ASSINE PLACAR DIGITAL NO APP POR APENAS R$ 6,90/MÊS

Abel e Renato, contestados e vitoriosos: quem será bicampeão da América?

Autênticos e donos de vastos repertórios de respostas, técnicos de Flamengo e Palmeiras superam pressões e tentam fazer história com novo título continental

Por Da Redação Atualizado em 25 nov 2021, 22h05 - Publicado em 26 nov 2021, 08h00

Mesmo finalistas da Libertadores, não há mar de rosas para Renato Gaúcho e Abel Ferreira, treinadores de Flamengo e Palmeiras, respectivamente. Renato precisou ouvir da própria torcida coros a Jorge Jesus, seu desafeto, durante a eliminação da Copa do Brasil para Athletico Paranaense, enquanto Abel, mesmo com títulos, lidou com pressões por demissão e até muros pichados. Há quem não goste deles, contudo, ser indiferente é tarefa das mais árduas.

Black Friday Abril: Assine #PLACAR digital no app por apenas R$ 6,90/mês. Não perca!

Eles decidem neste sábado, 27, no estádio Centenário, em Montevidéu, a condição de céu ou inferno. A quem vencer, a glória do bicampeonato – Renato foi campeão em 2017, com o Grêmio, e Abel é o atual vencedor da competição. Quem perder, pode ter sua situação complicada por permanência.

Renato sofre pressão nos bastidores. Na semana da final, após o empate por 2 a 2 com o Grêmio, em jogo atrasado pela segunda rodada do Campeonato Brasileiro, uma manifestação viral de torcedores nas redes sociais pedia: “ganhe a Libertadores e saia”.

Flagras do semblante do treinador apático nos gols marcados pela equipe provocou a ira de flamenguistas. O time ainda sofreu dois gols quando tinha um jogador a mais em campo, pela expulsão de Jhonata Robert, permitindo reação inesperada dos gaúchos.

Abel, por sua vez, tem o futuro incerto após troca de diretoria do Palmeiras, que a partir de 15 de dezembro será presidida por Leila Pereira. Bancado por Maurício Galiotte, nos últimos dias de mandato, não há certezas se o português ficará.

Campeão da atual edição, Abel quer sua segunda Libertadores consecutiva -
Campeão da atual edição, Abel quer sua segunda Libertadores consecutiva – Nelson Almeida/Getty Images

O terror mora ao lado

Logo após celebrar com raiva o empate em 1 a 1 no Mineirão que deu ao Palmeiras a vaga na final, Abel Ferreira concedeu uma entrevista de antologia. “No final, em que apontei para a câmera, não foi para nenhum jogador ou treinador do Atlético Mineiro. Eu tenho um vizinho no meu prédio que é um chato, foi diretamente para ele estar calado, porque quem manda na minha casa e que sabe o que acontece na minha casa sou eu, não ele”, desabafou Abel, com seu marcado sotaque lusitano.

A identidade do desagradável morador não foi revelada, alimentando uma teoria de que, na verdade, tudo não passou de uma esperta metáfora. Tal qual o Sobrenatural de Almeida — personagem criado por Nelson Rodrigues, um fantasma que era responsável por tudo de ruim que acontecia com o time do cronista, o Fluminense —, o “vizinho chato” de Abel seria o conjunto de seus críticos, torcedores (palmeirenses ou não), jornalistas e todos aqueles que não acreditavam em seu trabalho.

O técnico de 42 anos, nascido em Penafiel, é, sem dúvida, um personagem e tanto. Ex-lateral esforçado com passagem pelo Sporting e pela seleção, tornou-se um estudioso da prancheta. Ironicamente, sua chegada ao Palmeiras tem tudo a ver com o Flamengo. Foi o sucesso de seu compatriota Jorge Jesus na Gávea que fez com que diversos clubes brasileiros se interessassem pela escola portuguesa de “misters”.

O estilo de Abel nada tem a ver com o de Jesus, mas casou perfeitamente com o espírito palestrino. Nesse sentido, aliás, faz lembrar outro ídolo alviverde e na terra de Camões: Luiz Felipe Scolari, que chegou a convocá-lo para a seleção portuguesa.

Abel Ferreira segue surpreendendo em entrevistas -
Abel Ferreira segue surpreendendo em entrevistas – Washington Alves/Getty Images

A forma como Abel costuma jogar o favoritismo para os adversários e se alimentar do embate com torcida, dirigentes e jornalistas é puro scolarismo. Outra semelhança fundamental: são vencedores, pragmáticos e ultracompetitivos.

Nesta Libertadores, o time venceu oito jogos, empatou três e perdeu um, com 27 gols marcados e apenas nove sofridos. Abel chegou ao Palmeiras em novembro de 2020, sem grande badalação, vindo do Paok, da Grécia. Em menos de dois meses, já era campeão da América, como Felipão em 1999.

