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Primeira grande zebra em Sochi: Shaun White deixará a Rússia sem medalha

O maior nome do snowboard mundial erra na estratégia e não consegue esboçar reação. Melhor para os russos, que mesmo sem um representante oficial na disputa, comemoraram o ouro de um atleta da Suíça

Por Alexandre Salvador Atualizado em 6 out 2021, 22h32 - Publicado em 12 fev 2014, 08h25

“Agora o mundo sabe que existem outros snowboarders além do Shaun”, disse o também americano Danny Davis. “E isso é ótimo”

Foi como se Usain Bolt tropeçasse na final dos 100 metros rasos. Ou como se a seleção brasileira de futebol fosse eliminada logo na primeira fase de uma Copa do Mundo. A surpreendente derrota do americano Shaun White na final do halfpipe no snowboard, na terça-feira, deixou todos em choque. O próprio White, que lutava pela terceira medalha de ouro seguida em uma Olimpíada, inclusive. Como isso aconteceu? Estava tudo correndo como planejado. Na qualificação, à tarde, White voou pelo tubo gelado problemático dos Jogos de Sochi como se fosse uma tarde qualquer, marcou a melhor nota da qualificação e caminhava para mais uma noite triunfante. O americano estava tão tranquilo e confiante que não ligou muito para o protocolo e pulou algumas entrevistas para realizar o sonho de dois fãs especiais.

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A noite caiu, a temperatura da pista também, felizmente, mas daí vieram os problemas. Depois de assistir a todos os outros competidores marcarem seus pontos, alguns deles bem altos, foi a vez de Shaun descer o halfpipe. A estratégia era marcar uma ótima primeira descida, tomar a liderança e tomar qualquer decisão sentado no resultado garantido. “Eu tinha um plano de jogo, tinha uma descida específica que eu queria acertar e não consegui, e isso é uma das coisas mais frustrantes. Se eu consigo acertar minha descida e sou derrotado, fico bem com isso, mas não foi assim’, disse White, mais de uma hora depois do fim da competição, na sala de entrevistas do complexo Rosa Khutor.

O bicampeão olímpico não conseguiu seguir o planejamento: uma queda inesperada ao final da primeira descida o obrigou a ir para o tudo ou nada na segunda volta. Seria um capítulo épico em sua história, tomar a liderança da competição na última volta, do último competidor. Seria digno da sua importância no esporte. Mas não foi: após uma volta tecnicamente questionável, em que Shaun novamente quase caiu no tubo, ele levantou os braços, como se estivesse tentando convencer aos jurados (e a si mesmo) de que ainda assim merecia a medalha.

Mas ela não veio. A pontuação só foi suficiente para a quarta colocação, colocando Shaun na fronteira entre os premiados e o limbo dos outros competidores. Alguns de seus concorrentes aliás, se disseram satisfeitos com o fim da hegemonia de White no snowboard. “Agora o mundo sabe que existem outros snowboarders além do Shaun”, disse seu conterrâneo Danny Davis. “E isso é ótimo. Existe uma penca de outros atletas no nosso esporte, e eles merecem algum reconhecimento também.” O resultado foi, no todo, decepcionante para os americanos. Dos quarenta competidores que começaram a fase inicial, três chegaram às finais. Mas na decisão, apenas Shaun conseguiu completar uma volta sem cair.

Apoteose russa – Mesmo sem contar com nenhum representante oficial na final do halfpipe, a torcida local lotou as arquibancadas e os arredores gelados da pista de snowboard. E eles tinham um competidor preferido: o suíço Iouri Podladtchikov. Suíço no passaporte, Iouri tem a Rússia no coração. Afinal, o atleta nasceu e viveu no país até os 4 anos de idade – por isso, os russos levaram faixas e bandeiras que juntaram as bandeiras da Suíça e da Rússia, e gritavam seu nome à exaustão durante suas descidas. A combinação entre empolgação de competir em “casa” e o dia infernal vivido pelo grande favorito Shaun White culminaram na vitória de Podladtchikov – que, justiça seja feita, fez uma volta espetacular, em meio a outra voltas mais burocráticas. “Eu estou amando tudo isso. Poder falar em russo, a minha língua materna. Isso me traz tantas memórias”, disse o abilolado e extasiado Iouri, que abraçava e tirava fotos com suíços, russos e quem mais aparecesse em sua frente.

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