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Arquivo: caso Robinho foi tratado em capa com ‘mea culpa’ de PLACAR

Atacante foi condenado pela Justiça italiana por violência sexual nesta quarta, 19; em novembro de 2020, Martha Esteves narrou os bastidores da denúncia

Por Da redação Atualizado em 19 jan 2022, 15h14 - Publicado em 19 jan 2022, 14h54
Capa da edição de novembro da Revista Placar –
Capa da edição de novembro da Revista Placar – PLACAR/Reprodução

O atacante Robinho foi condenado de forma definitiva nesta quarta-feira, 19, pela justiça italiana a nove anos de prisão pelo crime de violência sexual em grupo contra uma jovem albanesa, ocorrido em 22 de janeiro de 2013, na casa noturna Sio Café, quando o brasileiro era jogador do Milan. O julgamento que se arrastou por anos causou a suspensão de seu contrato com o Santos, em 2020, numa confusão estampada na capa da edição de PLACAR de novembro naquele ano.

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A reportagem escrita por Martha Esteves, repórter da revista nos anos 1980, com a colaboração de Klaus Richmond, narrou os bastidores da denúncia e abriu à redação a oportunidade de um mea culpa: durante boa parte de sua cinquentenária história, PLACAR publicou conteúdos machistas e preconceituosos. Os tempos mudaram, também para nós. Ainda bem!

Confira, abaixo, a carta do editor e também a matéria completa:

Não há movimento mais civilizatório do que aprender com os erros — e para sentir na pele os tropeços do passado, só mesmo o passar do tempo. Ou, como escreveu o francês Marcel Proust, “os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem”. Nos anos 1990, PLACAR tinha como slogan a frase “Futebol, Sexo e Rock & Roll”. Publicamos capas evidentemente machistas, como a que aparece abaixo, com a modelo e atriz Susana Werner seminua. Eram outros tempos, a sociedade mal começara a reagir contra os preconceitos, e o que hoje conseguimos enxergar como um erro lá atrás era apenas névoa.

PLACAR de 1996 tinha Suzana Werner na capa
PLACAR de 1996 tinha Suzana Werner na capa PLACAR/Reprodução

Ria-se do que não tem graça nenhuma. E PLACAR, naquele período um tanto irresponsável, navegava sem se dar conta dos incômodos que poderia provocar. Os jornalistas da revista, antes como agora, eram sérios, rigorosos, profissionais cuidadosos e avessos a qualquer tipo de discriminação — e todos eles, tendo em mãos a régua do presente, neste momento fariam de outra maneira. Os tempos mudaram, e que bom terem mudado.

A capa desta edição vê o mundo com os olhos de hoje. Os mesmos que levaram o Santos, pressionado por torcedoras e torcedores, além de patrocinadores, a suspender o contrato firmado com Robinho, acusado de estupro na Itália. Ele foi condenado a nove anos de cadeia em primeira instância — o caso está previsto para voltar a julgamento em dezembro.

Estaríamos mais felizes se fosse possível ficar apenas com as lembranças do jogador que, em 2002, surgiu para o mundo com pedaladas mágicas — mas isso não é possível. Robinho não pode apagar sua trajetória dentro e fora de campo, precisa assumir suas responsabilidades, com o direito de defesa que cabe aos acusados de qualquer crime.

Para narrar essa história, a redação de PLACAR convidou a jornalista carioca Martha Esteves, que contou com a colaboração de Klaus Richmond. Os dois se aprofundaram nas acusações contra o jogador e acompanharam todas as reações em torno da contratação. Nos anos 1980, como repórter da revista, Martha entrevistava atletas, técnicos e dirigentes, e viu muitos jogos à beira do gramado de estádios pequenos, nos quais não havia tribuna de imprensa. Lembra de ter sido xingada de todas as formas.

“Aprendi na marra a ser mulher, no meio mais machista do mundo”, lembra. A reportagem, que começa na página 12, ajuda a jogar um pouco mais de luz sobre a maneira como o Brasil (e o mundo) vê a relação do futebol com a sociedade, de seus protagonistas com as mulheres, cada vez mais presentes e atuantes — nos gramados, no apito, com o microfone na mão e onde mais elas quiserem, sem ser importunadas nem agredidas, sem virar apenas objetos de admiração masculina.

