ASSINE PLACAR DIGITAL NO APP POR APENAS R$ 6,90/MÊS

Ingresso, hotel e locomoção: torcedor vende até carro por final no Uruguai

Assistir Palmeiras x Flamengo pela final da Libertadores em Montevidéu está mais caro que ver um clássico na Europa; confira os valores

Por Guilherme Azevedo, Klaus Richmond Atualizado em 22 out 2021, 13h00 - Publicado em 22 out 2021, 12h50

O comerciante Reginaldo “Cachorrão” (maneira como é apelidado entre os amigos de Duque de Caxias, cidade da Baixada Fluminense), 54 anos, jamais tira 2019 das lembranças. Foi neste ano que ficou por mais de seis dias em um ônibus do Rio de Janeiro a Lima, no Peru, e acumulou uma dívida superior a 15.000 reais para ver de perto o Flamengo nas decisões da Libertadores e do Mundial de Clubes. Agora, perto de mais uma final do clube carioca, ele ainda faz as contas para chegar a Montevidéu. O Flamengo decide com o Palmeiras, no dia 27 de novembro, no estádio Centenário, o título da competição sul-americana.

Assine a revista digital no app por apenas R$ 14,90/mês

“Infelizmente, acho que não vou pro Uruguai. Só se eu achar ingresso por preço mais acessível. Está muito caro. Mesmo que as viagens em 2019 tenham sido puxadas no bolso, elas valeram cada centavo. Mas, para este ano, está difícil”, lamentou o torcedor a PLACAR.

Reginaldo é só um entre flamenguistas e palmeirenses que têm encontrado dificuldades para chegar ao Uruguai. Há dois anos, conta aos risos que viu a esposa Cirley fazer greve de silêncio por uma semana pelo custo da paixão. Ele levou faixas de bicampeão do mundo para vender e ajudar no pagamento. O título não veio, o Flamengo foi derrotado para o Liverpool por 1 a 0 em Doha, no Catar, e sobraram despesas.

Reginaldo em Doha, no Catar. Viagem custou mais de 15.000 -
Reginaldo em Doha, no Catar. Viagem custou mais de 15.000 – Arquivo pessoal/Reprodução

Porém, há um outro lado da história: aqueles que não poupam loucuras, como Pedro Henrique Moreira, torcedor do Palmeiras, que mora no interior de São Paulo. Ele já reservou passagem para Montevidéu. O engenheiro de 24 anos vendeu seu Volkswagen Gol, ano 2019, na última semana por pouco mais de 45.000 e, assim, viajará para a capital uruguaia em busca de ingresso para a decisão da Libertadores.

Na última edição do torneio, em que o alviverde da capital paulista ficou com o título, o torcedor já foi impedido de assistir ‘in loco’ pelas restrições impostas para conter o avanço do coronavírus e afirmou: “Na do ano passado – que foi disputada no início de 2021 – eu assisti de casa. Sem família, sem nada. Fiz churrasco e bebi cerveja sozinho. Por isso, neste ano, o esforço é válido. Quero levar amigos comigo, mas acho que nenhum deles é doido assim (risos)”.

A ida para o país vizinho é apenas um dos desafios pela decisão. Se desejar ir e voltar de avião, o torcedor precisará desembolsar em torno de 10.000 reais. Contudo, há mais agravantes para acompanhar do estádio a final: a busca pelos caros ingressos e a estadia superfaturada no local.

Divulgado nesta semana, o preço mais baixo de um ingresso para entrar no Centenário é 200 dólares (moeda que a Conmebol divulgou, mesmo com apenas o Equador a adotando oficialmente na América do Sul), o que representa 1.141 reais na atual cotação: valor pouco inferior a um salário mínimo.

Diárias de hotel chegam até a 56.000 -
Diárias de hotel chegam até a 56.000 – Airbnb/Reprodução

Além do alto valor, existe a incerteza pela acirrada busca, tendo em vista que são apenas 20.000 à venda para milhões de torcedores. Sobre isso, jogadores do Palmeiras se manifestaram contra: “A gente fica triste. Temos torcedores de todas as classes sociais. Aí quem tem menos condições financeiras não tem a oportunidade de ver o clube dele participar de um momento tão importante. Tinha que ser mais barato”, desabafou o goleiro Weverton.

