ASSINE PLACAR DIGITAL NO APP POR APENAS R$ 6,90/MÊS

Gaúcho da Copa: o amor pela seleção brasileira, de pai para filho

Três anos depois da morte do torcedor símbolo do Brasil, seus filhos preparam a taça e o chimarrão para manter tradição familiar na Rússia

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 28 set 2021, 22h12 - Publicado em 19 mar 2018, 10h11

“Nada acontece sem um sonho”. Este era o lema que Clóvis Acosta Fernandes repetia aos filhos desde que foi infectado pelo “vírus” da Copa do Mundo. O simpático senhor de bigode e trajes típicos do Rio Grande do Sul ganhou fama como o Gaúcho da Copa, o torcedor mais fiel e entusiasmado da seleção brasileira, sempre com seu chimarrão e taça nas mãos. Fernandes se considerava o 12º jogador e se orgulhava em dizer que tinha mais “jogos pelo Brasil” que o recordista Cafu (156 a 149). Seu sétimo e último Mundial, porém, não terminou da maneira esperada. E um ano após estampar capas de jornais de todo o planeta, chorando o 7 a 1 no Mineirão, o gaúcho morreu de cânceraos 60 anos. Mas deixou sua paixão de herança: os filhos Frank, de 39 anos, e Gustavo, de 33, darão sequência à “tradição” familiar e já preparam as malas para a Rússia.

Tabela completa de jogos da Copa do Mundo 2018

Clóvis nasceu em Cruz Alta (RS), de família pobre, e ao mudar para a capital Porto Alegre se estabeleceu no ramo de alimentação. Foi dono de dois restaurantes, e também trabalhava como corretor de imóveis – assim como o filho Frank Damasceno Fernandes, que no verão ainda mantém uma tenda de lanches na praia do Rosa, em Santa Catarina, há 17 anos. “Basicamente, trabalho para ir à Copa.” Ele diz que foi a seis Mundiais e várias outras competições, como Copa América e Olimpíada. “É viciante, é como uma cachaça para nós. Um evento termina e já fico esperando o outro. Meu pai dizia: ir à Copa do Mundo, de quatro em quatro anos, é a maneira que encontrei de envelhecer sem sentir.”

A paixão do fanático gremista pela Copa do Mundo começou em 1990. Ao ver um programa sobre o evento, avisou a mulher, Débora: ‘Nega, vou viajar para a Itália, viu?” Surpresa, a mulher pediu um presente em troca: um piano. Clóvis topou, se mandou para o aeroporto de Milão, e voltou extasiado, mesmo com a derrota do Brasil para a Argentina de Maradona. Foi a todos os Mundiais seguintes e ganhou destaque na Coreia do Sul e no Japão. “O Gaúcho da Copa nasceu em 2002, brilhou na arquibancada e foi eleito o símbolo do penta.” A partir daí, as viagens se tornaram mais constantes – e baratas, já que a CBF passou a ajudar seu torcedor mais fiel com os ingressos.

Torcedor do Brasil chora a derrota para a Alemanha no Mineirão, em Belo Horizonte
Clóvis e o choro no Mineirão Ivan Pacheco/VEJA.com/VEJA

Depois da decepção em 2014, o futebol deu uma última grande alegria a Clóvis – ironicamente,vestindo as cores de outra seleção. “A Copa América de 2015, no Chile, foi a última. Ele já estava bem ruinzinho, tinha parado a quimioterapia, e decidiu contar a uma TV chilena que estava lutando contra o câncer. No dia seguinte, as pessoas o paravam na rua, pegavam sua mão, desejando bendiciones. Foi uma coisa linda. O Brasil foi eliminado, eu falei para voltarmos para casa, porque ele estava mal. E ele disse: ‘Não, vou ficar aqui, porque o Chile vai ser campeão e quero ver’. Dito e feito”, conta Frank.

