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A aula de futebol de Xavi: ‘Hoje há mais Simeones que Guardiolas’

Craque espanhol explica sua filosofia de jogo, baseada em talento e posse de bola. E rasga elogios a Messi, Guardiola, Neymar e à seleção brasileira

Por Da redação Atualizado em 20 out 2021, 17h27 - Publicado em 8 jan 2018, 12h33

O espanhol Xavi Hernández foi um jogador muito acima da média, não por suas qualidades físicas, mas por sua compreensão do jogo. Com apenas 1,68 metros de altura, não era forte, nem rápido, nem muito habilidoso. Mas bebeu da fonte de Johan Cruyff e Pep Guardiola no Barcelona e se tornou um dos melhores meio-campistas de sua geração graças à sua técnica e inteligência, passando a bola, encontrando espaços e facilitando o serviço dos companheiros. Aos 37 anos, Xavi segue em atividade, no Al-Sadd, do Catar, e já fala como um “filósofo” da bola. Em entrevista ao diário El País publicada nesta segunda-feira, ele falou sobre sua forma d enxergar o esporte, as principais virtudes de Guardiola e Lionel Messi e rasgou elogios a Neymar e à seleção brasileira.

“O futebol se tornou algo parecido ao futebol americano”, cravou Xavi, que criticou os treinadores que se fecham na defesa, tornando as partidas menos atrativas. “Há mais Simeones do que Guardiolas”, disse o meia, campeão de tudo com o Barcelona e com a seleção espanhola. Confira abaixo alguns trechos da “aula de futebol” de Xavi Hernández:

Exigência física

Melhoramos tanto no nível físico que hoje em dia é muito difícil driblar. Exceto Messi e Neymar (…)  Nós treinamos com um chip no peito, ajustamos as distâncias, os quilômetros percorridos, a velocidade máxima … É impossível estar melhor preparado fisicamente. (…) O futebol se tornou algo parecido ao futebol americano.

Mais Simeones que Guardiolas

Guardiola tinha tudo sob controle. O que aconteceu? Todos quiseram copiar um pouco do estilo Guardiola, como Joachim Löw que nos observou e chegou a onde chegou (com a seleção alemã). Alguns copiaram isso, e outros foram para a antítese, que é Simeone. (…) No futebol de alto nível há mais Simeones do que as Guardiolas. Você vê isso no Campeonato Inglês: quantas equipes jogam como Guardiola? Três? Quatro? (…) A desculpa desses treinadores é: “Não posso competir contra o City ou Barcelona”. Mas eles fazem o mesmo contra Leganés!

Como estimular a criatividade?

Com a roda de “bobinho”. As pessoas ainda pensam que o “bobinho” é para desfrutar. Não! É um exercício incrível: o jogador usa as duas pernas, olha a as linhas, coloca o passe para dentro, atrai a marcação e quando a defesa chega, dá o passe para o outro lado… É um exercício que permite um desenvolvimento infinito.

Tempo e espaço

No Barça entendemos o futebol como espaço-tempo. Busquets, Messi, Iniesta, são mestres nisso. Eles sempre sabem o que fazer, estejam livres ou cercados. Há meio-campistas como Casemiro, que não entendem isso. Mas, por sua vez, Busquets nunca poderia fazer as coberturas que Casemiro faz quando se joga no tudo ou nada. No Real Madrid, sete vão atacar e Casemiro fica sozinho na cobertura. Isso o Busquets não pode fazer porque até eu sou mais rápido que ele. Casemiro é muito rápido. Mas tem outras dificuldades, porque não trabalhou isso na base, tem características mais defensivas, rouba mais bolas, ela chega, cobre mais campo. Mas não domina o espaço-tempo. Se Casemiro fosse estimulado a isso com 12, 13, 15 anos, teria. Por que a Kroos tem isso? Porque trabalharam na Alemanha. Por que Thiago Alcántara tem isso? Porque ele esteve na escola do Barça.

Talento x força física

O talento sempre vence. O dia em que isso não acontecer, estragaremos o jogo e ele se tornará muito chato. E como eu realmente acredito que o talento sempre se impõe, o que precisa ser explorado é o seguinte: que o jogador pense nos porquês. Por que você está nessa posição? Por que você virá no momento certo? Por que seu parceiro está corrigindo os espaços para que você receba sozinho? As coisas não acontecem por acaso. (…) Mais do que mudanças de posição, devemos falar sobre a compreensão do jogo. Não temos que ensinar o jogador a mudar de posição, mas a entender as coisas. (…) Se Iniesta estiver aqui, não posso estar no mesmo lugar. Agora, no momento certo, se Iniesta for pressionado, eu lhe dou uma saída. A vantagem do Barça em comparação com outras equipes é que eles têm trabalhado isso por muitos anos.

