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Percalços, vacina e medalhas: os planos do COB a 100 dias de Tóquio

Presidente Paulo Wanderley disse que pandemia deixou projeção de medalhas ainda mais incerta e que não comprará briga por vacinação ofertada pelo COI

Por Klaus Richmond Atualizado em 23 set 2021, 20h08 - Publicado em 14 abr 2021, 08h14

A corrida para a realização dos Jogos Olímpicos de Tóquio já entra em sua reta final. Mesmo cercada por incertezas, além de rejeição da maioria da população japonesa – apenas 9% concordam com a manutenção do evento em meio à pandemia de Covid-19, de acordo com pesquisa local realizada pelo Centro Social de Pesquisa e o Mainichi Shimbun – a Olimpíada deve mesmo ocorrer a partir de 23 de julho, data da cerimônia de abertura. A exatos 100 dias do início, o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) traça seus últimos planos logísticos e sonha com papel de protagonismo do Time Brasil.

Em entrevista a VEJA, o presidente do COB, Paulo Wanderley Teixeira demonstrou otimismo, mas não quis estabelecer uma meta de medalhas. “O ciclo que construímos em 2019 foi de muito sucesso. Foi o nosso melhor ano pré-olímpico, melhor até do que 2015, com muitas medalhas em mundiais, eventos importantes, isso nos dava um norte. Agora tudo ainda é uma incógnita.”

A entidade já anunciou que diminuirá sua delegação, com o corte de quase 100 convidados como ex-atletas olímpicos, jovens promessas de modalidades, presidentes das confederações e outros dirigentes. Paulo Wanderley comentou sobre a oferta de vacinas doadas pela China ao Comitê Olímpico Internacional (COI) e disse que o Time Brasil poderá fazer parte do acordo, mesmo com o posicionamento de que a imunização dos atletas não será obrigatória. Não haverá, no entanto, a compra de uma briga com o Governo Federal para a viabilização. Confira a entrevista com o dirigente, na íntegra:

Como o COB se prepara para os Jogos Olímpicos em meio a tantas incertezas? O COB trabalha desde o início como se os Jogos, realmente, fossem acontecer. Fomos o segundo Comitê a sugerir o adiamento, mas, desde o momento em que foi oficializado, trabalhamos com percalços, controles e atipicidades. Temos tomado medidas, principalmente com relação aos atletas, com programas de contatos direto com a confederações e atletas, além de outras práticas com países em que as coisas estão com um melhor controle. Trabalhamos sempre com a possibilidade de que vai existir mesmo com todas as restrições.

A delegação brasileira será vacinada? Precisamos lembrar que no Japão não se exige vacina de ninguém, mas a nossa equipe vai obedecer ao programa de Governo Federal, do Ministério dos Esportes e dos órgãos que normatizam, obedecemos ao planejamento deles. Existe uma oferta de vacinas em negociação junto ao COI, que foi procurado pela China. Estamos em contato, é uma negociação evoluída da nossa parte. É uma possibilidade, mas nós não vamos pleitear avançar dentro da programação do governo. Essa oferta de vacina, inclusive, não é só para os atletas, funcionaria como contrapartida para a sociedade brasileira. Vai depender de prazos, não sabemos exatamente como vão proceder. Pode ser que usem a cota já em produção no Brasil e depois reponham.

Houve cortes, qual a previsão do total de pessoas na delegação? Nós já temos classificados hoje 200 atletas, mas a possibilidade dentro da nossa estratégia é chegar entre 270, talvez até 300 atletas. Muitos esportes fazem suas classificatórias, eventos foram cancelados, até lá a nossa previsão é a de contar com pelo menos 270 atletas.

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Boa parte da população japonesa é contrária ao evento. O COB é favorável ao cancelamento? Não trabalho com a discussão de que estão rejeitando a Olimpíada, o mundo todo está apreensivo, claro, não sabe como estará nessa época, mas quando chegar mais próximo ao evento é que vamos sentir. O brasileiro também agiu assim em 2016, uma parte da população tinha uma rejeição aos Jogos do Rio, mas quando o evento se aproximou houve uma receptividade total. Acredito que possa existir parte da população rejeitando, sim, mas quando chegarem as delegações será um marco para a volta da normalidade.

