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Gabigol e médico do Corinthians escancaram por que o futebol precisa parar

Ida de flamenguista a cassino clandestino e demissão de Ivan Grava evidenciam que nem mesmo o mais eficiente dos protocolos está imune a irresponsabilidades

Por Klaus Richmond Atualizado em 23 set 2021, 20h17 - Publicado em 15 mar 2021, 14h41

Um rumor equivocadamente atribuído à Nasa causou alvoroço na comunidade científica em maio do ano passado: a agência espacial americana teria descoberto um “universo paralelo”, um novo espaço onde o tempo corre e flui ao contrário, às avessas do nosso tempo. Tudo não passava de uma interpretação extrema de um estudo sobre a descoberta de partículas estranhas e eventos anômalos na Antártica (sem qualquer relação com a Nasa, muito menos comprovação sobre o tal universo). Os boleiros, porém, sempre acreditaram numa velha máxima, a de que o futebol é um mundo à parte, alheio ao restante da sociedade, uma tese absurda que nunca saiu de moda e ganhou contornos trágicos em tempos de pandemia do novo coronavírus.

A imagem do atacante Gabriel Barbosa, do Flamengo, detido pela Polícia Civil em um cassino clandestino no bairro da Vila Olímpia, na Zona Sul de São Paulo, na madrugada de domingo, foi o mais recente exemplo desta tese de que “no futebol, tudo pode”. A “falta de sensibilidade”, como definiu o próprio atleta, o maior ídolo esportivo das crianças no país, jogou luz a uma questão bem mais relevante do que sua irresponsabilidade: será mesmo que os protocolos do futebol são tão seguros, como bradam as federações?

O evento fechado pela polícia tinha aproximadamente 200 pessoas e ocorreu às vésperas da reapresentação do grupo principal de jogadores do Flamengo, de férias após a conquista do último Campeonato Brasileiro. Em entrevista ao Fantástico, da Rede Globo, Gabigol justificou que se dirigiu ao local “apenas para jantar com amigos”. O jogador se reapresentou ao Flamengo nesta segunda-feira e treinou normalmente após realizar exames.

Outra notícia relacionada à pandemia pegou os torcedores do Corinthians de surpresa. Nas últimas semanas, 26 profissionais do clube paulista foram diagnosticados com Covid-19, sendo 15 jogadores e 11 membros da comissão técnica e diretoria, alguns com estado de saúde em alerta, de acordo com declaração do consultor médico do clube, Joaquim Grava, a PLACAR: “O caso que mais nos preocupou foi o do Cauê, com perda de paladar, olfato, febre”, disse na ocasião. “Agora, ficarão, pelo menos, dez dias afastados dos treinamentos, mas dependendo pode chegar a duas semanas”.

Atletas foram flagrados se divertindo em resorts, sem maior preocupação com normas de isolamento, e o surto gerou consequências extracampo para o clube. O mais extremo deles foi o pedido de demissão do médico Ivan Grava, filho de Joaquim e que trabalhava no clube havia oito anos, neste domingo. Discordâncias no cumprimento do protocolo e a necessidade de utilizar os jogadores conflitando com a preocupação de cumprimento de uma quarentena completa levaram ao rompimento de uma relação que já vinha desgastada.

“Foi uma discordância de tempo de retorno entre o Corinthians e o Ivan. Todo o corpo médico conversou sobre as razões do protocolo com tempo maior. Não foi o presidente. O que existe é um corpo médico. Ficou resolvido que voltariam antes do previsto pelo Ivan. Ele se sentiu desautorizado e pediu demissão. Ninguém descumpriu protocolo”, explicou o presidente Duílio Monteiro.

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Onze jogadores foram vetados do jogo, mas Cássio, Fagner e Gabriel, peças fundamentais do técnico Vagner Mancini, voltaram a ser titulares na vitória por 1 a 0 contra o São Caetano, no ABC Paulista, após cumprirem quarentena de apenas nove dias. Grava citou que a quarentena duraria, pelo menos, dez dias, mas poderia perdurar por mais tempo se necessário.