A máscara caiu

A reação dos movimentos feministas e o recuo dos patrocinadores fizeram o Santos suspender o contrato com Robinho, acusado de estupro na Itália. E, depois de muito tempo, finalmente o mundo do futebol começa a responder aos novos e bons humores da sociedade

Martha Esteves

Foi uma infeliz coincidência, agora transformada em constrangedor equívoco: em 10 decoutubro, Dia Nacional de Luta contra a Violência à Mulher no Brasil, o Santos anunciou a volta de Robinho. Seria a quarta passagem do jogador pelo clube. Lia-se, na conta oficial do time no Twitter, com palavras em português e inglês: “O menino da Vila. O ídolo. The Last Pedal. 2020, o Quarto Ato”. A última pedalada, o quarto ato, foi dada pela sociedade civil, na pele de mulheres indignadas com a chance oferecida ao atacante condenado a nove anos de prisão na Itália, em 2017, por crime de agressão sexual contra uma jovem albanesa. O acordo com o atleta de 36 anos envolvia salários de simbólicos 1 500 reais mensais, bônus de 300 000 reais após dez jogos e quantia idêntica pelas quinze partidas seguintes. O contrato duraria cinco meses, com preferência de renovação para mais um ano e sete meses. Mas, devido à revolta acelerada pelas redes sociais e à divulgação de trechos da sentença judicial italiana, o Santos voltou atrás e suspendeu a transação. Deu-se, enfim, um drible no machismo.

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A diretoria santista reagiu rapidamente quando a grita contra a permanência de Robinho começou a doer no bolso, com a movimentação dos patrocinadores. O primeiro a pular fora da canoa foi a Orthopride, rede de franquias de ortodontia estética. Em seguida, a Philco, de eletroeletrônicos; a Kicaldo, empresa de alimentos; e a Tekbond, de adesivos e colas, divulgaram notas ressaltando não ter participado da transação e afirmando respeitar “a diversidade e a inclusão em suas operações”, além de repudiarem “qualquer ato de violência”. Estimou-se uma perda em torno de 20 milhões anuais caso a debandada se concretizasse — e, por isso, a única e esperada saída era o recuo.

O presidente do Santos, Orlando Rollo, diria depois que a suspensão do contrato piorou ainda mais as finanças do clube, que tem 53 milhões de reais no vermelho e dívidas inclusive com os salários dos jogadores. Agora, para tentar reduzir os danos, pretende fazer uma vaquinha virtual. “Podem encarar como humilhação fazer essa arrecadação na internet, mas estou me humilhando mesmo”, admite. Muito mais humilhante, e possivelmente sem recuperação possível para a imagem do clube, teria sido manter Robinho na equipe. A decisão iria no avesso dos humores da sociedade e do pleno respeito aos direitos humanos. Convém ressaltar ainda que, em tempos de internet, tudo é muito rápido e os tropeções são revelados imediatamente.

Cedo ou tarde, certamente cedo, a máscara cairia. Uma frente ampla formada por torcedoras de Santos, Flamengo, Corinthians e outros times se movimentou pelo WhatsApp contra a chegada de Robinho. No Twitter, jornalistas, torcedoras e celebridades fizeram barulho, com dezenas de mensagens compartilhadas. “Precisamos que nossa voz seja ouvida. Nós, mulheres santistas, não o queremos mais no clube”, diz a advogada Mariana Paquier, de 26 anos, representante do coletivo santista Bancada das Sereias. Para a escritora, professora e pesquisadora da Uerj Leda Costa, “a contratação de Robinho foi desfeita em grande parte por pressão dos patrocinadores e das diversas vozes que se levantaram contra aquilo que seria um dos capítulos mais tristes da história do futebol brasileiro”. Houve, é claro, aqui e ali, opiniões dissonantes, atreladas ao passado, mas foram poucas e nascidas de onde se esperava que viessem. “Os dirigentes não aguentaram a pressão dos patrocinadores, que estavam mesmo atrás de aparecer na mídia. Eles erraram feio ao suspender o contrato do Robinho. Nessa hora a gente vê quem é amigo de verdade”, lamentou Wagner Ribeiro, ex-agente do jogador.

