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“Eu acredito que posso ganhar a Indy 500 outra vez”

Hélio Castroneves, o vencedor da mais famosa prova do automobilismo mundial, conta como seus objetivos passam longe da aposentadoria

Por Sergio Figueiredo Atualizado em 23 set 2021, 19h02 - Publicado em 1 jul 2021, 16h16

Ao vencer pela quarta vez as 500 Milhas de Indianápolis, a mais renomada prova do automobilismo mundial, o paulista Hélio Castroneves entrou para uma elite da qual fazem parte somente mais três pilotos, todos americanos. Em entrevista a VEJA, Castroneves fala sobre a conquista da Indy 500, sua carreira, sua vida pessoal, como ganhou o apelido de Homem-Aranha, sua vitória no programa Dança dos Famosos nos Estados Unidos e como um erro de julgamento quase destruiu sua vida.

 

Você entrou para o panteão dos quatro únicos pilotos a vencer quatro vezes a Indy 500 e, além disso, é o único estrangeiro nesse seleto grupo, já que todos os demais são americanos. Como foi realizar esse feito?

Senti muito orgulho em estar representando meu país. Sonhava em levantar nossa bandeira em provas assim desde os tempos em que assistia às vitórias de Ayrton Senna pela TV. Sei que brasileiro tem predileção pela Fórmula 1, mas foi a Fórmula Indy que me deu a oportunidade de realizar esse sonho. Recebi muitas mensagens me felicitando pela conquista, o que é motivo de orgulho para mim. Moro nos Estados Unidos, mas minhas raízes estão no Brasil. E, como brasileiro, vencer as 500 Milhas de Indianápolis, uma prova centenária americana, foi absolutamente incrível.

 

A carreira no automobilismo começa cedo, geralmente no kart. Como foi sua trajetória?

Eu nasci em São Paulo, mas minha família se mudou para Ribeirão Preto quando eu tinha três anos de idade. Meu pai tinha uma empresa de tubos e conexões e usou a marca para patrocinar uma escuderia de Stock Car. Na verdade, foi aí que começou minha paixão pelo automobilismo, nos carros de Stock Car. Depois ganhei um kart, quando tinha 9 ou 10 anos, e comecei a participar de corridas de confraternização em Jaú, São Carlos e Ribeirão Preto. Comecei a competir em 1987 e ganhei o Campeonato Brasileiro de Kart em 1989.

 

Como era competir no kart?

Nem todo mundo sabe, mas o kart é a modalidade de entrada mais democrática do automobilismo, na qual você encontra pessoas das mais diferentes origens e classes sociais. Eu aprendi muito com ela. O kart me ajudou a ser a pessoa que sou hoje. Claro que, a partir dali, para avançar na carreira, eu contei com o “paitrocínio” [suporte financeiro do pai] e o apoio da minha irmã, que estudava em São Paulo e me ajudava a fazer contato com empresas que pudessem me patrocinar.

 

A sequência natural era a Fórmula 3, primeiro na América do Sul e depois na Europa, e você realmente seguiu nessa trajetória. Mas por que, depois disso, você optou pela Indy nos Estados Unidos em vez da Fórmula 1 europeia, mais conhecida no Brasil?

Sim, eu corri a Fórmula 3 britânica e até queria continuar na Europa, porém meu pai já havia me patrocinado além do que podia e não tinha mais de onde tirar. Foi quando surgiu uma oportunidade na Marlboro Brazilian Team para correr na Indy Lights, uma categoria americana que surgiu na década de 1990. A equipe da Marlboro já havia selecionado o argentino De Palma e o brasileiro Tony Kanaan, mas, como fui bem no teste, eles decidiram ter um terceiro carro. Foi aí que fui selecionado para as temporadas 1996 e 1997, e foi assim que começou minha história nos Estados Unidos.

 

Você fala de um aspecto do automobilismo que nem sempre é abordado abertamente. Quanto custava para manter um piloto iniciante em uma categoria como a Fórmula 3?

Para competir em uma categoria de entrada, hoje, as despesas ficam na casa de 300 a 400 mil dólares anuais. E para correr a Indy Lights, que seria o equivalente à Fórmula 3, a despesa pode ser superior a 1 milhão de dólares. Talvez a Fórmula 3 fosse um pouco mais acessível na minha época, algo em torno de 600 mil dólares. Mesmo assim, é muito para uma família. Se não tem apoio de empresa, fica muito difícil participar, a não ser que você seja rico.

 

Você ganhou o apelido de “Homem-Aranha” por causa de seu jeito incomum de celebrar a vitória, escalando o alambrado. Quando aconteceu pela primeira vez? Foi algo planejado?