Continua após a publicidade

Como se não bastasse os gastos com passagem e locomoção, a hospedagem em Montevidéu também exigirá esforços – ou até loucuras – financeiras. De acordo com o AirBnb, aplicativo de aluguel de imóveis, o preço médio de reservas da data da final da Libertadores com dias “comuns” contrasta.

Para o dia do evento, uma diária para duas pessoas não sai por menos de 1.000 reais, enquanto nesta sexta-feira, 22, chega no máximo a 400 reais. Se a preferência for ficar em hotéis, o valor é até mais alto. Como exemplo disso, uma noite no Don Boutique Hotel sai por 510 reais para o 5 novembro, enquanto para dia 26 do mesmo mês 51.000 reais. Além da organização individual, existem pacotes para ir ao Uruguai, como o divulgado pelo Flamengo.

Aos associados, clube carioca disponibiliza três opções de pacotes. O mais barato, para Colônia do Sacramento, pode ser comprado por dez parcelas de 999 reais ou 9.490,50 reais à vista. A distância para a capital uruguaia é de 180 quilômetros, pouco mais de duas horas de carro.

Nenhuma das ofertas do clube contempla os ingressos. No pacote, estão inclusos um quarto individual com duas noites no Uruguai, traslado do aeroporto para o hotel e do hotel para o estádio, café da manhã, voo em aeronave fretada e exclusiva, exame RT-PCR para o retorno ao Brasil, além de uma concentração pré-jogo, chamada de “Casa Flamengo”, com três horas de duração, bebidas e comidas inclusas.

Estádio Centenário, palco da final brasileira -
Estádio Centenário, palco da final brasileira – Mariana Greif/Getty Images

Outras possibilidades, mais caras, são para hospedagem em Piriápolis (98 km de Montevidéu) e Punta de Este (130 km), ambas com valores de 13.290 reais à vista.

Antecedentes e comparações

Pela situação, comparações foram feitas para deixar ainda mais claro o alto preço de ir assistir à final da Libertadores. Como exemplo, está a entrada mais barata para a final da última Liga dos Campeões, disputada no Porto, Portugal, entre os ingleses Chelsea e Manchester City custou 70 euros, equivalente a 463 reais. No entanto, para o europeu, que recebe na moeda local, o gasto foi consideravelmente menor do que o do brasileiro que irá ao Uruguai.

Éverton Ribeiro, do Flamengo, e Dudu, do Palmeiras, em confronto pelo Brasileirão -
Éverton Ribeiro, do Flamengo, e Dudu, do Palmeiras, em confronto pelo Brasileirão – Alexandre Schneider/Getty Images

As críticas sobre valores impostos pela Conmebol não são novas. Na decisão da Copa América de 2019 ingressos atingiram 890 reais, representando 89,1% do salário mínimo da época: 998 reais. Na Eurocopa de 2018, o ingresso mais caro custou 895 euros (3.884 reais), 58% do salário mínimo na França.

Elitizado, o futebol dos últimos anos afastou ainda mais as classes, o que é assunto até entre especialistas no mercado esportivo, como Bruno Maia, executivo da Feel The Match e especialista em inovação e novos negócios na indústria do esporte: “o futebol vai ser cada vez mais um produto de nicho. Talvez um nicho maior, mas cada vez se afasta mais do aspecto popular. Nos estádios, no pay-per-view, na saída da TV aberta. E não acho que seja esse valor por termos Palmeiras e Flamengo. O ingresso mais barato para a final entre Athletico Paranaense e Red Bull é 100 dólares (quase 600 reais). Ou seja, estamos falando de algo que vai se tornar cada vez mais comum”.

“Nunca vivemos um período tão grande de ausência de público nos estádios devido a pandemia, ocasionando um gatilho interessante que é a “escassez”. Com certeza este acontecimento contribui para que os ingressos tenham uma precificação maior do que o normal, além do fato de ser a final de um torneio tão importante. Vale lembrar que a valoração é estudada previamente, não é simplesmente colocar um preço e pronto, com certeza os organizadores tem noção do que estão fazendo e buscaram indicadores previamente para chegarem nestes preços”, concluiu Renê Salviano, especialista em gestão esportiva.

Ainda não assina Star+?! Clique aqui para se inscrever e ter acesso a jogos ao vivo, séries originais e programas exclusivos da ESPN!

Continua após a publicidade

Publicidade