O herdeiro do Gaúcho da Copa já visitou mais de 60 países para torcer pela seleção. Conheceu seus ídolos, teve contato com várias culturas e até recebeu uma carta de reconhecimento da rainha da Inglaterra. Hoje, Frank e o irmão Gustavo comandam o grupo Gaúchos na Copa, que viajará à Rússia com cerca de dez integrantes. A trupe chegará a Moscou em junho e atualizará seu site e página no Facebook com histórias e fotos das excursões. Sempre em nome do pai. “O Gaúcho da Copa é um personagem mágico e ficamos com esse legado.” Confira algumas passagens sobre Clóvis e seus familiares, contadas pelo filho Frank.

Tradutor do pai no tetra

“Tenho muito viva essa recordação do meu pai voltando da Copa de 90 e me dizendo: ‘filho, estude inglês, que na próxima Copa você será o meu intérprete’. Estudei, me apaixonei pelo idioma, e quatro anos depois estávamos desembarcando em Los Angeles. Fomos só nós dois, ficamos 52 dias rodando os Estados Unidos de carro, seguindo a seleção, com uma fita cassete da banda Cheiro de Amor. Eu tinha 14 anos e o Brasil foi campeão. Estava muito quente aquele dia em Pasadena e a carga emocional foi tanta que tive espasmos, não conseguia me mexer direito. E a lembrança do Ayrton Senna, foi emocionante demais. Nós chegamos para a final com ingressos separados, era tudo numerado, mas ele conseguiu trocar e pegar dois bilhetes num mesmo setor. Era atrás do gol, fiquei meio chateado. Mas o velho era tão iluminado – às vezes pensávamos que era de outro planeta – que ficamos bem atrás do gol onde a bola do Roberto Baggio passou por cima. Depois do tetra, ele me olhou e disse: ‘Eu só tive uma emoção maior que essa na vida: ter tido meus filhos, você, o Gustavo, a Marjorie e a Karine.’

Frank e Clóvis, na frente do Rose Bowl, onde o Brasil conquistou o tetra em 1994 Frank Damasceno/Arquivo pessoal

Emoção, sem o pai, na Rio-2016

“Na Olimpíada do Rio, fui a todos os jogos da seleção de futebol e convenci meu irmão a ir à final comigo, com a taça e o chapéu do pai. O velho dizia que quando se faz o bem, com amor, isso se perpetua, é atemporal. E sentimos isso na pele, nos arrepiou. As pessoas no Maracanã perceberam que eram a taça e o chapéu do meu pai e vieram falar conosco, tirar foto, falar sobre ele. E o momento foi mágico: o único título que meu pai não viu foi justamente contra a Alemanha, nos pênaltis. Quando o Neymar fez o gol do título, me arrepiei todo pensando nele.”

Continua após a publicidade

Continua após a publicidade

Os ‘anjos’ das Copas

O tradicional “camisetão” do grupo Frank Damasceno/Arquivo pessoal

“Costumamos dizer que em toda Copa temos um ‘anjo’, como chamamos a pessoa que nos ajuda, um amigo que fazemos e carregamos. Em 2002, em Ulsan, na Coreia do Sul, encontramos um cara que arrumou apartamento, celular, internet. Na Copa das Confederações em 2005, um alemão viu a gente vestido e perguntou, cheio de sotaque: vocês são gaúchos? Minha namorada é gaúcha, fui muito bem tratado lá e vou tratar vocês muito bem aqui.’ E nos levou para a casa dele. Essa interação acontece muito. Na África do Sul foi demais. O que mais marcou lá foi o povo sul-africano, que tem vibração, uma musicalidade. O anjo chileno nós conhecemos no aeroporto de Brasília, em 2014. Um cara super gente boa, prometeu nos receber na Copa América no ano seguinte. Nos arrumou casa, carro, tudo…e ainda foi em todos os jogos com a gente. Depois casou-se com uma brasileira e hoje trabalha aqui. Cada evento desses é uma aula de civilidade.”