Continua após a publicidade

Com o Palmeiras, técnico português conquistou seus primeiros títulos na carreira -
Com o Palmeiras, técnico português conquistou seus primeiros títulos na carreira – Conmebol/MF Press Global

Ergueu também a Copa do Brasil com uma equipe eficiente, uma mescla interessante de juventude e experiência. Abel, então, passou a conviver com turbulências. Cobrou a chegada de reforços — e não foi atendido. Contestado por supostamente não conseguir tirar o máximo de um elenco invejável, não baixou a guarda. Ao contrário, foi à luta — às armas, como diz o hino de seu país. “Essa é a diferença entre um rato e um homem. É você acreditar no seu trabalho. Eu sou português com muito orgulho”, disse depois da classificação para a final, citando também os “vizinhos” José Mourinho e Cristiano Ronaldo.

“Temos uma força mental terrível, uma disciplina de trabalho insaciável. Disso, eu não vou abdicar nunca.” Os palmeirenses agradecem.

Ainda não assina Star+?! Clique aqui para se inscrever e ter acesso a jogos ao vivo, séries originais e programas exclusivos da ESPN! 

Renato Gaúcho busca o primeiro título como técnico do Flamengo -
Renato Gaúcho busca o primeiro título como técnico do Flamengo – Buda Mendes/Getty Images

O gaúcho é carioca

Na ponta do lápis, o desempenho de Renato Gaúcho como treinador do Flamengo não pode ser desdenhado — a caminho da final contra o Palmeiras, em Montevidéu, em todos os torneios são 36 jogos, com 24 vitórias, oito empates e apenas quatro derrotas. Foram 86 gols a favor (média de 2,3 por partida) e apenas 30 contra (menos de um por partida). Não haveria mais nada a dizer, correto? Para um técnico pacato, calado e observador, não. Mas Renato gosta de falar, de provocar celeuma, porque é esse o estilo que o leva a se aproximar dos atletas — e convém lembrar que as câmeras de televisão, especialmente no ruidoso silêncio de estádios vazios, não o deixam em paz.

Minutos antes de a bola rolar no Independência, em Belo Horizonte (empate em 1 a 1 com o América-MG), o rubro-negro foi flagrado numa conversa de pé de ouvido com Vagner Mancini, hoje no Grêmio, mas, até então, comandante do Coelho. Ele confidenciou: “Meu time tá todo quebrado, muitos jogadores machucados”. Ao que Mancini respondeu: “Aqui, os problemas são outros”. O diálogo revela o inconfessável: o Flamengo de Renato, que em campo muitas vezes parece voar, lembrando os melhores dias de Jorge Jesus, em 2019, nos bastidores tem passos claudicantes.

O treinador resolve seus problemas com a ferramenta que o tornou respeitado à beira do gramado: a aproximação com os jogadores, como se ainda fosse um deles. Nesse aspecto, ele lembra um pouco Luiz Felipe Scolari. Gosta de insistir no posicionamento em campo, mas não se atém a explicações técnicas rebuscadas. Gosta mais de gente do que de prancheta, como demonstrou largamente no Grêmio.

Renato Gaúcho enquanto jogador do Flamengo -
Renato Gaúcho enquanto jogador do Flamengo – Antonio C. Mafalda/Social QI

Mas é no Flamengo, no cotidiano do Rio de Janeiro, lidando com estrelas autossuficientes em demasia, como Gabigol, que Renato Gaúcho assume seu tom francamente carioca — no sentido de estar disponível para bate-papos com os comandados, aberto a resolver crises na base da conversa e mesclando bom humor permanente com ironia. Ele sempre foi assim.

Renato exibe a taça da Libertadores conquistada com o Grêmio -
Renato exibe a taça da Libertadores conquistada com o Grêmio – ITAMAR AGUIAR/AFP

Convém revisitar uma entrevista histórica concedida por ele à repórter Martha Esteves, em 1987, na primeira de suas quatro passagens como atacante na Gávea. Ele não teve dúvida em asseverar: “Ainda sou o melhor”. Instado a passear pela vida fora do campo — “você não tem sido visto nas noites cariocas desfilando com belas mulheres; mudaram as mulheres ou mudou Renato? —, ele respondeu: “Mudou Renato. Se fosse por elas, eu estaria por aí todas as noites. Só que esse sacrifício de recusar alguns convites tem muito a ver com a obsessão de ser campeão. Minha noiva, Maristela, merece todo respeito”.

O Flamengo foi campeão da Copa União, o Brasileirão daquele ano, e Renato Gaúcho levou a Bola de Ouro de PLACAR. A dubiedade revelada naquela entrevista, e que ainda hoje perdura, é o que o faz interessante — e, muitas vezes, vencedor.

Ele quer levar o Flamengo de 2021 de volta à glória de dois anos atrás e de seu Grêmio de 2017. Por quê? Porque “ainda sou o melhor”. Renato igualou o recorde do treinador colombiano Gabriel Ochoa Uribe em número de vitórias na Libertadores — são cinquenta. Em 27 de novembro quer ser o primeirão, isolado.

*Textos publicados na edição impressa 1480 de PLACAR, de outubro de 2021, com ligeiras adaptações para manter as informações atualizadas

Continua após a publicidade

Publicidade