Tudo somado, os dirigentes santistas tomaram a estrada correta ao ser apresentados à encruzilhada. As empresas já entenderam o peso da reputação — sabem que ela vale
dinheiro — e a importância da adesão a grandes causas. E não se trata de oportunismo, apenas de adequação a novos momentos da civilização. O futebol, contudo, parece  inda estar na infância desse processo, engatinha lentamente. Em 2014, quando era presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello tentou a contratação de Robinho, que defendia o Guangzhou Evergrande, da China, mas as negociações não avançaram por questões financeiras. “Hoje, jamais o contrataria. Primeiramente, em respeito às mulheres. Mas obviamente também levaria em consideração a questão patrimonial, a proteção à marca do clube”, diz o ex- -presidente rubro-negro. O Santos deu a boa resposta, ainda que tardia. Robinho, contudo, parece caminhar longe da realidade — embora tenha o direito de se defender, até que a decisão em segunda instância seja anunciada.

Em entrevista ao UOL, o jogador interpretou à sua maneira o evento: “Infelizmente existe o movimento feminista. Muitas mulheres, às vezes, não são nem mulheres, para falar o português claro”. A juíza e escritora Andrea Pachá tem na ponta da língua o português claro: “Infelizmente, sim, ainda precisar existir o feminismo. Em uma sociedade machista e patrimonialista, a violência contra a mulher é tolerada, desde que silenciosa e lucrativa. Em vez de perceber o abuso e a violência contra a mulher, o jogador trata de desqualificar o movimento feminista, como se a culpa fosse de quem defende o direito de que qualquer mulher possa viver sem ser violentada”. Convém, nessas horas, dar voz também aos homens. Medalhista pan-americano de taekwondo em 2007, Diogo Silva, 38 anos, considera o futebol um meio machista, racista e homofóbico, espelho social brasileiro — com as exceções de sempre, é claro. “O futebol segue a cartilha antiga dos preconceitos, o que tem de novo é a organização das mulheres, a não aceitação desse tipo de comportamento”, diz Silva.

“Os grupos ofendidos e hostilizados se cansaram disso, organizaram-se e partiram para a reação.” Um modo de medir o estrago irrecorrível de Robinho ao desdenhar das acusações, como se fossem absurdas, é ouvir gente que sempre o admirou, mas sabe que já não é aceitável fechar os olhos. A atacante do Flamengo, a paraibana Lú Meireles, 32 anos, não esconde o desapontamento. “Minha primeira reação foi de enorme decepção, porque sempre fui muito fã e gostava muito dele. Essa atitude desprezível me encheu de tristeza e raiva”, conta ela. O cronista e escritor Xico Sá, santista de quatro costados, ficou indignado e, depois, aliviado com o desfecho. “Não tem pedalada ou nostalgia da torcida que justifique essa contratação. Nem se fosse Pelé. Um minuto de Robinho em campo seria um desrespeito a todas as mulheres do mundo.” Para Eduardo Suplicy, filho de Paulo Cochrane Suplicy, armador do primeiro time do Santos, em 1912, e fã do atacante, não pairam dúvidas: “Fui grande admirador dos dribles de Robinho e seus gols me trouxeram muita alegria. Mas, ao saber das evidências sobre como agiu com a moça albanesa, fiquei muito triste. Tenho pensado como o clubes têm de formar bons jogadores que sejam exemplos de seres humanos”. Zico, o eterno Galinho de Quintino, é quem tem a moral da história: “Quando você é referência e ídolo tem de saber que seus atos são vigiados. Tem de saber onde pisa e com quem anda. Estar sempre atento para não influenciar negativamente seus fãs mirins. Todo passo mal dado, seja no abuso de drogas, seja com o álcool, seja no envolvimento em escândalos sexuais, prejudica demais a imagem do ídolo e não pode servir de exemplo para mais ninguém”.

E, no entanto, nada disso, nada mesmo, parece ter servido de reflexão para Robinho, que agiu com desumanidade, segundo a Justiça italiana, naquela noite de 23 de janeiro de 2013. O relato do que houve, embora abjeto, precisa ser detalhado. O então atacante do Milan tinha combinado com a mulher, Vivian Guglielmetti, em ir ao Sio Café, badalado endereço da noite de Milão. Além do casal, mais cinco amigos, entre eles Ricardo Falco, curtiram a música brasileira e a bebida farta. Ali, depois de sua mulher ter voltado  para casa, Robinho conheceu a albanesa, na época com 29 anos. O estupro aconteceu dentro do camarim usado pelo músico Jairo Chagas, segundo depoimento da vítima. Em novembro de 2017, Robinho e Falco foram condenados com base no artigo 609 bis do Código Penal italiano, que trata da participação de duas ou mais pessoas envolvidas em um ato de violência sexual, forçando alguém a manter relações sexuais por sua condição física ou psíquica. A vítima assumiu que tinha ingerido álcool.