Os episódios mesmo marcantes, podem ter pouco peso para o universo paralelo tão citado e existente no futebol. Na manhã desta segunda-feira, 11, 24 horas depois da demissão de Grava e do caso envolvendo Gabigol, o presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF), Reinaldo Carneiro Bastos, se reuniu com membros do centro de contingência do estado. Estava em debate a possibilidade de retomar a realização do campeonato estadual, suspensa por ordem do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) a partir desta semana. O secretário estadual de saúde, Jean Gorinchteyn, não estava presente.

A Federação insiste que o futebol tem protocolos rígidos e pode, sim, seguir sem maiores agravantes neste momento. Se não convencer o MP-SP, ganha cada vez mais força a transferência de jogos para outros estados como Minas Gerais e Rio de Janeiro. Um deles, entre São Bento e Palmeiras, já foi confirmado para Belo Horizonte. Os treinamentos dos clubes seguem normalmente, mesmo após a decisão de paralisação do estado de qualquer atividade esportiva.

Técnico Marcelo Veiga
Técnico Marcelo Veiga morreu de Covid aos 56 anos Renato Pizzutto/Dedoc

Até hoje, os apelos pela paralisação e a mobilização do futebol foram gritos quase solitários, ainda que a atividade não seja considerada “essencial” e apesar da presença de diversos profissionais do chamado grupo de risco nas comissões técnicas e delegações. É óbvio, mas nunca demais lembrar: basta que um único funcionário esteja contaminado para que exista uma possibilidade de surto em um CT ou estádio.

O técnico Lisca, do América Mineiro, mencionou que o momento era de “segurar a vida”, pois já havia perdido amigos treinadores. O caso de Marcelo Veiga, que faleceu no último dia 14 de dezembro, em Bragança Paulista, após quase 30 dias na UTI da Santa Casa da cidade por complicações pela doença, parece quase esquecido. Veiga tinha 56 anos e não foi o único.

No Piauí, no último dia 11, o Tiradentes perdeu o seu preparador de goleiros, o pernambucano Samuel José Bezerra da Silva, internado desde fevereiro com Covid-19. O profissional foi infectado na mesma época que o treinador Paulo Júnior, ambos moravam no mesmo hotel na capital piauiense. O técnico ficou uma semana internado, enquanto Bezerra não voltou mais.

Desabafos sobre a doença, sugestões para a paralisação completa do futebol causam reações. No início do mês, o presidente Andres Rueda, do Santos, foi o único dirigente a dizer publicamente que o futebol deveria parar, o que trouxe reflexos imediatos. “Seria mais prudente, embora doa na carne, entrarmos em um período de paralisação. Suspender o campeonato mesmo, embora as entidades tenham tomado um cuidado excelente”, disse Rueda ao jornal Folha de S.Paulo, na ocasião.

Rueda sofreu pressão imediata e aconselhamentos internos pela declaração. Um dia depois, em nova entrevista à Santa Cecília TV, ele atenuou a fala dizendo que a decisão de parar cabia a Federação, a CBF e que o Santos apenas acataria. Na Vila, dirigentes do clube chegaram a citar para o presidente que a declaração “custaria milhões” e geraria prejuízos iminentes.

A CBF já afirmou na última semana que os campeonatos não vão parar. A entidade afirmou que aplicou mais de 90 000 testes de coronavírus com taxa de positividade de 2,2%: o “ambiente seguro e controlado aos jogadores e comissões técnicas”. Enquanto isso, nos últimos dados disponibilizados, o Ministério da Saúde registrou 43.812 novos casos e 1.127 novas mortes. No total, são 11.483.370 casos e 278.229 óbitos confirmados em todo o território nacional. Mas a bola ainda insiste em rolar.

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