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Ativos digitais em campo: criptomoedas e NFts invadem o mercado de futebol

Clubes do país seguem tendência mundial e investem em tokens e outras formas de atrair seus torcedores; a PLACAR, analistas explicam o potencial do negócio

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 23 set 2021, 17h32 - Publicado em 20 ago 2021, 15h41

Fan token, criptoativos, blockchain, NFT. Termos pouco conhecidos do torcedor de futebol até pouco tempo atrás vêm ganhando espaço com o investimento de clubes nos chamados ativos digitais. O movimento ganhou impulso na Europa, quando Borussia Dortmund, Manchester City e Milan iniciaram as vendas de tokens no ano passado. Hoje, praticamente todas as potências do continente já investem neste ramo e equipes brasileiras como Atlético Mineiro, Vasco, Corinthians e Flamengo já entraram no jogo.

A quem ainda não assimilou os conceitos básicos: criptomoedas, como o bitcoin, são moedas digitais e NFT é a sigla para token não-fungível, na tradução livre do inglês, um certificado digital que define originalidade e exclusividade a bens digitais, tornando cada produto (físico ou digital) uma obra única. Este negócio é possível graças à tecnologia blockchain, sistema que permite rastrear o envio e recebimento de informações e dados, como pedaços de código gerados online que formam uma corrente – daí o nome. Recentemente, os clubes se atentaram ao fato de que a paixão dos torcedores poderia ser explorada virtualmente.

“Trata-se de uma mudança cultural. O esporte não está desconectado, é apenas mais uma indústria em que os ativos digitais estão sendo inseridos. É mais ou menos como o que aconteceu no fim da década de 90 com a evolução da internet. Nessa época, nem todo mundo entendia o que era um site ou um e-mail. Alguns clubes começaram primeiro, mas todos em algum momento tiveram que criar seus próprios sites”, explica Bruno Maia, especialista em inovação e novos negócios na indústria do esporte.

O contexto da pandemia do novo coronavírus acelerou este processo. “O futebol ficou sem capacidade de criar novas fontes de receita, mas ainda assim possui um ativo valioso que são os dados, e isso abriu espaço para modelos inovadores de parceria.”, diz Maia, autor do livro recém-lançado Inovação é o Novo Marketing.  O pioneiro no país foi justamente um clube em apuros, o Vasco da Gama, que pouco antes de ser rebaixado à Série B, no final de 2020 lançou o “Vasco Token”, em parceria com a Mercado Bitcoin.

A tradição de formar bons jogadores em São Januário foi incluída entre os benefícios dos clientes: caso atletas como Philippe Coutinho, Douglas Luiz ou Paulinho sejam negociados por seus times atuais, o Vasco receberá uma parcela como clube formador e quem comprou o token terá direito a uma pequena parte.

Apesar de liderar o ranking de devedores do futebol nacional, ultrapassando a casa do bilhão, o Atlético Mineiro tem hoje um dos elencos mais caros do país — graças ao aporte de um renomado time de mecenas, liderado por Rubens Menin, fundador da construtora MRV — e também largou na frente no mercado digital. Em junho, foi lançada a $Galo, a criptomoeda alvinegra, em parceria com a Socios.com, plataforma multinacional que emite tokens em blockchain para gigantes do esporte como o UFC, a equipe de Fórmula 1 Aston Martin, e clubes como Juventus, Barcelona, PSG, Milan, entre outros.

Os proprietários da criptomoeda atleticana podem utilizá-la para adquirir produtos e também poderão votar em escolhas de frases motivacionais nos vestiários, layout do ônibus da equipe, entre outras ações. Cada token custa dois dólares e o clube fica com metade do valor. O Atlético já faturou mais de 4 milhões de reais com a ação, que foi um sucesso imediato. No 1º lançamento, de 600 000 tokens, a venda esgotou em apenas oito minutos.

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Flamengo e Corinthians, os clubes mais populares do país, também entraram no jogo. O clube carioca fechou um patrocínio com a empresa de criptomoedas MOSS, enquanto o paulista lançou o criptoativo $SCCP em parceria com Sócios.com e com a fintech de blockchain Chiliz. A seleção brasileira também entrou na onda, ao fechar parceria de três anos com a empresa de blockchain Bitci Technology, de origem turca.

Vantagens, riscos e peculiaridades

Os Fan Tokens funcionam como uma espécie de item de colecionador e sua eventual valorização dependerá do crescimento do ecossistema. Cada ação dos clubes conta com suas próprias regras de emissão e distribuição, que são definidas pelos próprios clubes. Bruno Maia explica as vantagens e os riscos de investir no negócio.

“O torcedor tem de entender que está fazendo um investimento financeiro. Ele não deve investir simplesmente pela paixão, a não ser que ele possa dispor deste valor e eventualmente perdê-lo, pois o risco sempre existirá. Claro que a maioria das pessoas vai querer ajudar o time do coração, até pelas vantagens que são oferecidas, mas nada impede que uma pessoa resolva investir no rival se achar conveniente. A escolha deve ser consciente e as possibilidades estão em toda parte, não apenas no esporte.”

O templo sagrado do futebol brasileiro também entrou na era digital. Como parte da celebração de seus 71 anos, o Maracanã fechou uma parceria com as empresas Play For a Cause e Open Sea, oferecendo a NFT de sete gols históricos do estádio – como o milésimo de Pelé, o último de Zico no estádio e o tento do uruguaio Alcides Gigghia na final da Copa de 1950. A ação também ofereceu um troféu exclusivo com um recorte da rede usada nas balizas do campo visando atrair iniciantes.

Pedaço da rede do Maracanã é vendido junto aos ativos virtuais
Pedaço da rede do Maracanã é vendido junto aos ativos virtuais Luã Pereira / Maracanã/Divulgação

“Para facilitarmos a comunicação, buscamos incluir um item físico ao arquivo digital. É como se fosse um autógrafo digital que torna aquilo realmente único”, conta Diego Quintanilha, chefe de inovação e novos negócios da Play For a Cause. “O NFT É mais ou menos com os cards que a gente colecionava. O torcedor pode querer guardar um Gol para ele. A demanda de colecionáveis sempre existiu ela está apenas se ela está apenas evoluindo”, completa. Metade da receita líquida dos 100 produtos oferecidos será doada para investimentos na educação de jovens e crianças de 40 instituições parceiras do projeto

O uso dos ativos digitais pode ir além da relação com os torcedores. Em fevereiro, uma modesta equipe da terceira divisão espanhola, o Inter de Madrid FC, ganhou manchetes pelo mundo como primeiro clube a contratar um jogador, David Barral, por meio de criptomoeda (bitcoin, no caso). Já na NFL, principal liga de futebol americano dos EUA, um jogador do Carolina Panthers, Russell Okung, foi o primeiro o primeiro a receber metade de salário de 13 milhões de dólares (70,5 milhões de reais) convertido em bitcoin. Recentemente, o PSG anunciou que parte dos pagamentos de Lionel Messi também será feito com o token do time.

“Se for do entendimento das partes envolvidas e os direitos trabalhistas forem respeitados, é possível utilizar as criptomoedas como meio de pagamento, assim como os salários. O empregado recebe o mesmo valor que receberia em moeda corrente, convertido em saldo de bitcoin”, explica Pedro Trengrouse, professor em gestão esportiva pela FGV e advogado especializado no tema. O jogo está apenas começando.

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