos, em Milão, você o fez esperar cinco horas para ser fotografado ao seu lado. Essa história tem apenas um pequeno fundo de verdade. Há dois anos, fomos os dois a Milão para receber o “Oscar do Esporte Mundial”. Cheguei às 14 horas ao hotel. Como já havia almoçado e estava um pouco cansado, fui repousar. Pelé estava ali desde as 11 horas, mas ninguém me avisou disso. Chamaram-me mais tarde para dizer que ele esperava por mim. Fomos, enfim, fotografados juntos. Depois, montaram essa história de que o fiz esperar cinco horas. Já me aconteceu várias vezes isso. Simplesmente montam histórias irreais comigo. E eu fico mal com os outros.

Nenhum jogador brasileiro o impressionava? Claro que sim. Entre os brasileiros, sempre admirei o Rivelino. Ele me impressionava muito pelo seu estilo nervoso, bonito, com seu forte chute de pé esquerdo. Eu tinha prazer de ver o Rivelino jogar. Outros ídolos para mim são o Zico, o Júnior e o lateral-direito Nelinho. Pelé eu não podia admirar. Quase não o vi jogar. Pelo pouco que vi, contudo, considero-o um grande jogador da história do futebol.

No Napoli, você forma uma dupla perfeita com o centroavante brasileiro Careca dentro e fora do campo. Há algum segredo para isso? Não. Quando ele chegou ao Napoli, precisava de um companheiro que o entendesse e o introduzisse na equipe. Isso acontece com todo jogador que muda de clube. A pessoa que o entendeu e o introduziu na equipe do Napoli fui eu. Nós nos damos muito bem. Tanto que o chamo sempre de Antonio, seu nome de batismo, e não de Careca. Em campo, todos podem ver quanto nos entrosamos. Às vezes, tenho a impressão de que Antonio e eu conseguimos hipnotizar a torcida.

Como é o seu relacionamento com o Careca fora de campo? Somos dois grandes amigos. Nossas mulheres também se dão muito bem. Sou uma pessoa que tem um respeito muito grande pelas verdadeiras amizades, como a que tenho com Antonio. Frequentemente, nós nos reunimos em família para comer churrasco e falar das amenidades sobre as quais conversam os amigos. Não se pode esquecer que sou argentino. E, como tal, aprecio o autêntico churrasco, a carne na brasa. Acho que ensinei o Antonio a gostar desse prato. Hoje, ele aprecia o churrasco como eu: com a carne ainda rosada e cheia de suco. Antonio sabe comer bem. É uma pessoa que aprecia a boa mesa.

Se a Copa do Mundo da Itália fosse disputada hoje, que países teriam chance de vitória? É difícil responder a isso. A gente precisa fazer um exercício de imaginação. Eu colocaria a Itália como favorita. Apresenta-se em casa, isso pesa. Possui jogadores muito bons, como Vialli, Nannini e Mancini, do Sampdoria, além do Ferrara, do Napoli.

E o Brasil? O Brasil seguramente está interessado em vencer mais uma Copa do Mundo. Mas primeiro tem de passar pela eliminatória. O fato é que o Brasil sempre tem sido um forte candidato ao título mundial.

Há catorze brasileiros e sete argentinos jogando na Itália. Qual dos dois grupos tem apresentado o melhor futebol? Como grupo, os brasileiros são de fato mais numerosos. Saem mais de seu país do que os argentinos. Há grandes talentos entre eles. O Antonio, por exemplo. Mas acho que os argentinos, de modo geral, têm dado mais certo na Itália. O jogador precisa encontrar um time ao qual se adapte. O futebol italiano, ao contrário do que temos na América do Sul, é muito mais disputado, independentemente das qualidades individuais do jogador.

Em 1983, quando você estava no Barcelona, da Espanha, teve uma perna quebrada numa entrada criminosa do zagueiro Goicoechea, do Atlético de Bilbao. Por que você perdoou ao jogador que o atingiu e até hoje não esqueceu o comportamento selvagem da torcida do Atlético de Bilbao? Porque os torcedores mostraram ter uma cabeça quadrada. Quando o zagueiro me atingiu, os torcedores reagiram como se estivessem numa tourada. O toureiro era o Goicoechea. O touro era eu. Aplaudiram insistentemente quando o seu zagueiro foi expulso por haver atingido o Maradona. Perdoei ao Goicoechea depois de ele garantir que não teve a intenção de me atingir com tanta violência. Minha mãe viu aquilo pela televisão e chorou. Foi incrível.

Você parece ser muito ligado a sua mãe. O que ela representa para você? Na última tentativa de golpe dos carapintadas, liguei a ela para saber o que estava acontecendo na Argentina. Tem sido sempre assim. Telefono diariamente para a minha mãe. Também falo com meu pai, que considero igualmente uma pessoa maravilhosa. Minha mãe está com 60 anos. Não é muito idosa. Mas tenho medo do que possa lhe acontecer. É a pessoa mais bela que conheço na vida. Ela me dá conselhos até hoje — e sigo todos. Por ela eu seria capaz de tudo.

Sua filha, Dalma, ao nascer, tirou um pouco do lugar de sua mãe no coração? Ela me despertou um amor enorme, mas diverso. Eu queria muito ser pai. O amor que tenho por minha filha é lindíssimo. Ela me deixa meio bobo. Além disso, é a criança mais bela do mundo. Devolve em dobro todo o amor que lhe dou. Uma noite dessas, fui até a cozinha de nossa casa, em Nápoles, preparar-lhe uma mamadeira. Claudia, minha mulher, estava cansada e precisava dormir. A certa altura, cara a cara comigo, a Dalma me disse: “Papai, como você é bom”. Foi emocionante.

Você saiu de uma infância difícil, na Argentina, para a fama planetária. O sucesso mudou alguma coisa no seu relacionamento com a família? Não, absolutamente. Sou admirado pelos meus pais, irmãos, parentes e amigos. Eles têm orgulho de mim. Guardam recortes de jornais e revistas a meu respeito. Mas na família Maradona as pessoas mais importantes se chamam papai e mamãe, os velhos pais da casa. Os outros ficam todos atrás. Quando me tornei famoso, a primeira coisa que fiz foi respeitar isso. A minha família, nesse ponto, se parece muito com a italiana. O pai e a mãe são figuras sagradas.

Além de sua mãe e de seu pai, que outras pessoas o influenciaram na vida? Certos amigos do passado. Alguns, como o Jorge Cysterpiller, que inicialmente cuidou dos meus negócios, eu perdi. Não cabe aqui discutir por quê. Em compensação, a pessoa que ocupou o seu lugar e está comigo até hoje, o Guilhermo Coppola, se revelou espetacular. Faz aquilo que lhe digo e respeita a amizade que nos une.

Quais foram suas maiores frustrações na vida? Não tive muitas. No futebol, uma delas foi ser cortado da seleção argentina pelo técnico Cesar Luís Menotti, às vésperas da Copa de 1978, aos 17 anos, quando eu podia jogar e me tornar campeão mundial. A outra frustração foi não poder continuar a amizade de tantos anos com o Cysterpiller. Mas isso são águas passadas.

Até quando você pretende jogar futebol? Por mim, jogaria até os 50 anos. Mas isso é impossível.

E o que pretende fazer depois? Antes de tomar qualquer decisão, deverei pensar o que é melhor para meus filhos. Falo isso no plural. Além da Dalma, há outra criança a caminho. Claudia está com uma barriga de seis meses. Depois, preciso resolver se volto para a Argentina ou continuo na Europa. Seguramente, porém, vou me afastar totalmente do futebol. Não vou querer mais nada com ele. Só como torcedor.

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