Olimpíada de Tóquio deve ocorrer entre julho e agosto mesmo com nova variante da Covid-19 -
Olimpíada de Tóquio deve ocorrer entre julho e agosto mesmo com nova variante da Covid-19 – Kyodo News/Getty Images

Mesmo na pandemia acredita nesse cenário de normalidade? Vão ter oposições, sempre, em toda a parte do mundo. As medidas efetivas foram tomadas, a de não poder ter público estrangeiro, por exemplo. Acredito que vá mudar, sim, é uma situação totalmente atípica.

O quanto o adiamento dos Jogos afetou as contas do COB? Conseguimos contornar muitas situações. Mantivemos os contratos feitos com as cidades, por exemplo. Com a companhia aérea, também. Em março de 2020, quando tomaram a decisão de adiamento, fomos para cima para negociar. Não temos um prejuízo descomunal porque temos muitas ações que não foram realizadas, também. Não vamos fechar as portas, nada disso. É um prejuízo de poucos milhões, é mensurável. A delegação está garantida em termos de hospedagem e de transporte. Esse é o custo maior, estamos falando de uma viagem para o Japão. Pouco a pouco buscamos espaço e estamos recuperando capacidades.

Qual a expectativa de medalhas? Há algum nome que pode surpreender? O ciclo que construímos em 2019 foi de muito sucesso. Foi o nosso melhor ano pré-olímpico, melhor até do que 2015, com muitas medalhas em mundiais, eventos importantes, isso nos dava um norte. Agora tudo ainda é uma incógnita. Tínhamos a oportunidade de sucesso grande, talvez melhor do que 2016. As coisas mudaram, houve quebra de rotina, embora alguns países aparentem ignorar que tem pandemia, treinam entre si normalmente. Não dá mais para ter um parâmetro, os parâmetros são sempre em nível mundial. Os resultados que temos obtido nos últimos meses são animadores, mas não dá para citar nomes ou fazer projeções porque vou apostar e cometer falhas, seria indelicado.

Como o senhor imagina a Olimpíada sem público? Perde a graça? Posso dizer por experiência própria que é um entusiasmo grande estar no ginásio e ver o público, isso é insubstituível, mas acho que o público vai ser bem servido. A mídia oferece algo de uma forma como nunca foi feita antes, com maior liberdade. Quem não vai querer assistir a uma modalidade de sua maior preferência? A tecnologia vem acompanhando essas necessidades, acho que vão acontecer surpresas. Inclusive, será interessante em termos de patrocinadores para o COB e para os atletas, pela visibilidade.

Como está sendo para o esporte brasileiro o fato do país estar isolado do mundo por conta do avanço da pandemia? Afeta o planejamento? Primeiro, é uma tristeza muito grande, nunca pensei em nada parecido, mas das grandes crises há grandes soluções, também. Nós demos um exemplo guiando os nossos atletas para treinar em países que não tinham tantos problemas. Claro que assusta esse avanço, só quem nasceu hoje que não sabe da gravidade da situação, está na cabeça de todo o brasileiro consciente. Pessoalmente, já tive vários amigos com o problema, alguns falecidos e chamo atenção para isso, não estou relaxado, mas não podemos parar.

Há um peso político que respinga no COB, atletas e confederações? O que chega até vocês? Nós cuidamos do nosso negócio, o nosso negócio é o esporte. Nos adaptamos, não temos como interferir. Nos adaptamos o que acontece, cada um sabe o que fazer na sua área. Temos uma comissão de atletas muito importante, composta por 25 atletas que são atuantes. O retorno que temos tido é que estão satisfeitos com o processo olímpico. Não vejo nenhum atleta reclamando das ações do COB.

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