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Alex: ‘Por meu estilo de jogo, comprei briga com treinadores e imprensa’

Ex-jogador relembra diferenças com Felipão e críticas sobre participar pouco das partidas. “Eu era um 10, queria estar perto do gol”

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 23 set 2021, 22h19 - Publicado em 22 abr 2020, 09h00

Alex de Souza, 42 anos, foi um dos jogadores mais talentosos de sua geração. Empilhou taças e é idolatrado pelas torcidas de Coritiba, Palmeiras, Cruzeiro e Fenerbahce, da Turquia, além de ter marcado 422 gols, uma marca expressiva, sobretudo se tratando de um meio-campista. Mas não escapou de contestações ao longo da carreira, tanto de treinadores como da imprensa – ironicamente, suas áreas de interesse atualmente, já que comenta futebol na ESPN Brasil e estuda para virar técnico.

Aposentado dos campos desde 2014, Alex foi o entrevistado da edição de abril de PLACAR, que já está nas bancas. Na edição impressa, falou sobre os direitos e deveres dos jogadores em tempos de coronavírus, sobre a falta de organização do futebol nacional e da influência das cifras milionárias na carreira dos atletas. Ao longo da conversa por telefone, o ex-jogador também abordou diversos temas ligados à bola rolando, incluindo seus constantes debates com o técnico Luiz Felipe Scolari, que surpreendente não o levou para a Copa de 2002.

“Ele nunca compreendeu totalmente meu futebol. Mas isso me dá muito orgulho, porque consegui vencer no Palmeiras apesar de tudo isso. Claro que ele me achava bom jogador, mas sempre quis mudar minhas características. Não conseguiu porque talvez eu seja mais teimoso que ele”, afirmou Alex, que sempre conviveu com contestações por, supostamente, participar pouco do jogo. “Eu era um 10, queria estar mais perto do gol.”, explica. Confira, abaixo, trechos da entrevista:

Se considera um obcecado por futebol? Já fui. Lá atrás sim, hoje não mais. Quando casei, deixei bem claro para minha mulher que nosso casamento estaria em segundo plano e a prioridade seria a carreira. Não é fácil para uma mulher recém-casada ouvir isso. Eu tinha 22 anos e ela 16. Ela teve uma compreensão grande e as coisas foram se alterando. Quando fiz meu último contrato com o Fenerbahce, comecei a mudar o foco. Parei de jogar em 2014 e desde então vejo muito pouco futebol.

Mas quando jogava era diferente? Totalmente, aí eu era chato mesmo. Tem uma história marcante. Sempre tive a preocupação de saber quem iria me marcar, como era o goleiro adversário… isso desde moleque. Aí um dia, já jogando pelo Palmeiras, teve um jogo contra o Criciúma em que passei batido, não busquei informação nenhuma. E na palestra antes do jogo, o Felipão me fez uma pergunta que eu não soube responder. Ele apelou comigo na frente de todo o grupo, me colocou como um moleque desinteressado, disse que jogador daquele jeito não servia. E aquilo me deixou muito mal. Mas em contrapartida me fez muito bem. Pensei: filho da p… nenhum vai me pegar mais nessa!

Acha que ele fez de propósito para mexer com você? Não sei. O Felipão usava muitas coisas contra o jogador para fazer ele reagir, era um método que funcionava. Mas eu não gostei porque aquilo que ele falou não era justo comigo, ainda que, naquele dia, eu tenha falhado. Joguei mais 17 anos e nunca mais dei essa brecha. E agora, como decidi voltar para o futebol como treinador, estou descongelando, voltando a ser uma pessoa do futebol.

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As críticas sempre acompanharam sua carreira. As usava como motivação? Muito. Eu sempre tive autocrítica, saia dos jogos sabendo se fui bem ou mal. Fui percebendo que muitos formadores de opinião não falavam do jogo, mas de algo que já tinham pré-conceituado. Eu já cheguei ao Palmeiras como a pecha de quem participava pouco do jogo, o que não era verdade. Havia jogadores como Zinho, Ricardinho, que, por característica, vinham atrás buscar, “carimbavam” mais a bola, trocavam passes com defensores. Eu não, eu era um 10, queria estar mais perto do gol. E muitas vezes a análise era em cima disso, de que eu tocava pouco na bola. Briguei muito com o Felipão por isso, ele queria que eu participasse mais atrás e eu queria participar mais na frente. Eu pensava, não vou atrás nem f… se quiser que eu vá marcar, então coloque um volante. Uma vez tomei uma dura do Aldair que nunca esqueci.

