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O protocolo olímpico contra o jeitinho brasileiro

Primeira gafe olímpica do Rio expõe choque de culturas entre as organizações de 2012 e 2016: para autoridades e funcionários do COB, copiar sem autorização é normal

Por Leslie Leitão Atualizado em 8 out 2021, 09h35 - Publicado em 1 out 2012, 15h32

Ao longo da última semana, VEJA apurou com pelo menos três fontes ligadas aos funcionários demitidos que a farra dos downloads de documentos era praxe. Foram milhares os arquivos baixados

Primeira gafe do ciclo olímpico oficial do Rio de Janeiro, a cópia não autorizada de arquivos da organização dos Jogos Olímpicos de Londres por funcionários do Comitê Rio 2016, está longe de ser um escândalo internacional. Afinal, representantes das duas cidades têm um acordo formal de cooperação, como mandam a tradição e, principalmente, os contratos firmados entre os comitês olímpicos. O teor exato do que foi “furtado” – para se usar a primeira expressão usada pelos londrinos – permanece em sigilo, mas não há razões para crer que o descuidado “copia e cola” tenha quebrado algo além de protocolos. O que ficou exposto, de forma indiscutível, é o seguinte: para os britânicos, o espírito de colaboração segue um padrão que pressupõe confiança, mas também respeito aos donos da casa; e, para os brasileiros, pelo menos no episódio em questão, é normal sair disparando e-mails e baixando arquivos sem pensar se isso fere as regras do jogo.

O alerta do Locog 2012 – o comitê londrino – foi uma espécie de “alto lá” para o Rio 2016. O choque de culturas mostra o quanto os organizadores daqui têm para aprender com os anfitriões de uma das mais bem organizada e estruturada Olimpíada da história. Além de construir arenas, reparar vias e criar equipamentos de transporte, o desafio brasileiro é também de destruir um inimigo traiçoeiro: o jeitinho.

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O susto com o episódio que resultou na demissão de nove funcionários do Rio 2016 foi só o começo. A entrevista coletiva do presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) nada esclareceu. Se não é possível abrir o conteúdo do que foi copiado indevidamente, em nome da transparência o COB ainda deve um esclarecimento sobre quem, afinal, estava acima da operação desastrada. Até agora, apenas uma tradutora com 12 anos de serviços prestados, Renata Santiago, veio a público se defender. E levantou o que parece óbvio: os funcionários do COB agiam com o conhecimento – e orientação – de seus superiores.

Renata admitiu ter copiado conteúdos como modelos de apresentação em Power Point para comitês locais. E, como se imagina, nada capaz de mobilizar o serviço secreto da rainha. VEJA apurou que, além das apresentações do Comitê de Londres, havia documentos com informações para patrocinadores e planejamentos de outros eventos promocionais.

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Desde seu pronunciamento, ao lado do diretor-geral do Comitê Rio-2016, Leonardo Gryner, Nuzman alega não ter conhecimento do que acontecia nos escritórios que reuniram brasileiros e ingleses em Londres. O desconhecimento das autoridades daqui sobre o que se passava numa operação de troca de informações com alguma relevância é importante – mas não é, ainda, o foco do problema. Para justificar o corte na hierarquia ‘pelo pé’, ou seja, com os operadores diretos, em vez de algum dos responsáveis pela cópia sem autorização, Nuzman lançou mão do seguinte: “Houve uma quebra de confidencialidade”.

Ao longo da última semana, VEJA apurou com pelo menos três fontes ligadas aos funcionários demitidos que a farra dos downloads de documentos era praxe. Foram milhares os arquivos baixados. “Todos sabiam. Inclusive os chefes imediatos dos que estavam copiando, e o próprio Nuzman. Nada era feito escondido, até porque não havia nenhum documento sigiloso, aquilo não era tratado como algo criminoso ali dentro. Como os ingleses poderiam distribuir senhas para 24 pessoas que eles nunca tinham visto antes na vida se houvesse algo tão secreto? Então eles iam copiando, copiando”, afirma a mãe de um dos demitidos, que pediu para não ter seu nome revelado.

A própria Renata Santiago afirma ter reportado tudo a seus superiores. O chefe imediato da funcionária demitida, o argentino-canadense Mário Cilenti, entretanto, acabou sendo poupado. A cúpula do Comitê Rio 2016 afirma que ele também não sabia de nada que a funcionária havia feito – apesar de receber os arquivos enviados por ela.

O procedimento irregular foi descoberto pelo Comitê de Londres e um relatório foi enviado ao Rio com os nomes dos funcionários que haviam acessado e a quantidade de documentos copiados por cada um deles. Dos dez nomes iniciais, somente um foi ‘absolvido’, depois que um dos chefes do núcleo britânico (o comitê local designou chefes a quem os brasileiros se reportavam no período de troca de informações) admitiu ter conhecimento das cópias. Os dirigentes daqui, no entanto, não veem falhas na orientação de seus funcionários: “Nem todos agiram da mesma forma. Isso deixa claro que havia uma orientação nesse sentido”, diz Gryner, praticamente ignorando o fato de mais de um terço do grupo do Brasil ter sido flagrado copiando dados indevidamente.

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