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Atlético Mogi: a melancolia do novo Íbis

Nos anos 1980, o clube pernambucano se tornou “o pior time do mundo”. Quase quatro décadas depois, recorde foi superado. PLACAR estava lá

Por Klaus Richmond Atualizado em 8 ago 2022, 14h24 - Publicado em 7 jul 2022, 07h00

Reportagem publicada na edição impressa de julho de 2022

E o que parecia impossível aconteceu. Quase quatro décadas depois de PLACAR revelar ao planeta a existência do Íbis Sport Club, eis que um time da Segunda Divisão do Campeonato Paulista (equivalente à Série D do estadual) conseguiu bater o recorde de partidas seguidas sem vencer. Nos anos 1980, a equipe da cidade pernambucana de Paulista, a 16 quilômetros do Recife, ficou 55 jogos só perdendo e (pouco) empatando. O feito rendeu uma menção no Guinness Book e a “promoção” a pior time do mundo.

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O triste recorde foi superado em 18 de junho de 2022 – e, claro, PLACAR acompanhou a saga. Na hora marcada para o pontapé inicial (13h), o Estádio Municipal Francisco Ribeiro Nogueira, o Nogueirão, em Mogi das Cruzes, terra natal de Neymar, a 55 quilômetros da capital, permanecia com portões fechados. Foi por uma fresta que chegou a informação: “A bilheteria está atrasada. Só vai começar depois das 14h”, disse um rapaz que trabalhou no agora histórico confronto.

Exatos cinco anos e um dia depois da última vitória, o Atlético Mogi completou a terrível marca de 56 partidas sem festa. O adversário que carimbou o selo de “novo pior time do mundo” atende pelo nome de Manthiqueira. Antes de a bola rolar, Dado Oliveira, ex-presidente e atual treinador, falou para seus comandados: “Os meninos do outro lado são guerreiros como nós. Não quero esculacho, só futebol. Não façam com eles o que vocês não gostariam de receber”, afirmou. Todo de cor de laranja, o escrete de Guaratinguetá massacrou os mogianos: 6 a 0.

Ao saber que a reportagem de PLACAR estava presente, os derrotados ficaram ainda mais… derrotados. “Estou aqui pelo sonho de jogar, entende? Mas não registra meu nome e nem meu rosto, por favor, porque o que aconteceu vai nos prejudicar”, resumiu um dos jogadores do Mogi. Na entrada em campo, a tensão era visível. Boa parte dos atletas perfilados escondia o rosto, tentando driblar ao menos as câmeras. A tradicional foto posada antes da bola rolar? Nem pensar. “Olha a nossa situação, não acabem com a nossa carreira”, pediu outro.

Fundado em 19 de abril de 2004, o clube conta com o privilégio de atuar em um estádio reformado pela prefeitura para receber os treinos da Bélgica durante a Copa de 2014. O Nogueirão, porém, mais lembrava um velório. No bar mais próximo, muitas cervejas e petiscos sobre as mesas – mas ninguém nem sequer sabia da partida (e do macabro recorde). “Aqui as arquibancadas recebem 20 ou 30 pessoas”, conta o inspetor Silson Sabino, 61 anos, que tem um filho (Bruno Aparecido) entre os ex-atletas do clube.

A bola na rede, de novo:naquela tarde, oAtlético Mogi entroupara a história por batero recorde do Íbis dejogos sem vencer
A bola na rede, de novo: naquela tarde, o Mogi entrou para a história por bater o recorde do Íbis de jogos sem vencer Alexandre Battibugli/Placar

Naquele fatídico sábado, 43 pagantes foram responsáveis pela renda de 525 reais. Entre eles, o produtor de eventos Renato Rocha Fiuza, 46 anos, que se apresenta como fanático por jogos curiosos – uma espécie de “torcedor serial”. Só em 2022, ele já havia comparecido a 158 confrontos. Naquele mesmo dia, tinha presenciado Juventus x São Carlos, pelo Paulista sub-15, e Matsubara x Guarani, pelo sub-17.

