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Fifa nega fim do evento, mas sofre pressão e cobra governo

Medo da violência decorrente dos protestos no país motiva pedidos de cancelamento do ensaio geral para 2014. Por enquanto, torneio continua, mas sob ameaça

Por Giancarlo Lepiani, de Salvador Atualizado em 7 out 2021, 10h06 - Publicado em 21 jun 2013, 13h08

A Fifa sabe das consequências desastrosas, para ela e para o Brasil, de um eventual cancelamento da Copa das Confederações ainda na primeira fase, sem que o torneio tenha um campeão. Por isso, a cúpula da entidade ainda não trata seriamente da ideia – defendida cada vez mais pelos envolvidos no evento, mas desmentida em comunicado de sua direção de comunicação na manhã desta sexta-feira, um dia depois das manifestações que levaram cerca de 1 milhão de pessoas às ruas e véspera da partida mais aguardada da fase de grupos, entre Brasil e Itália, na Arena Fonte Nova, em Salvador, neste sábado. A capital baiana, aliás, foi palco de uma das cenas que mais preocuparam a entidade: veículos com identificação da Fifa, que servem para transportar funcionários e dirigentes, foram apedrejados na quinta. Temerosos, os funcionários de menor escalão são alguns dos que estariam defendendo a interrupção súbita da competição. Mais preocupantes são os sinais de que delegações participantes do torneio (ou pelo menos alguns integrantes dessas equipes) estariam dispostos a abandonar a disputa e voltar para casa. Atletas que trouxeram parentes e amigos ao país estão alarmados com os numerosos casos de violência ligados aos protestos nas ruas. O fato de a Copa ser um dos alvos dos manifestantes, que criticam os gastos excessivos dos governos estaduais e federal com o evento, aumenta ainda mais a pressão sobre a Fifa.

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Quase todas as partidas já realizadas foram impactadas, de uma forma ou de outra, pelos protestos desta semana. Desde a abertura, em Brasília, até os dois jogos disputados na quarta, no Rio de Janeiro e em Salvador, os manifestantes se aproximaram das arenas do torneio em diversas ocasiões, inclusive nos dois jogos da seleção brasileira. Na quarta, em Fortaleza, a presença da equipe na Arena Castelão foi usada pelos manifestantes para atrair ainda mais atenção para suas reivindicações. Um grupo violento chegou a furar o bloqueio policial que protegia o estádio, motivando um confronto a poucos quilômetros do local do jogo, a menos de duas horas do duelo entre a seleção brasileira e o México. Os integrantes da delegação mexicana seriam alguns dos insatisfeitos com a presença no país. Outros seriam os italianos, justamente os adversários do Brasil no jogo de sábado, na Bahia. A partida deverá ser um episódio decisivo para a organização da Copa das Confederações. Estarão em campo as duas maiores vencedoras da história dos Mundiais, num duelo que será transmitido para todo o planeta, numa das cidades onde as manifestações foram mais turbulentas. Em caso de distúrbios graves no entorno da Fonte Nova, os pedidos de cancelamento do torneio deverão se multiplicar – e a insatisfação dos visitantes, até agora restrita aos bastidores, deverá ficar mais explícita. Apesar da tensão, o Comitê Organizador Local (COL) e a Fifa evitam dar qualquer sinal público de descontentamento ou apreensão com a segurança da competição.

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Nos comunicados e briefings diários com a imprensa, seus representantes nunca desviam do roteiro: defendem o direito democrático à manifestação pacífica, garantem confiar na capacidade das autoridades brasileiras e descartam fazer mudanças na organização das partidas em decorrência dos protestos. Ainda assim, a Fifa já fez chegar ao Palácio do Planalto o recado sobre a necessidade de reforçar a proteção ao evento e aos seus envolvidos, desde os auxiliares que fazem o torneio funcionar até os jornalistas, convidados, patrocinadores e, claro, as sete seleções estrangeiras que participam do torneio. Quatro delas se despedem do país já no fim de semana, com o encerramento da fase de grupos. Os jogos da semana que vem, no entanto, serão os de maior importância e repercussão: as semifinais, em Fortaleza e Belo Horizonte; a disputa pelo terceiro lugar, em Salvador; e a grande final, no Rio de Janeiro, no início da noite de domingo. Todas essas sedes tiveram protestos de grande porte – e em todas elas houve cenas de vandalismo em meio às manifestações. O presidente da Fifa, Joseph Blatter, não está no Brasil: na quinta, viajou rumo à Turquia, onde acontece o Mundial Sub-20. Seu retorno está previsto para o dia 26, em Belo Horizonte, que sediará, além de uma das semis, um seminário com palestra inaugural do cartola. Ele permaneceria no país até a final, no Maracanã, para entregar a taça aos campeões. Na estreia da competição, no último sábado, Blatter foi vaiado pelos torcedores enquanto discursava e apresentava a presidente Dilma Rousseff. Diante da evidente irritação da mandatária brasileira, o suíço cobrou do público respeito a Dilma e acabou provocando uma vaia ainda mais retumbante.

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Nas entrevistas e pronunciamentos no país, Blatter sempre se disse tranquilo com a situação, assegurando que não via riscos ao torneio e reclamando do uso do evento pelos manifestantes para atrair mais atenção às suas reivindicações. Também fez uma previsão desastrada, apostando na redução da escala dos protestos nos dias seguintes à abertura. Joseph Blatter e seus auxiliares só tomariam a decisão drástica de encerrar o torneio mais cedo caso a situação fugisse de vez ao controle do poder público ou se ocorressem atos de hostilidade ainda mais graves e contundentes contra qualquer envolvido na competição. Cancelar a Copa das Confederações por causa da violência confirmaria os piores temores dos críticos da realização do torneio no país – e, pior ainda, praticamente inviabilizaria a manutenção do Mundial no Brasil faltando menos de um ano para o jogo de abertura, em 12 de junho de 2014, em São Paulo (onde, aliás, começou a onda de manifestações). Blatter – que sempre ressalta que “foi o Brasil que pediu para receber a Copa, e não a Fifa que pediu ao Brasil para sediá-la” – teria mecanismos judiciais para recuperar os eventuais prejuízos decorrentes de uma mudança de país-sede. O compromisso firmado pelo Brasil ao se candidatar a palco da Copa de 2014 prevê o pagamento de multas multimilionárias à Fifa em caso de danos à imagem do torneio, constrangimento aos patrocinadores ou o próprio cancelamento do evento por motivos que escapem ao controle da entidade. Nesse cenário absolutamente desastroso, é difícil imaginar que a entidade, que já não conta com a simpatia de boa parte da população, ainda mandasse a conta ao país mais emblemático para o futebol internacional pelo fracasso de sua competição mais importante e rentável (a enorme maioria das receitas da Fifa é proveniente da organização do Mundial).

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