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Cristiano narra façanha do Sheriff no Bernabéu: ‘Ainda não caiu a ficha’

Do caminho ao vestiário até o apito final, lateral brasileiro conta a PLACAR como foi superar o Real Madrid na Champions atuando por um clube moldavo

Por Cristiano Leite, especial para PLACAR Atualizado em 2 out 2021, 12h56 - Publicado em 2 out 2021, 12h20

No roteiro da ainda breve Liga dos Campeões 2021/22, o mítico estádio Santiago Bernabéu foi palco de uma das maiores zebras da história da competição. O Sheriff Tiraspol, clube da Moldávia – ou melhor, da Transnístria, região independentista do país do leste europeu – e caçula da competição, chocou o mundo ao bater o Real Madrid, o maior campeão do torneio, com 13 títulos, por 2 a 1, na última terça-feira, 28 de setembro, na capital espanhola. No elenco dos moldavos, está o lateral-esquerdo brasileiro Cristiano Leite, líder de assistências do torneio (3 passes para gol, incluindo um em Madri). A PLACAR, o atleta de 28 anos, nascido em Niterói (RJ) e com passagem pelo Volta Redonda, contou em detalhes como foi a noite mais inacreditável de sua vida, da chegada ao Bernabéu até o apito final. Confira:

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“A história desse jogo começou quando os grupos da Champions League foram sorteados. Eu lembro que quando o Real Madrid caiu no nosso grupo, todos comemoram. E quando eu falo isso, muita gente não acredita, mas é verdade que queríamos um gigante logo de cara. Era nossa chance de mostrar nosso futebol para o mundo todo. E aí, desde aquele dia, nossa conversa foi baseada em cima disso, que era nossa hora de surpreender, mas para isso a gente não podia mudar, era preciso continuar fazendo o que sabemos.

A fase de grupo da Liga dos Campeões começou, nós vencemos o Shakhtar Donetsk em casa, nossa cabeça estava toda naquele jogo. Mas depois tivemos que mudar o foco para o Real. E lembro muito bem que quando chegamos ao Bernabéu para o treinamento, deu aquele friozinho na barriga, sabe? Quem gosta de futebol e vive disso sabe do que eu estou falando. É uma mistura de arrepio com motivação. E aí comecei a pensar no jogo e em tudo que passei para chegar até ali. Minha cabeça explodia de sentimentos, era uma mistura.

Treinamos e fomos ao hotel, algo que já estamos acostumados. Mas na hora de dormir foi muito difícil, confesso. A barriga ficava toda gelada. Fiquei tentando antever cada jogada, cada situação que poderia acontecer na partida. Cara, a gente está acostumado a ligar a televisão para ver os jogos da Champions e assistir ao Real jogar, mas no dia seguinte nós que estaríamos enfrentando eles, é muito especial. Para conseguir pegar no sono, eu tive que tentar pensar em outras coisas para relaxar e colocar um filme, se não eu não ia conseguir, não.

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Cristiano marcou Hazard durante o jogo contra o Real Madrid Antonio Villalba/Getty Images
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Enfim, consegui descansar. E o dia do jogo é algo completamente diferente. Eu estava tão concentrado no meu trabalho, que parece que saiu tudo meio que no automático. Mas uma coisa preciso dizer: o Bernabéu tem uma atmosfera fantástica, fiquei encantado com cada detalhe, da saída do ônibus ao vestiário, e depois dentro do campo. Sentia uma sensação boa demais ao reparar em qualquer coisinha. Espero ter a chance de voltar lá e também conhecer outros estádios com esse peso.

Por outro lado, o foco era tão grande em executar tudo que algumas coisas passaram até naturalmente. Mas ao entrar em campo e ouvir o hino da Champions naquele lugar, eu só sentia orgulho, é algo muito mágico, creio que é possível sentir só vivendo mesmo, eu imaginava algo completamente diferente, mas é muito mais emocionante. Só que quando o juiz apitou, acabou tudo. Eu só pensava em cumprir a parte tática e executar os movimentos, para fazermos nosso melhor. E tudo começou muito cedo, né? No início, o meu passe já entrou para o Yaxshiboyev e ele fez o gol. Naquela hora, eu era pura felicidade, afinal estava mostrando para o mundo todo o que conseguimos com muito trabalho no Sheriff. Graças a Deus estou conseguindo isso, ainda mais em jogos daquela magnitude.

Não foi nada fácil. Confio muito no nosso sistema defensivo, mas quando você olha do outro lado jogadores como Hazard, Benzema e Vinicius Júnior você fica preocupado, os caras jogam demais. Foi difícil demais marcar cada um, eles são ótimos, então o nível de concentração teve que ser lá no alto, não podíamos errar. Pra você ter noção, eu ainda não tinha nem olhado para as arquibancadas e reparado na torcida, isso só aconteceu quando o Thill acertou aquele chute lindo e nós fizemos o 2 a 1. Aí olhei tudo em volta, eles estavam calados e o barulho era nosso, o nosso grito. Vou lembrar disso para sempre. Olhei para o relógio e vi que faltava muito pouco tempo. Naquela hora eu pensei: nós vamos conseguir – e o resto foi história!

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Cristiano em ação pelo Sheriff Burak Akbulut/Getty Images

Pra ser sincero, ainda não caiu a ficha. As pessoas falam comigo, me parabenizam e eu penso: caramba, realmente conseguimos, vencemos o Real Madrid dentro do Santiago Bernabéu. Acho que só vou assimilar tudo lá pro dia 19, que é quando a gente vai se preparar para enfrentar a Inter de Milão. Mas queremos seguir com a história sendo escrita e estamos batalhando para isso.”

(Depoimento dado a Guilherme Azevedo)

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