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Flamengo x Palmeiras: o ápice de uma nova rivalidade nacional

Há tempos, o Brasil não tem um clássico interestadual tão apimentado. Cariocas e paulistas dominam o cenário — mas só um deles terá o tri da Libertadores

Por Luiz Felipe Castro e Klaus Richmond Atualizado em 27 nov 2021, 02h56 - Publicado em 27 nov 2021, 08h00

Costurada pelo sucesso dos Estaduais, que até pouco tempo tinham enorme relevância, a história do futebol brasileiro consagrou rivalidades locais. Atlético x Cruzeiro, Inter x Grêmio e Bahia x Vitória são alguns dos candidatos a maior clássico do país. Paulistas e cariocas, separados por apenas 430 quilômetros da Via Dutra ou 45 minutos de ponte aérea, também se acostumaram a manter suas rixas em casa, até pelo fato de cada estado ter quatro clubes grandes. Vive-se, agora, no entanto, uma nova era de rivalidade interestadual pintada de vermelho, preto e verde. Há pelo menos cinco anos, Flamengo e Palmeiras, disputam o posto de clube mais poderoso do Brasil. Faltava um grande tira-teima. Não faltará mais.

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Neste sábado, 27 de novembro, no mítico gramado do Estádio Centenário, em Montevidéu, no Uruguai, eles decidem a Copa Libertadores, a partir das 17h (de Brasília). Como na final da Copa do Mundo de 1970, entre Brasil e Itália, um dos dois sairá de campo tricampeão — e, de quebra, poderá tirar onda como o grande esquadrão do país. De 2016 para cá, as equipes conquistaram quatro de cinco edições do Campeonato Brasileiro — 2016 e 2018 o Palmeiras, 2019 e 2020 o Flamengo. Além disso, cada um levou uma Libertadores e mais uma série de canecos.

A história recente até registrou rivalidades que cruzaram fronteiras e deixaram resquícios, como Flamengo x Atlético Mineiro, na década de 80, ou Corinthians x Inter, no início dos anos 2000. Nesses casos, porém, foram as arbitragens controversas e bravatas de cartolas que elevaram o tom. Desta vez, como nos tempos do Santos de Pelé contra o Botafogo de Garrincha, o embate é essencialmente esportivo, com inevitáveis faíscas que extrapolam o gramado — e também econômico, afinal, custa caro manter elencos qualificados. Que o diga Leila Pereira, da Crefisa, que põe algo em torno de 120 milhões de reais por ano no Verdão.

O novo confronto começou em 2016, quando os times disputavam cabeça a cabeça o título do Brasileirão. O troféu ficaria com a turma de Cuca e Gabriel Jesus, enquanto os flamenguistas tiveram de aguentar as piadas sobre um tal “cheirinho”, resposta ao suposto “cheiro de campeão” que os cariocas diziam sentir, numa galhofa pueril. O aroma de provocação se repetiu em 2018. O decacampeonato palmeirense foi selado em São Januário, contra o Vasco, e, ao pegarem a ponte aérea no Aeroporto Santos Dumont, atletas do Palmeiras debocharam diante de uma loja do Flamengo.

A vingança do rubro-negro veio no mágico ano de 2019. Os versos de “o Palmeiras não tem Mundial”, em ritmo de pagode, embalaram a festa do Brasileirão e da Libertadores. Gabigol, um provocador nato, puxou a fila. Ele, aliás, gosta de alimentar essa rixa desde os tempos de Santos e já pode se considerar um carrasco: foram onze gols em vinte duelos contra o Palmeiras na carreira. Nas redes sociais, o choque é constante, inclusive de cunho político, porque o Flamengo presidido por Rodolfo Landim deu as mãos a Bolsonaro e não a solta de jeito nenhum.