Com autorização judicial, houve a interceptação de conversas por celular entre Robinho e seus companheiros. Em diálogo com o músico Chagas, Robinho diz, depois de gargalhar: “Estou rindo porque não estou nem aí, a mulher estava bêbada, não sabe nem o que aconteceu. Olha, os caras estão na merda. Ainda bem que existe Deus, porque eu nem toquei naquela garota”. Ao comentário de Chagas — “Eu vi quando colocava o pênis dentro da boca dela” —, ele retrucou: “Isso não significa transar” (o site globoesporte.com obteve com exclusividade trechos do inquérito e publicou as gravações em outubro; um resumo dessas conversas aparece na pág. 13). Para a juíza Mariolina Panasiti, que cuida do caso no tribunal milanês, Robinho e Falco demonstraram “desprezo absoluto pela jovem, vítima de repetidas humilhações, bem como atos de violência sexual pesados”. O que mais chocou Mariolina foi o fato de Robinho rir várias vezes do incidente, o abuso de termos chulos nas conversas e os “sinais inequívocos de falta de escrúpulos e quase consciência de falta de impunidade”.

Desde a divulgação do caso, Robinho vem negando qualquer participação na agressão coletiva. Ao UOL, ele admitiu uma única contrafação: “Meu único crime foi ter traído minha mulher” — destaque-se que trair não é crime nem no Código Penal brasileiro nem no italiano. Em entrevista à Fox Sports, Robinho deu a entender que a albanesa estava só atrás de dinheiro e montara a armadilha para depois pedir o equivalente a 3 milhões de reais de indenização. O advogado italiano Jacopo Gnocchi, que defende os interesses da vítima, esclareceu que o pedido de ressarcimento por danos foi formalizado no processo apenas depois de a juíza ter determinado algo em torno de 405 000 reais, além do reembolso das custas judiciais. Para Gnocchi, a questão financeira importa pouco para sua cliente. O que está em jogo para a albanesa é a “apuração dos
fatos e a condenação dos responsáveis”. É fundamental que isso ocorra, de fato, para que, mais uma vez, as atrocidades não sejam empurradas para debaixo do tapete.

Apresentadora da Rede Globo, a jornalista e escritora Ana Paula Araújo lançou recentemente o livro Abuso, a Cultura do Estupro no Brasil (Globo Livros), e entrevistou vítimas e criminosos. Indignada, Ana Paula lembra que o criminoso nunca se enxerga como estuprador. “A reação de Robinho, dizendo que foi apenas sexo oral, quando isso também configura violência sexual, foi bizarra demais. Isso nos mostra, de forma didática, que o estuprador nunca se sente estuprador.” Ou, como estampou a capa de VEJA em 2009, em torno de uma outra acusação de violência sexual contra Robinho, em Leeds, na Inglaterra: “Por que eles nunca crescem?”. O caso foi engavetado, mas Robinho parece mesmo não ter crescido e aprendido — desta vez, contudo, o processo deve ir até o fim.

A decisão da segunda instância está marcada para dezembro, mas há risco de adiamento em decorrência da segunda onda de casos do novo coronavírus na Itália. “Espero a confirmação da sentença de primeira instância, que foi correta, justificada e fundamentada”, diz Gnocchi. “Minha cliente está tranquila. Ela aguarda com confiança a audiência.” Marisa Alija, advogada de Robinho, procurada por PLACAR, não quis se estender. Disse apenas que “os julgamentos devem ser realizados nos tribunais e não na mídia, o que nunca traz vantagens para a Justiça”. Irritada com a repercussão negativa da contratação de Robinho, a defensora criticou os protestos. “Quem julga sem saber o que realmente aconteceu, baseando-se apenas em matérias sensacionalistas e com traduções fora do contexto, que parecem ter sido feitas somente para caçar cliques, certamente julga mal. E o tempo dirá que tenho razão.”