Foi totalmente espontâneo. Começou quando ganhei o Grande Prêmio de Detroit em 2000. Na Fórmula Indy, todo piloto é previamente instruído a seguir um protocolo caso vença a corrida: ele deve ir para o winner circle, o “círculo do vencedor”, onde está a imprensa. Acontece que, quando eu cruzei a linha de chegada e vi a torcida ao lado gritando e me aplaudindo, eu parei o carro e corri, sem pensar, para comemorar com os espectadores, escalando o alambrado. Aí eu ganhei a Indy 500 de 2001 e 2002 e repeti o gesto. Na época, estava estreando o primeiro Homem-Aranha no cinema e o apelido pegou. O diretor até me mandou um pôster do filme me agradecendo e brincando comigo: “Obrigado por emprestar seu nome para o meu filme”.

 

Você não foi repreendido pelos organizadores da Indy?

Na verdade, eu fui multado em 10 mil dólares e cheguei a fazer um cheque, que foi rasgado em público pelo presidente da organização, até como uma forma simpática de marketing para a categoria. Nunca mais me multaram, mas o protocolo permanece.

 

E como foi repetir o gesto na vitória recente da Indy 500, agora com a volta do público? Foi reportado que 135 mil espectadores estavam no autódromo, número abaixo da capacidade de 250 mil, mas ainda assim expressivo.

Foi muito bacana. Correr sem público é como participar de um treino sem espectadores. O que torna a pista de Indianápolis mágica é o público. Quando subi o alambrado, eu estava de capacete e a uma boa distância das pessoas. Não acredito que poderia contaminar alguém ou ser contaminado nessas circunstâncias. Além disso, estão todos vacinados nas equipes. A Indy segue um protocolo rigoroso nas pistas. E foi um momento especial ver de perto o retorno dos torcedores.

 

Por vinte anos, você correu pela Penske, uma equipe vencedora, mas neste ano se mudou para a Meyer Shank, que nunca havia vencido uma prova da Indy. Ou seja, no primeiro ano em sua nova escuderia, você conquistou o maior dos grandes prêmios. Como reagiram os respectivos chefes de equipe?   

A Penske tem uma organização incrível. É uma gigante com 500 funcionários e esteve ligada à minha vida por duas décadas. No começo, eu achei que iria me aposentar na Penske, e creio que o dono da escuderia, Roger Penske, pensava da mesma forma. Eu já tenho 46 anos, mas muitos pilotos continuam competindo com mais de 45 anos de idade. Mario Andretti ainda corria com quase 60 anos.

 

A idade é um problema no automobilismo?

A equipe da Penske falava sobre minha aposentadoria e nunca tive problema de conversar sobre isso com Roger, com quem, inclusive, tenho negócios nos Estados Unidos – sou sócio dele em algumas concessionárias de veículos. Nós conversamos e concluímos que meu ciclo na equipe Penske tinha chegado ao fim. Eles contrataram um piloto australiano mais jovem, o que não é problema, pois se trata de uma renovação natural. Mas, por outro lado, eu não queria parar. Então, a escuderia Meyer Shank me procurou, mas eles também tinham dúvida se eu queria mesmo continuar na Indy. Precisei convencê-los do meu comprometimento e parece que consegui.

 

Roger Penske o cumprimentou pela vitória?

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Roger é muito profissional: a Penske Corporation é dona da Indy. No dia da vitória, ele me parabenizou, mas mandou eu dar atenção ao governador do estado. Nessas horas, ele é muito “business”. Já no dia seguinte, eu mandei uma mensagem e ele me ligou de volta. Ficou comigo no telefone por 17 minutos e 53 segundos. E eu digo o tempo exato porque nunca, em 20 anos de Penske, eu falei com ele mais do que cinco minutos. Roger é muito objetivo e rápido. Agradeci pela formação que recebi dele e da equipe Penske, que são como uma família para mim.

 

Você acredita que ainda existe chance de título para você na temporada da Indy deste ano?

O campeonato já está muito adiantado e eu assinei com a Shank para participar de apenas seis corridas, sendo que já fiz a primeira. Não há chance de eu fazer pontos o bastante para levar o título.

 

Com qual posição na tabela você ficaria satisfeito?

Quando eu venci a Indy 500, eu entrei na tabela na 14ª colocação e passei na frente de muita gente que está correndo desde o início da temporada. Então, até pedi para a equipe centrar esforços em mim para tentar ir mais longe. Mas é preciso entender a Shank. A Indy 500 foi a primeira vitória deles e a primeira corrida deles com dois carros. A equipe ainda está atônita com o que aconteceu. É por isso que, no ano que vem, eu pretendo me preparar para correr a temporada inteira desde o início.

 

A Indy 500 tem percurso de 800 quilômetros em um circuito oval no qual os carros ultrapassam a velocidade de 300 km/h. Qual o desgaste que um piloto profissional enfrenta em uma prova como essa?

O maior desgaste é nos membros superiores. Somos submetidos a 3Gs de força [três vezes a gravidade da Terra] no circuito oval, e tanto o pescoço quanto os ombros ficam doloridos após a corrida, como se fosse uma longa luta de boxe. Mas o maior desgaste é mental, pois temos que manter uma concentração absurda na pista, uma vez que passamos a altíssima velocidade a um palmo do muro e dos outros carros. Quando a corrida termina, a gente não sabe direito onde está.