Até este ano, a única decisão continental entre as equipes era a da Mercosul de 1999, um título menor, apesar do festival de gols (4 a 3 para o Flamengo no Maracanã, e 3 a 3 no velho Palestra Itália) e de ter tirado os cariocas de uma fila de dezoito anos sem título internacional. O segundo duelo, válido pela Supercopa do Brasil, em 11 de abril deste ano, teve roteiro semelhante em Brasília: belos gols, empate em 2 a 2 e taça flamenguista. O Palmeiras agora quer vingança e no melhor palco possível. Será o ápice de uma rivalidade inédita. Quem ficará com o tri?

PLACAR de outubro detalhou a nova rivalidade nacional
PLACAR de outubro detalhou a nova rivalidade nacional ./Reprodução

A boa fama de malvadão

O Flamengo sofreu para voltar a erguer taças. Impiedoso em campo, ruidoso fora dele, o time desperta amor ou ódio, mas nunca indiferença

Eduardo Bandeira de Mello tinha um claro objetivo quando venceu as eleições no Flamengo, em dezembro de 2012. Um dia antes de ser empossado, o clube formalizaria a desistência da contratação do atacante Robinho, principal reforço cogitado. “Em virtude do valor solicitado para a realização do negócio, achamos por bem, neste momento, não seguir adiante nas negociações”, informava, em nota divulgada à imprensa. Nos primeiros dias de janeiro de 2013, com menos de um mês no cargo, outra baixa inesperada: a liberação do atacante Vagner Love, o principal nome e o maior salário do elenco. A motivação era pôr em dia uma dívida pendente com o CSKA Moscou. Eram tempos de vacas magras. “Queremos cortar custos, trabalhar com valores dentro da realidade financeira do clube”, dizia Bandeira à época.

De 2013 a 2018 o rubro-negro conquistou apenas três dos 23 troféus disputados. Dois deles modestos, os estaduais de 2014 e de 2017. O mais relevante foi o da Copa do Brasil de 2013. No Brasileirão, ia mal das pernas. Em 2017, bateu na trave, perdendo a final da Sul-Americana para o Independiente, em pleno Maracanã. Um ano depois ficaria com o vice da Copa do Brasil, vencida pelo Cruzeiro.

E então, Bandeira foi embora. Virou alvo de acusações de um antigo apoiador, Rodolfo Landim, o atual presidente. Deu-se, a partir da mudança de direção, uma extraordinária reviravolta ancorada em patrocínios fortes. “No Flamengo tudo é possível, mas hoje qualquer profissional gos­taria de trabalhar no clube, em qualquer área, e não apenas os jogadores”, disse Zico a PLACAR.

Aos que já estavam na Gávea (Everton Ribeiro, Diego e Vitinho), juntaram-se Gabigol, Bruno Henrique, Arrascaeta, Filipe Luís, Rodrigo Caio, Michael e Pedro, todos ainda na equipe, além de outros que já saíram, como Gerson (Olympique de Marselha), Rafinha (Grêmio) e, principalmente, Jorge Jesus (Benfica). O míster foi o rosto de uma nova identidade vencedora. Foram cinco títulos: da Libertadores ao Campeonato Brasileiro, em 2019, com 16 pontos de diferença para o segundo colocado. Ainda deu tempo para levar a Supercopa do Brasil, a Recopa Sul-Americana e o Campeonato Carioca, em 2020.

As vitórias diante do Barcelona de Guayaquil, no Equador, na semifinal da Libertadores de 2021, encheram de vez o moral do clube. Você provavelmente já disse em algum momento “odeio” ou “adoro” este Flamengo. Certo é que, dificilmente, há alguém indiferente a ele. A fama de mau foi adotada pelo próprio elenco com gosto pelo apelido de Malvadão, inspirado na música adaptada de MC Reizin Chamo Teu Vulgo Malvadão, para a versão Flamengo Malvadão.