Dor no 7 a 1: espírito esportivo acima de tudo

“No dia do 7 a 1, eu tinha tomado cerveja, mas o efeito passou logo nos três primeiros gols, parecia que estava sóbrio. Não conseguíamos nem olhar para o campo, não acreditávamos. A imagem do meu pai chorando abraçado à taça rodou o mundo, foi trending topic no Twitter. E depois do jogo, simbolicamente, meu pai deu a sua taça para uma torcedora alemã, dizendo: ‘Parabéns, vocês merecem.” E isso foi eleito na Alemanha como o gesto mais bonito da Copa do Mundo. Fomos convidados até para ir a Munique receber essa homenagem. Nesse evento, subimos ao palco com o Mario Götze, autor do gol do título alemão, o Dante e a menina que ficou com a taça.”

Boateng, Götze, o apresentador do evento, Clóvis, a torcedora que ficou com sua taça e Dante Frank Damasceno/Arquivo pessoal

O preço (salgado) da paixão

“Essa vai ser uma Copa cara. Fui motivo de chacota na primeira reunião dos Gaúchos da Copa, porque calculei que daria uns 35.000 reais. Mas você tem de pensar em imprevistos, às vezes não se consegue ingresso, que pode custar uns 3.000 dólares. No Brasil x Inglaterra em 2002, eu estava sem ingresso. Nesse jogo eu tinha 2.500 dólares na mão. Saí procurando ingresso, mas quem tinha não queria me vender. Acabei ficando fora. Em 1998, vendi um carro para ir à Copa, um Ford Corcel azul calcinha que meu vô tinha me dado. Vendi por 1.000 dólares e fui para a Copa. A gente dá um jeito, o importante é ir. Se um dia eu assistir a Copa do sofá, pode ter certeza que será minha última. Quando eu vejo chamadas da Copa na TV, eu já fico ansioso, sonhando…”

Apoio da CBF

“O próprio pessoal da CBF já adquiriu um carinho por nós, também porque sempre nos portamos direitinho, ficamos na nossa. Entre 2002 e 2006, começamos a receber ingressos da CBF. Os dirigentes nos ajudam por ver a dedicação que temos pela seleção, o respeito que a gente tem, criou uma empatia. O Ricardo Teixeira era mais sisudo, mas sempre nos cumprimentava. O Marin sorria, gostava de ver a gente. O Del Nero também. Quanto aos problemas dele, não me meto. Eles sempre nos trataram bem e somos gratos por isso. Cada um com seus pepinos, nosso negócio é torcer.”

Frank com o ídolo Ronaldo, na concentração da seleção Frank Damasceno/Arquivo

A carta da rainha Elizabeth

. Frank Damasceno/Arquivo pessoal

“Fazemos batucadas nos estádios, com instrumentos musicais doados. No estádio Old Trafford, na Olimpíada de 2012, era proibido levar os instrumentos. Nós fizemos um pedido via consulado, tivemos de apresentar tudo um dia antes, documentos. Sempre gostamos de fazer contato com os consulados, ter o máximo de informação possível, isso sempre ajuda nas viagens. Uma vez, mandamos camisas do Grêmio para a rainha da Inglaterra, para o príncipe William e para a Kate Middleton. A rainha nos escreveu uma carta de agradecimento, acredita? Choramos feito crianças quando a recebemos.”

Aventuras culinárias

“Em 2002, fomos a uma reunião com uma família coreana, nos entendíamos por gesto. O cara trouxe uma carne e fez “au au”. Nós entendemos, achamos estranho, mas comemos. São questões culturais que gostamos de conhecer e respeitar em cada viagem. Na Copa da África do Sul, falavam para a gente não ir à região de Soweto, que era perigosa, mas fizemos até churrasco lá, aliás, a linguiça sul-africana é sensacional. E o nosso churrasco e chimarrão nunca podem faltar. A gente diz que leva a simpatia e a cordialidade do povo do Brasil, com foco nos costume gaúchos. Temos orgulho de ser gaúchos e brasileiros, as duas bandeiras vão juntas.”

Clóvis, Frank e Gustavo na Olimpíada de 2012 Frank Damasceno/Arquivo pessoal
Continua após a publicidade

Continua após a publicidade

Publicidade