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Bom futebol x futebol bonito

Luis Aragonés (ex-jogador e técnico espanhol) me dizia: “Do que que você gosta? Futebol bonito ou bom futebol? Eu não entendia o que isso significava. (…) Não quero dar nomes, mas na Liga nos impressionamos muito  com jogadores que desapareceram sem deixar rastro. Firula para quê? Messi nunca faz firula. Ele joga o bom futebol, que é tão bom que chega a ser bonito.

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Retrancas

Luis Enrique fazia muito bem o recurso de se fechar mais na defesa, mas eu não gosto disso. Luis Enrique convidava o rival para atacar e saia no contra-ataque, com Neymar e Suárez. Isso seria impensável no Barça de Guardiola. Depende do treinador. Eu não gosto. Mesmo ganhando de 1 a 0 no minuto 89, o que eu quero e onde me sinto mais confortável é estar no campo contrário, tendo a bola e indo no ataque. (…) Como eu me defendo melhor? Com a bola. O adversário já não pode atacá-lo. Ele deve roubar a bola primeiro. E se ele roubar de você e está a 70-80 metros do seu objetivo, a conclusão é clara.

O chileno Marco Estrada tenta tirar a bola do espanhol Xavi
Xavi, sempre com a bola, durante Copa de 2010 Foto: Martin Bernetti/AFP/VEJA

‘Mourinho não queria jogar futebol’

O Mourinho que conhecemos em Madrid nos jogou diretamente no contra-ataque. Mourinho pedia a seus jogadores para não pararem a bola. Passavam rápido e Di Maria, Cristiano ou Benzema já correndo. Agora eles fazem com Bale, etc., etc … Eles não queriam jogar futebol!

O novo City de Guardiola

De Bruyne e Silva se adaptaram ao meio-campo porque são esses tipos de jogadores que sabem perfilar-se em 360 graus, giram para ambos os lados, veem todo o campo. Na maneira de jogar de Guardiola é preciso ter pontas extremos, bem abertos, como Sané. (…) É como Bale: se você o colocar no meio, ele não funciona. São jogadores de ponta, dribladores. Como Cristiano, que não pode jogar por dentro, ele não se encaixa ali. De Bruyne e David Silva são um espetáculo… parece que estamos descobrindo Silva agora.

Messi como Lebron James

Taticamente, Messi domina tudo. Espaço, tempo, onde está o parceiro e o rival. Antes ele só desequilibrava com habilidade e força. Agora ele dribla com malandragem: atrai marcadores e habilita seus companheiros.  Como ele sabe que os marcadores têm medo dele, Messi espera que venham outros, e quando ele estiver num 3 contra 1, ele passa no momento certo. Eu vi isso em Le Bron James, quando vêm dois em cima ele passa para o companheiro arremessar livre de três.

Seleção brasileira e favoritos da Copa

Vejo que o Brasil se recuperou, tem uma ótima equipe. E tem ambos: talento e físico. Isso é difícil. É por isso que a Espanha tem tantos méritos. Porque ganhou praticamente sem força física. Atualmente, a Espanha ganhou mais força física, mas não pode competir com a Alemanha nisso. A Espanha deve competir por talento. França, Brasil e Alemanha estão no nível mais alto. E não esqueçamos da Argentina, que está no nível da Espanha. O que acontece é que os argentinos jogam tão pressionados que não podem render.

Profissionalismo dos brasileiros

Neymar é um bom menino. É brincalhão. E Daniel Alves também. As pessoas pensam que Alves está toda hora em festa porque é o que ele mostra no Instagram. Mas ele é um profissional. É o modo de vida dele e o treinador deve controlar. Na época de Cruyff, Romário não era uma pessoa fácil e ele teve de cuidar disso.

A era de Neymar

Neymar é um líder incrível. No campo, é brutal. Ele tem uma personalidade que nada o assusta. Isso é uma virtude. O que diferencia o grande jogador de futebol é isso. Que nos momentos mais difíceis ele diz: me dê a bola. No Barça, quando a situação ficava difícil, todos queriam a bola. Acho que haverá uma era depois da de Messi e Cristiano na qual Neymar será a referência. Também porque ele é brasileiro e o Brasil tem tudo para estar nas finais de uma Copa do Mundo. Será uma era Neymar de três ou quatro anos. E então Mbappé virá. Tem um potencial brutal. É muito jovem. Apenas 19 anos. É uma fera. Mas acho que o talento se impõe ao físico. Neymar é como Messi: talento e físico. E eu acho que Mbappé tem mais física do que talento. (…) Eu e Iniesta só tínhamos talento, nada de físico. Mas há aqueles que foram tocados pela varinha mágica e têm ambos: Maradona. Pelé, Ronaldo Nazario, Messi, Neymar.. Gostaria de ver Mbappé contra uma defesa como a do Atlético de Madri. Em meu modo de ver o jogo, hoje, Neymar é melhor.

Neymar e Xavi
Neymar abraça Xavi na final da Copa das Confederações de 2013, no Maracanã Laurence Griffiths/Getty Images
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