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Por ser o time a ser batido, o Flamengo gostou dessa posição, o de desmancha-prazeres dos adversários, liderada por uma dupla de ataque matadora. Gabigol tinha feito 97 gols pelo clube até o início de outubro. Bruno Henrique, 71. O camisa 9 é o artilheiro da atual edição da Libertadores, com dez gols. Somados, os dois atacantes marcaram juntos 36 dos 72 gols nas últimas três edições do torneio continental. O problema: a vontade de vencer, ao deixar o gramado, virou sinônimo de antipatia.

Causaram enorme incômodo as movimentações do clube, em plena pandemia do novo coronavírus, para se manifestar por várias vezes favorável à volta de público aos estádios, de modo precoce. Em junho de 2020, depois da paralisação de 96 dias, a equipe foi a primeira a jogar no país, contra o Bangu, no Maracanã. Ficou marcado o fato de a poucos metros do estádio haver um hospital de campanha em funcionamento para tratar de pacientes infectados pelo vírus.

Landim também aproximou o clube de Jair Bolsonaro. Pessoas próximas ao cotidiano do time e da Presidência da República atribuem o estreitamento da relação a uma suposta promessa de apoio flamenguista à reeleição de Bolsonaro, em 2022. As duas partes negam, mas pululam fotos de encontros da dupla. A cartada mais recente, e ruim, foi a tentativa de conseguir na Justiça autorização para jogos com torcedores nas arquibancadas, antes de todo mundo. Dezessete clubes da elite do futebol nacional, além da CBF, protestaram contra a atitude isolada, francamente egoísta, alheia ao drama sanitário.

O Grêmio chegou a ameaçar não entrar em campo na partida de volta das quartas de final da Copa do Brasil. Entrou e perdeu.
Renato Gaúcho e seus comandados desdenham das movimentações políticas, embora muitos as apoiem, e seguem firmes com um único objetivo: ter o direito de o time ser chamado de dono do Brasil, da América, do mundo e de onde mais puder. Não há meio-termo com o Flamengo, definitivamente: é paixão ou aversão.

Bruno Henrique, Arão, Diego e Rodrigo Caio, do Flamengo, erguem a taça da Supercopa do Brasil
Bruno Henrique, Arão, Diego e Rodrigo Caio, do Flamengo, erguem a taça da Supercopa do Brasil Alexandre Schneider/Focus Features

Cada vez mais imponente

Dizem que o time não encanta. algum alviverde se importa? Com crucial aporte financeiro e boa gestão, o verdão voltou ao topo — e lá quer ficar

A trajetória recente do Palmeiras começou a mudar no fim de tarde de 7 de dezembro de 2014. Aos gritos de “vergonha” de seus torcedores no recém-inaugurado Allianz Parque, o Palmeiras empatou em 1 a 1 com o Atlético-PR (na época, ainda sem H) e só se salvou do rebaixamento à Série B do Brasileirão graças a uma derrota do Vitória, seu concorrente direto, para o Santos, em Salvador. Apenas os deuses do futebol
sabem o que teria ocorrido com a equipe alviverde no caso de uma terceira e humilhante degola.

Menos de um mês depois, contudo, deu-se uma dupla de passos que se mostraria crucial: o clube então presidido pelo advogado e empresário Paulo Nobre, que emprestara uma fortuna ao time do coração, frustrou o rival Corinthians ao anunciar o atacante Dudu; dias depois, o Verdão superou a concorrência do São Paulo e fechou contrato com a Crefisa como seu novo patrocinador máster. O resto é história.

Quase sete anos depois, com Dudu de volta, decisivo como sempre, e Leila Pereira, dona da Crefisa, prestes a assumir a presidência em 2022, o Palmeiras desfruta de uma condição tão ou mais hegemônica quanto aquela vivida nas décadas de 70 e 90. Só mesmo o Flamengo tem conseguido bater de frente com regularidade, mas um eventual tricampeonato da Libertadores seria o triunfo definitivo de uma gestão tão controversa quanto vencedora. Antes de ser confirmada como candidata única à presidência, Leila renovou o maior contrato de patrocínio do país: 81 milhões de reais anuais fixos, mais variáveis que podem chegar a 120 milhões de reais. É um caminhão de dinheiro, mas cabe a ressalva: o Palmeiras já não é tão dependente financeiramente da Crefisa como no início da parceria e nem tão gastador.