 

Saindo da pista de corrida para a pista de dança: você venceu a temporada 2007 do programa Dancing with the Stars, conhecido no Brasil como Dança dos Famosos. O que foi aquilo? Você sempre gostou de dançar?

Eu estava indo para mais uma Indy 500, em 2007, quando Apolo Ohno, um patinador conhecido meu [velocista americano em pista curta de gelo, ganhador de diversas medalhas nos Jogos Olímpicos de Inverno], passou no meu box para me cumprimentar. Ele me contou que era mais famoso nos Estados Unidos pela participação no programa do que pelas medalhas de ouro, prata e bronze que havia conquistado. Ele disse que iria indicar meu nome para participar da temporada daquele ano. No começo não levei muito a sério, mas acabaram me chamando mesmo. Eu fui para as gravações pensando que sairia logo de cara, mas acabei ficando quatorze semanas.

 

Mas você venceu a competição. Já tinha tido aulas de dança de salão?

Nenhuma. Porém, minha irmã é bailarina e eu sempre acompanhei as apresentações dela. Mas ela evitou me dar dicas, pois achava que isso só atrapalharia a integração com Julianne Hough, minha parceira no programa. Julianne é muito profissional e me explicou que o segredo era mostrar evolução a cada etapa. Acho que ganhei porque também conquistei a simpatia do público. Quando me aposentar, se não tiver trabalho, posso dar aulas em cruzeiros [risos].

 

Tem se notado aqui no Brasil uma queda no interesse do público pelo automobilismo de forma geral. A Globo abriu mão da Fórmula 1, que passou para a Band, e diversas outras modalidades são ignoradas. A que você atribui isso?

Não ter um campeão brasileiro por quem o público possa torcer é um fator importante. Acho também que existe uma oferta de conteúdo geral muito maior do que havia nos tempos de Fittipaldi, Piquet e Senna. Houve uma pequena queda de interesse também nos Estados Unidos, ainda que a última Indy 500 tenha batido recorde de audiência por aqui.

 

Existe alguma possibilidade de a prova Indy 300 voltar a ser disputada no Brasil, como foi entre 2010 e 2013?

Acho que sim, principalmente se surgir uma nova geração de pilotos brasileiros na Fórmula Indy. Sei da predileção do brasileiro pela Fórmula 1, mas acho a Indy mais dinâmica e imprevisível. Minha equipe jamais havia ganhado uma prova de Fórmula Indy e foi vencer pela primeira vez justamente a mais importante. Estamos em uma modalidade do automobilismo em que o mais fraco tem chance de vencer o mais forte, em que David consegue derrubar Golias.

 

Um assunto mais delicado: você teve um problema com o fisco americano em 2008 e chegou a ser algemado e ficar preso por um dia, alegadamente por evasão fiscal. No ano seguinte, você foi inocentado de todas as acusações, mas imagino que tenha sido um momento traumatizante. O que exatamente aconteceu?

Nunca tive a intenção de cometer nenhum ilícito e não cometi. Contratei especialistas para cuidar da minha vida financeira e não dava muita atenção a ela, pois tinha que correr e me concentrar em minha carreira como piloto. Eu não só contratei advogados e contadores para cuidar das minhas finanças, como tratei de procurar os melhores. O fisco me acusou de fraude sem eu fazer a menor ideia do que se tratava. O caso foi levado à corte, que me inocentou, e eu ainda conseguir corre a Indy 500 de 2009 e vencer a prova. Mas todo o caso foi muito difícil para mim e para minha família. Eu evitava, inclusive, ler notícias do Brasil, pois alguns veículos assumiam o lado do fisco americano sem fazer a menor ideia do que se tratava. Mas meu pai lia as notícias e ficava muito magoado porque me conhece e porque sabia que eu jamais faria algo de errado. A partir daí, aprendi a lição. Acompanho de perto o que fazem com meu dinheiro e como ele é investido.

 

Você fixou residência em Miami. É casado?

Moro em Miami e tenho uma companheira de 12 anos, Adriana. Ela é colombiana. Tenho uma filha com ela, Mikaella, que está com 11 anos. Felizmente, parece que minha filha não gosta de corridas [risos].

 

Você sonha em vencer a Indy 500 pela quinta vez, tornando-se o único corredor da história a realizar tal feito?

Mas claro. A gente tem que sonhar grande. Demorou doze anos para eu voltar a ganhar as 500 Milhas. Ninguém mais acreditava, mas eu, sim. E acredito que posso conseguir outra vez.

 

Mas a hora de parar um dia vai chegar. E daí?

Quando a chama estiver apagando, eu serei o primeiro a dizer que acabou. Ninguém precisará me lembrar disso. Quando parar, pretendo expandir meu negócio de concessionárias nos Estados Unidos. Gostaria de correr também na Stock Car, no Brasil, inclusive com meus velhos companheiros da Indy.

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