Entre o público, familiares e amigos. “Acompanho sempre o sobrinho da minha esposa. Ele trabalha como recepcionista em uma academia, só consegue treinar dois dias por semana, quando não cancelam”, afirma André Oliveira Rocha, 35 anos, que sonha em ver o garoto, o goleiro Rodrigo Ferreira, ser aprovado em peneiras de times maiores. “Meu filho encara mais de duas horas de viagem para chegar em Mogi”, emenda Gina Roque, 50 anos, mãe do atacante Thiago Roque.

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Recorde do Atlético Mogi
Recorde do Atlético Mogi ./Placar

O Atlético Mogi não paga salário a seus jogadores. Se o campo de jogo é bacana, o de treino, no bairro de Jundiapeba, é precário – há relatos de falta de água no local. Os uniformes são lavados (em casa) pelos abnegados integrantes do elenco e é comum que os treinadores façam também às vezes de preparador de goleiros e até médicos. Nem mesmo a ajuda de custo prometida para o transporte vem sendo paga pelo atual presidente, Roberto Costa dos Santos.

Na atual temporada, o time começou sob o comando de Haru Shimabuku, ex-atacante com passagens por Marília (SP) e União Bandeirante (PR). A parceria durou pouco e Shimabuku foi trocado por Thiago Figueiredo, então seu preparador físico. Os primeiros dias foram alentadores: derrota por apenas 3 a 2 na primeira partida, por 1 a 0 na segunda, e mais um empate em zero – um feito após sucessivas goleadas (com direito a um 7 a 0 e a um 8 a 0).

O presidente Roberto Santos (à esq.): gritos no intervalo e nada de entrevista
O presidente Roberto Santos (à esq.): gritos no intervalo e nada de entrevista Alexandre Battibugli/Placar

Dias antes da estreia em 2022, um anúncio nas redes sociais procurava “goleiros e meio-campistas (ofensivos e criativos)”. Entre as respostas, perguntas curiosas como “qual o salário?”. Outra postagem pedia “parceiros, agentes e representantes” dispostos a investimentos. Não houve resposta. O número de telefone registrado na Federação Paulista de Futebol é, na verdade, o do escritório do advogado Joaquim Carlos Paixão Júnior, proprietário do Atlético até 2019. Após “graves prejuízos financeiros” e sem perspectiva de arrumar investidores, “vi a situação de minha família em risco e acabei recuando”, explica.

Desde 2009, o homem do futebol é Roberto Santos. Agente e intermediário de negociações, participou da maior venda da história do clube: a do atacante Maicon Oliveira para o Volyn, da Ucrânia. Pesam contra ele reclamações sobre valores abusivos cobrados para federar atletas e um boletim de ocorrência por tentativa de agressão a um funcionário.

Santos foge de jornalistas. Viu o jogo de um camarote, ao lado de um segurança e de um dos filhos – outro herdeiro estava em campo, como capitão do time. No intervalo, com o placar marcando 4 a 0, desceu para o vestiário e gritou tanto que torcedores (e até os adversários) escutaram. “Foi triste, tentamos animar alguns deles no segundo tempo”, lembra o meia-atacante Michel Yan, do Manthiqueira.

Nos últimos 40 anos, o Íbis teve altos e baixos. Chegou à elite estadual, caiu, retornou… e transformou o próprio calvário em diversão. Neste ano, escapou da degola em Pernambuco, para “revolta” da torcida. O Atlético Mogi está hoje no fundo do poço. Quem sabe a história desse parceiro de agruras possa servir de inspiração e animar o clube a olhar para o futuro com alguma esperança.

Atletas bateram boca com os raros curiosos: “Se tirar foto minha, vou processar”
Atletas bateram boca com os raros curiosos: “Se tirar foto minha, vou processar” Alexandre Battibugli/Placar

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