A atual temporada, na verdade, foi marcada por austeridade financeira, o que chegou a irritar alguns torcedores e até o técnico Abel Ferreira. Se em 2017, os gastos ultrapassaram 110 milhões de reais, desta vez o único grande investimento foi no lateral uruguaio Joaquín Piquerez, por cerca de 19 milhões de reais — o lateral Jorge e Dudu chegaram de graça. O gerente de futebol, Anderson Barros, resistiu às críticas e ajudou o Palmeiras a fechar o balanço do primeiro semestre com superávit de 60 milhões de reais, em plena pandemia.

De acordo com o índice PLACAR/Itaú BBA, a equipe obteve 650 milhões de reais em receitas na temporada passada, ficando atrás apenas do próprio Flamengo (682 milhões de reais). O clube, portanto, segue colhendo os frutos da boa gestão, sobretudo com investimento nas categorias de base: nomes como Gabriel Menino, Patrick de Paula, Danilo, Renan, Wesley e Gabriel Verón se acostumaram a decidir jogos grandes, e ainda devem gerar enormes lucros no futuro.

Weverton — um goleiraço, à altura da tradição de Oberdan Catani, Valdir Joaquim de Moraes, Emerson Leão, Marcos e outras lendas da meta —, o zagueiro Gustavo Gómez e o volante Felipe Melo dão a experiência necessária e o equilíbrio do time, enquanto o meia canhoto Raphael Veiga já acumula duas temporadas de excepcionais serviços prestados, talvez sem o devido reconhecimento da opinião pública.

O craque, no entanto, é mesmo Dudu. Aos 29 anos, ele retornou ao Palmeiras depois de um ano emprestado ao Al-Duhail do Catar, e parece que jamais saiu do time. “É um sonho. estou aqui desde 2015, vivi grandes momentos. Infelizmente tive que sair por problemas fora de campo, mas o torcedor sabe do amor que tenho por este clube, e eles também têm por mim. Espero fazer um grande jogo lá no Uruguai”, afirmou o camisa 43 (como a 7, seu número preferido, já estava com Rony, o ídolo optou pela numeração cuja soma dá 7: 4 + 3), logo após decidir o duelo da semifinal diante do Atlético-MG, calando o Mineirão com o gol de empate em 1 a 1. Antes, Dudu já havia marcado um golaço no triunfo sobre o São Paulo, sia vítima preferida, nas quartas de final.

O Palmeiras, portanto, chega firme para sua sexta decisão de Libertadores na história. Enquanto o rival Flamengo ainda segue dividindo atenções com a semifinal da Copa do Brasil, além do Brasileirão (em que ambos perseguem o líder Galo), o Palmeiras porá todas as suas forças na decisão. Há quem diga, inclusive entre os sempre exigentes alviverdes, que este Palmeiras não é brilhante. O próprio Abel Ferreira deve repetir a estratégia de jogar o favoritismo para o adversário e buscar motivação em qualquer comentário negativo. Subestimado ou não, o fato é que este Palmeiras está a noventa minutos de igualar-se a Boca Juniors de 2000/2001, seu carrasco e último bicampeão da América de forma consecutiva. Alguém ousa duvidar?

Raphael Veiga é um dos candidatos a craque do torneio
Raphael Veiga é um dos candidatos a craque do torneio Pablo Sanhueza/Focus Features

*Textos publicados na edição impressa 1480 de PLACAR, de outubro de 2021, com ligeiras adaptações para manter as informações atualizadas

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