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Como foi? Brasil x Uruguai no Maracanã. Bem marcado, eu não conseguia jogar, e já veio na minha cabeça: na TV vão estar dizendo que eu não me apresento para o jogo, que estou dormindo, aquela história de sempre. Decidi, então, ir lá atrás buscar uma bola. O Aldair não passou, deu um lançamento longo e me segurou pelo braço: ‘escuta aqui, para carimbar bola no pé do zagueiro, eu posso trazer o Zico com 60 anos que ele faz. Eu preciso de você resolvendo lá na frente’. Depois de escutar isso de um ídolo meu, decidi que não voltaria para trás do meio-campo nunca mais. Mas com isso eu comprei uma briga com meus treinadores, com imprensa… eu corria menos, mas também existe o desgaste mental. Era preciso saber ler o jogo. Eu jogava no contra fluxo da bola, se ela estava na direita, eu ia para a esquerda para abrir espaço e poder receber livre. Quem não está no estádio não consegue enxergar isso. Eu sempre precisei de um treinador que entendesse o meu jogo e pensasse de forma parecida. Foi o que aconteceu com Vanderlei Luxemburgo, no Cruzeiro.

Acha que o Felipão nunca compreendeu seu futebol totalmente? Isso é óbvio. Mas também não é um problema, é uma característica dele e ele ganhou muito no futebol assim. No Palmeiras ele chegou a jogar com Galeano, Cesar Sampaio, Rogério e Zinho. A minha característica não encaixava com a forma dele de ver o jogo. E isso me dá muito orgulho, porque eu consegui vencer no Palmeiras apesar de tudo isso. Claro que ele me achava bom jogador, mas sempre quis mudar minhas características. Não conseguiu porque talvez eu seja mais teimoso que ele. Perdi algumas coisas por isso, mas ganhei outras.

E fez mais de 400 gols, algo incrível para um meia. Nunca pensou em ser atacante? Não, nunca. Eu nunca poderia ser atacante, porque eu não tinha a movimentação, a força, a explosão. A minha velocidade era de raciocínio. Eu joguei onde eu poderia jogar. Eu poderia jogar mais para trás, como o treinador espanhol Luís Aragonés tentou fazer comigo no Fenerbahce, mas mais para frente não.

Alex, aposentado em Curitiba Reprodução/Instagram

O que aconteceu que hoje praticamente não vemos mais camisas 10 clássicos? Acho que o que mudou foi a concepção do jogo, a forma como os jogadores são posicionados em campo. O 10 clássico, como eu fui, naturalmente ajuda pouco na marcação. E para isso, é preciso ter um equilíbrio defensivo bem treinado. Isso demanda tempo, e o tempo só vem se tiver resultados. É mais fácil organizar o time de uma forma reativa. Eu criei muitas dificuldades defensivas para os meus times, mas também ganhei muitos jogos.

Da sua época, qual camisa 10 realmente jogou mais do que você? Não sei… sou apaixonado pelo Djalminha, mas ele não tinha uma coisa que eu tinha muito: gol. Eu gostava mais da efetividade do que do show. O Rivaldo eu não considerava meia, sempre o vi como um atacante. O Ronaldinho Gaúcho começou como meia, mas depois virou mais atacante de lado. Tinha vários meias, Geovanni, Felipe, Ramón, Petkovic… fora do Brasil tinha Riquelme, Aimar, Recoba, Ortega, Magallanes. Totti já era mais atacante também… Nunca parei para pensar se joguei mais que esse ou aquele. Futebol é gosto, é afetividade. Tem gente que acha que eu fui genial, outros acham que fui uma mentira.

Mas, depois de aposentado, a avaliação é bem mais positiva, não? Sim, sim. Eu sempre brinco que, depois que para de jogar, quem foi bom vira craque, quem foi craque vira gênio e quem foi gênio vira interestelar. A análise mais precisa é aquela feita quando o jogador não joga no seu time. Porque quando a visão está carregada de paixão, ela escurece. O torcedor só sente saudades daquilo que ele não tem mais, aí ele passa a dar valor. Fico tranquilo porque sei que fui importante nos times que joguei.

Alex, do Brasil, num lance de jogo contra Simeone, da Argentina, durante a partida pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2002, no Estádio do Morumbi. Robson Fernandjes/Estadão Conteúdo

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