Caso a condenação de Robinho seja ratificada, ele não será extraditado. Confirmada a decisão da primeira instância, a defesa poderá recorrer ao Tribunal de Cassação, semelhante ao Superior Tribunal de Justiça do Brasil. Depois de transitado em julgado, o processo vem para o Brasil e, para que não haja impunidade, o jogador poderá cumprir a sua pena aqui. “Nesse caso, aplica-se o artigo 101 da Lei do Estrangeiro. A pena é da Itália, mas ele cumpre segundo as leis brasileiras, isso se a lei for mais benéfica para ele”, diz o jurista gaúcho e professor de pós-graduação de direito Lenio Streck. Condenado a nove anos de prisão, Robinho poderia cumprir dois quintos da pena, ou três anos e meio. Em seguida, tendo bom comportamento, poderia seguir em regime semiaberto, com direito a trabalhar e fazer cursos fora da prisão. Depois de um ano e meio de trabalho no regime semiaberto, poderia cumprir o resto da pena em prisão domiciliar.

O caminho de Robinho é difícil e é grande a probabilidade de ele ter de pagar pelo erro — notícia evidentemente ruim para ele, para seus familiares, mas uma conquista para a sociedade. Beatriz Antunes, de 26 anos, psicóloga que oferece apoio profissional ao coletivo Fogo no Assédio, formado por torcedoras do Botafogo do Rio, espera que a onda não seja passageira. “Casos de assédio e violência sexual no futebol acontecem o tempo todo e mostram quanto a figura da mulher é totalmente desmerecida no meio. A gente sabe que a perda de dinheiro fala mais alto no futebol, e foi o nosso grito que alertou os patrocinadores.

Uma pequena vitória em meio a tantas batalhas contra o machismo.” As mudanças de humor são recentes. Em 2017, depois que o caso de estupro já havia estourado, ainda sem julgamento, Robinho jogou pelo Atlético Mineiro — houve indignação, torcedoras levavam faixas aos estádios, mas não passou disso. O ambiente mudou — fora e dentro de campo. “Luto diariamente para que as mulheres que jogam futebol tenham ao menos a dignidade de uma carteira assinada, um contrato e até um uniforme melhor”, diz a advogada especialista em direito desportivo, Luciana Lopes, que representa clubes do Brasil e do exterior, além de vários jogadores e jogadoras. Quem não entender a revolução em andamento estará fora do jogo. Neymar, a duras penas, percebeu que poderia ter manchado sua carreira depois de ter sido acusado de estupro pela modelo Najila Trindade, em um hotel em Paris. Por falta de provas, o caso foi arquivado sem o indiciamento do jogador, e a modelo ainda foi denunciada por fraude processual, extorsão e denúncia caluniosa. Em 2009, o craque português Cristiano Ronaldo negou ter violentado a modelo americana Kathryn Mayorga, mas desembolsou 375 000 dólares para encerrar o caso em segredo.

A modelo alegou que o craque português a obrigou a fazer sexo em um hotel em Las Vegas. Neymar e Ronaldo não passarão pelas agruras que Robinho terá de passar, mas talvez tenham aprendido a lição. Lição que o pugilista Mike Tyson foi aprender na cadeia. Em julho de 1991, ele foi acusado de estuprar a modelo Desiree Washington. Menos de um ano depois, foi condenado a seis anos de detenção. Cumpriu metade da pena por bom comportamento e saiu da prisão em março de 1995 — definitivamente marcado. Há saída para Robinho, mínima, desde que ele queira, desde que assuma suas responsabilidades, agora levadas aos tribunais, e não aja como um futebolista apenas atrelado ao dinheiro e à arrogância. “Para reverter a imagem negativa de Robinho, seria bom criar um plano de ação de marketing focado no terceiro setor. Tem de partir dele, não pode ser algo artificial. Ele poderia, por exemplo, se tornar patrono de uma causa beneficente ou de sustentabilidade”, diz Fábio Wolff, sócio-diretor da Agência Wolff Sports. Mas o melhor mesmo, naquela noite de 2013, seria ele ter se comportado como homem. E que a reação contra Robinho dê um basta a posturas inaceitáveis no futebol, e fora dele.

Colaborou Klaus Richmond

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