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Liberta só ganhou importância após Flamengo? O que diz o arquivo de PLACAR

Ídolo rubro-negro Zico levantou debate complexo sobre o peso que a Libertadores e outros campeonatos adquiriram após os títulos do clube na década de 80

Por Luiz Felipe Castro e Guilherme Azevedo Atualizado em 14 dez 2021, 15h27 - Publicado em 14 dez 2021, 14h51

“Antes de 1980, ninguém ligava para Brasileiro. Antes de 1981, ninguém ligava pra Libertadores e muito menos pra Mundial. Foi o Flamengo ganhar e as coisas mudaram”. A frase, polêmica por si só, ganha ainda mais peso graças a sua autoria: Arthur Antunes Coimbra, Zico, a lenda rubro-negra e protagonistas daquelas conquistas, em depoimento à plataforma The Players Tribune. O debate tomou as redes sociais, com uma série de acusações de soberba flamenguista. É preciso analisar os contextos de cada época e, para isso, nada melhor do que vasculhar as cinco décadas de arquivos de PLACAR, que narrou todas as conquistas dos grandes clubes do país de 1970 para cá, e ouvir especialistas que vivenciaram as mudanças de prioridade das equipes.

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Antes dos títulos continental e mundial do Flamengo, em 1981, o futebol brasileiro já havia conquistado as Libertadores de 1962 e 1963 com o Santos e de 1976 com o Cruzeiro a equipe de Pelé também abocanhara o bi mundial. Também houve cinco vice-campeonatos da América (Palmeiras em 1961 e 1968, São Paulo em 1974, Cruzeiro em 1977 e Inter em 1980). O campeonato, porém, estava longe de ser a obsessão que é hoje. Na época, a truculência dos adversários, arbitragens suspeitas, logística ruim e a falta de retorno financeiro tornavam a Libertadores pouco atrativa quando comparada, sobretudo, aos Estaduais.

Sim, pode soar absurdo para os mais jovens, mas até nem tanto tempo atrás, eram os campeonatos regionais que enchiam estádios, o cofres dos clubes e os torcedores de alegria. O Santos de Pelé, por exemplo, abriu mão de disputar as edições de 1966, 1967 e 1969, para as quais estava classificado, depois de perder as edições de 1964 e 1965 em jogos duríssimos e polêmicos contra Independiente e Peñarol, respectivamente. Em entrevista a PLACAR no ano passado, Pepe, o “Canhão da Vila” relembrou este período.

“Naquela época, muitos jogadores do nosso time serviam também a seleção brasileira e as viagens eram um grande desgaste. Fazíamos excursões pela América e pela Europa. Era importante ganhar a Libertadores porque ela te levava ao Mundial e isso rendia ao Santos muito mais prestígio e retorno financeiro. Mas sempre houve essa preocupação dos dirigentes, eles não queriam que corrêssemos riscos”, disse Pepe, hoje com 86 anos.

“Naquela época não tinha tanta fiscalização, tantas câmeras, as arbitragens eram ruins, o adversário deixava o campo ruim de propósito para atrapalhar o toque de bola do Santos (…) Por questões financeiras, o Santos preferiu priorizar as excursões internacionais para conseguir bancar seus sete ou oito jogadores de seleção. Se tivéssemos focado mais na Libertadores, acho que nossa geração poderia ter ganhado umas dez taças… Dez talvez seja exagero, mas pelo menos umas cinco vezes, com certeza.”

A torcida não vai a campo ver os jogos da Libertadores. As partidas tem tanto interesse como os jogos amistosos

Telê Santana, técnico do Palmeiras, em 1979

Os arquivos de PLACAR confirmam uma relação dúbia dos clubes com a competição. As conquistas e presenças em fases finais sempre foram devidamente exaltadas, inclusive o título do Flamengo, mas, diante das circunstâncias da época, muitas vezes o torneio acabava escanteado. Em 1979, o Palmeiras contratou o uruguaio Pedro Rocha, campeão da América com o Peñarol e ídolo são-paulino, com o objetivo de conquistar a Libertadores pela primeira vez. No entanto, com o passar dos meses, o campeonato foi ficando em segundo plano. “Todas forças do Palmeiras estão centralizadas no Campeonato Paulista. Para a Libertadores, o que sobrar”, cravou PLACAR.

