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Afinal, os Beatles gostavam de futebol?

A relação do quarteto de Liverpool com a bola nunca foi muito calorosa. Houve só esparsas, embora fundamentais, citações em capas de disco e em letras

Por Fabio Altman Atualizado em 14 dez 2021, 18h41 - Publicado em 22 dez 2021, 08h00

Deixe estar, porque os Beatles são eternos. Dito de outro modo, em forma de questão: dentro de 300 anos, ouviremos falar deles e escutaremos suas canções como quem hoje se delicia com Mozart? O quarteto de Liverpool tem a dimensão do compositor austríaco? Sim, e desafine a primeira nota quem conseguir argumentos que refutem essa constatação. Ou então pergunte para uma criança o que ela acha de John, Paul, George e Ringo. “Há algo de mágico no que fizeram, que beira o inexplicável”, diz o educador Fabio Freire, criador, ao lado de Gabriel Manetti, do Beatles para Crianças, quinteto que faz uma série de shows de rock cujo nome dispensa explicações.

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“Meninas e meninos entoam Yellow Submarine como quem canta Ciranda, Cirandinha ou Cai, Cai Balão. É como se fizessem, desde sempre, parte da história oral das famílias.” Os espetáculos de Freire e Manetti, lotados, animadíssimos, numa algazarra que remete à torcida nos estádios, são a comprovação da perenidade da beatlemania. Tudo o que cerca a banda, cinquenta anos depois do fim do grupo, em 1970, chama a atenção, comove. McCartney 3, 2, 1, no streaming do Star+, é uma pequena obra-prima em forma de documentário, a conversa solta do baixista canhoto com um produtor musical de estúdio. Em 25 de novembro, o Disney+ levará ao ar os três episódios, com duas horas de duração cada, de Get Back, dirigido pelo neozelandês Peter Jackson (O Senhor dos Anéis).

O diretor se debruçou sobre 56 horas de filmagens inéditas em torno dos bastidores da gravação de Let It Be, em 1970. Se o trailer é de tirar o fôlego, imagine o resto. Enfim, não há como driblar os Beatles e novas nuances brotam incessantemente. Em um aspecto, contudo, ainda paira uma sombra em torno do Fab Four, e por isso PLACAR entra em campo para tentar iluminar o caminho: qual era a relação dos meninos de Liverpool com o futebol? Tendo vindo da cidade portuária no noroeste da Inglaterra que respira o esporte bretão, entre os vermelhos do Liverpool e os azuis do Everton, era de se supor que os quatro fossem fanáticos. Mas não, o que não significa que andassem à margem do mais popular dos esportes — popularidade que só é menor que a dos próprios Beatles.

Eis portanto, a seguir, o pouco que se sabe dessa relação.
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Beatles e o futebol
Beatles e o futebol PLACAR/Reprodução
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Foi de John Lennon a ideia de pôr na capa de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, talvez a mais celebrada da história do rock, com seus 71 personagens, a figura de Albert Stubbins, contratado pelo Liverpool em 1946 e que ajudou o clube a vencer um título da Liga Inglesa depois de 24 anos. Stubbins aparece escondido entre Marlene Dietrich e Lewis Carroll.
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Em Dig It, do álbum Let It Be, Lennon incluiu uma rápida citação ao nome de sir Matt Busby, que jogou pelo Liverpool de 1936 a 1939 e que ficaria famoso como treinador do Manchester United, de 1945 a 1971. Assim:

“Like the FBI,

And the CIA,
And the BBC,
B.B.King,
And Doris Day,
Matt Busby,
Dig it”.
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No álbum Walls and Bridges, de 1974, Lennon pôs na capa um desenho feito por ele mesmo aos 11 anos de idade, no início dos anos 1950. Supostamente trata da vitória do Newcastle por 1 a 0 contra o Arsenal, na final da Copa da Inglaterra em 3 de maio de 1952, em Wembley. O destaque: o habilidoso e rápido Jackie Milburn, com a camisa 9 às costas. O número 9, aliás, o número mesmo e não o artilheiro, seria recorrente na obra de Lennon. Mas, in the end, afinal de contas, para quem torciam John, Paul, George e Ringo? Nunca se soube e talvez nunca se saberá.

John deu indícios de gostar do Liverpool, sobretudo ao levar Stubbins para o Sgt. Pepper’s, mas ele nunca tratou do tema. Em raras entrevistas, Paul citou as ligações do pai com o Everton, e só — embora tenha mandado telegramas a dirigentes do Liverpool antes e depois de finais históricas e despontado, aqui e ali, com broches e penduricalhos rubros. George e Ringo: silêncio total. A insistência para se apartarem do futebol foi ideia do empresário Brian Epstein, o construtor da imagem do grupo, sem quem não teriam deixado o litoral. Ele intuía que a escolha de um time ou outro, Liverpool ou Everton, poderia alienar uma das metades da cidade. E assim foi para o resto da vida dos Beatles. Epstein não queria que eles entrassem na boa guerra do futebol porque “the love you take is equal to the love you make”.

Fim

Matéria publicada na edição impressa 1481 de PLACAR, de novembro de 2021 

Capa da PLACAR de novembro
Capa da PLACAR de novembro PLACAR/Reprodução
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