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Coleção de livros analisa os 150 anos do futebol

Textos do jornalista José Eduardo de Carvalho retratam a modalidade mais popular do planeta. Entre os temas, geopolítica e dinheiro

Por Da Redação Atualizado em 7 out 2021, 16h48 - Publicado em 19 mar 2013, 07h49

A Editora Sesi-SP lança nesta terça-feira os três primeiros volumes de uma coleção com cinco livretos (19 reais cada) que homenageiam os 150 anos de existência do futebol. De autoria do jornalista José Eduardo de Carvalho, os textos foram divididos em cinco temas – O Jogo, Geopolítica, Dinheiro, Gente e Fantasia – e traçam, segundo o autor, um panorama da evolução do futebol desde a prática rústica dos tempos da Revolução Industrial até o sofisticado padrão de mercado da era digital, passando pela invasão do Brasil na passagem para o século XX. A modalidade se tornou a mais popular do planeta, com mais de 4 bilhões de seguidores em todos os continentes.

Coleção '150 anos de futebol', de José Eduardo de Carvalho
Coleção ‘150 anos de futebol’, de José Eduardo de Carvalho VEJA

O Jogo fala das origens do esporte, de sua rápida adoção pelos trabalhadores, da unificação das regras e das características táticas e estéticas construídas ao longo do século XX. Em Geopolítica, é demonstrado como as particularidades técnicas do futebol foram se moldando aos povos que o praticavam, sua exploração política e ideológica, a formação dos estilos nacionais e os efeitos dos grandes acontecimentos do século em seu desenvolvimento até a era da globalização. O livreto Dinheiro revela como o futebol se tornou uma das mais rentáveis pontas de lança no mercado financeiro, do alto de seu PIB que, caso se tratasse de um país, estaria entre as 15 maiores economias do mundo. Os dois últimos volumes, Gente e Fantasia, mostrarão os tipos humanos que compõem o futebol.

Trechos de ‘O Jogo’

“A mera elaboração de um conjunto de normas por um grupo de ingleses não era garantia imediata de que, em outros países, a popularização do futebol ocorresse de maneira linear, como nas escolas e fábricas britânicas. A fragmentação no processo de internacionalização do futebol criou réplicas híbridas da modalidade mesmo em certas regiões da Europa. Algumas áreas na Itália adotaram o futebol com 15 jogadores de cada lado. No gigantesco território russo, o esporte continuou a ser praticado por algum tempo com elementos do rúgbi, privilegiando os choques e agarrões, sem qualquer interferência da arbitragem. Por algumas décadas, a difusão das regras se fez lentamente, até porque a própria matriz criada pelos ingleses sofreu modificações e adaptações até meados dos anos de 1920. A dinâmica na elaboração das regras e sua conturbada proliferação geraram, de forma indireta, os primeiros estilos nacionais de futebol, vinculados às maneiras como o jogo foi se desenvolvendo em cada país, mas obviamente não impediu que a prática se alastrasse. Nem mesmo a criação da Fifa, organismo oficial constituído para normatizar regras e campeonatos a partir de 1904, foi suficiente para estancar esse processo contínuo de mudança e aperfeiçoamento. A centralização em uma entidade internacional dos princípios técnicos do novo esporte também demorou a ser aceita por muitos países. Mas era só questão de tempo. Reconhecido como jogo, aceito com esporte de competição, o futebol já caminhava para se transformar em uma instituição.”

“Nenhum dos personagens centrais do jogo tem uma força simbólica tão dilacerante quanto o árbitro. O homem da lei dentro de campo é, em princípio, a negação de tudo, o não-futebol. Embora sua atribuição primeira seja o empenho pela justiça, pelo equilíbrio e pelos direitos iguais dos concorrentes, o poder de que é investido representa uma afronta às virtudes democráticas que estão na essência do jogo. O árbitro é jurado e juiz ao mesmo tempo, é promotor e advogado de defesa, é delegado e escrivão. Detém todas as ferramentas punitivas, pode desmentir o que milhares estão vendo e mesmo entre seus pares – os bandeirinhas, chamados singelamente de auxiliares – tem a liberdade de transgredir. Sua palavra é a última das últimas e a sinalização de um bandeirinha pode ser desmoralizada publicamente se o árbitro não concordar com a decisão. É dele o apito que, cruelmente, aponta um pênalti que não existiu ou valida um gol irregular. Seu poder de veto é ilimitado, não pode ser punido, não pode ser expulso, no máximo é ofendido e vaiado. Seu controle da cena é de tal forma incontestável que até mesmo o último suspiro depende dele. Embora todos os relógios do estádio lotado indiquem que o jogo acabou, a disputa se prolongará até que o árbitro decida se manifestar. Não basta ser o dono do espaço, das linhas e da moral do jogo. Ele também é o dono do tempo.”

Trecho de ‘Dinheiro’

“Há uma lógica afetiva no processo que movimenta fortunas nesse esporte. A identificação do torcedor com um clube leva imediatamente à adesão, que por sua vez promove a fidelidade e o comprometimento, uma incontrolável sensação de cumplicidade. Daí para o consumo, é um passo. Trata-se do consumidor idealizado por quem quer que produza algum bem a ser comercializado: fiel, emocional, multiplicador e que, além de tudo, finca raízes. Mas esses aficionados buscas de fato apenas produtos que os mantenham conectados com seu patrimônio afetivo – o time do coração – ou querem algo maior, não necessariamente material, que amplie e conserve esses laços? No futebol, como veremos adiante, há espaço para as duas formas: o torcedor consciente mas frugal, que tem personalidade e entende do assunto, mas apenas consome, e o torcedor sanguíneo, carnal, que vai além. São eles que definem o ‘futebol de mercado’ e o ‘futebol essencial’, sendo que o primeiro – ricamente embalado e poderoso -, não vive sem o segundo – pobre, primitivo e espontâneo. No braço mercadológico do futebol, tudo funciona como uma máquina de consumo emocional.”

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