O técnico Telê Santana era quem mais tinha resistência com a competição. “A torcida não vai a campo ver os jogos da Libertadores. As partidas tem tanto interesse como os jogos amistosos.” No fim, o time não se classificou às semifinais da Libertadores e nem conquistou o Paulista daquele ano.

 

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Edição de PLACAR de 1979 mostra que Palmeiras priorizava o Paulistão
Edição de PLACAR de 1979 mostra que Palmeiras priorizava o Paulistão PLACAR/Reprodução

Ironicamente, Telê Santana foi um dos protagonistas do momento de virada do futebol brasileiro em relação aos torneios internacionais. Em 1992, o treinador com passagem pela seleção brasileira nas Copas de 1982 e 1986 mais uma vez tinha dúvidas sobre qual campeonato deveria priorizar. Foi convencido por dirigentes tricolores de que a Libertadores e, consequentemente o Mundial, seriam importantes para a imagem do clube, o que de fato, ocorreu. Na edição especial do título mundial de 1992 do São Paulo, PLACAR relembrou que, só após uma derrota por 3 a 0 diante do Criciúma, na Libertadores, que Telê Santa decidiu: “a meta é o mundo”.

Reportagem de 1992 de PLACAR
Reportagem de 1992 de PLACAR PLACAR/Reprodução

Em 1993, antes de o São Paulo conquistar o bicampeonato, PLACAR já destacava uma mudança na forma como os brasileiros olhavam para a Libertadores. “Afinal, mudou a Taça ou o jeito dos brasileiros (até então eternas vítimas do antijogo dos outros sul-americanos) encararem a competição?”, questionou a reportagem, que citou uma denúncia feita por Carlos Alberto Griguol, diretor técnico do Rosário Central, de que “Todas as equipes que chegaram à final da Libertadores até hoje estavam dopadas.”

Os tempos já eram outros, com maior controle antidoping, melhor logística, premiação, transmissões de TV e tudo o que ajudou a transformar a competição em sonho de consumo, algo que se mantém inalterado há mais de três décadas. Das últimas 12 edições da Libertadores (de 2010 a 2021), o Brasil venceu oito, reduzindo a vantagem dos clubes argentinos para 25 conquistas a 21 dos brasileiros.

Reportagem de 1993 sobre a importância da Libertadores
Reportagem de 1993 sobre a importância da Libertadores PLACAR/Reprodução

Mas afinal, Zico tem razão?

A questão levantada pelo Galinho, que toca não apenas na Libertadores e no Mundial, mas também no Brasileirão é complexa, pois carrega questões históricas e até geográficas. Celso Unzelte, jornalista da TV Cultura e ESPN, historiador de futebol e professor universitário, com longa carreira em PLACAR, deu o seu veredicto. “O Zico tem certa razão, só que ele está com uma visão muito carioca da coisa”, diz Unzelte. “O futebol brasileiro era estadual antigamente. Por que não se dava tanta importância a Brasileiro e Libertadores? Porque o estadual era mais importante, aos olhos dos torcedores. Por causa de rivalidade e tradição.”

“Nessa lógica de disputas internas, não dá para cravar quando a Libertadores se tornou importante, até porque essa data varia. Para o Zico, passou a ser importante depois de 81 porque ele é carioca. Para o paulista, após o bicampeonato do São Paulo em 92 e 93, isso eu não tenho dúvida nenhuma. Para um gaúcho, passou a ser importante depois da conquista do Grêmio, em 83. Para um mineiro, a Libertadores talvez tenha passado a ser mais importante em 1997, quando o Cruzeiro venceu pela segunda vez, porque em 76 foi algo muito ‘fora da curva’, em uma época em que não havia transmissão direta de todos os jogos”, completa Unzelte.

Ivan Drummond, jornalista do diário Estado de Minas, que tinha 18 anos quando o Cruzeiro ergueu a Libertadores de 1976, discorda da posição de Zico. “O futebol brasileiro na década de 60 era só Santos, só Pelé, achavam um absurdo o Cruzeiro jogar a Taça Brasil. Aí depois o Cruzeiro venceu a Libertadores e todo mundo quis ganhar. Quando o Zico fala isso, ele tem uma visão flamenguista”, avalia. “Existe uma cultura de que apenas Rio-São Paulo prestam. Foi o Cruzeiro o primeiro a vencer após o Santos de Pelé. Em Minas, o estadual nunca foi mais importante, o Cruzeiro enchia os estádios na Libertadores, até atleticano fazia questão de ir.”

 

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