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Verissimo: relatório de um turista às vésperas da Copa de 1982

Na Europa sentia-se a ansiedade com o mesmo interesse fanático dos brasileiros. Mesmo nos EUA, tão alheios ao futebol, havia atenção

Por Da redação Atualizado em 14 jun 2022, 09h09 - Publicado em 13 jun 2022, 23h16
Luís Fernando Veríssimo, em 1982
Luís Fernando Verissimo, em 1982 ADOLFO GERCHMANN/Placar

Há exatos 40 anos, em 13 de junho de 1982, teve início a Copa do Mundo da Espanha. PLACAR viveu todas as emoções daquele Mundial, da alegria com os golaços nos quatro primeiros jogos à decepção com a eliminação diante da Itália de Paolo Rossi. Em 4 de junho daquele ano, a revista teve o privilégio de contar com uma crônica de Luis Fernando Veríssimo. Um dos mais respeitados cronistas brasileiros, e conhecedor de futebol, ele contou as expectativas para o torneio, em um texto transcrito na íntegra na edição de junho de PLACAR, já disponível em dispositivos digitais iOS e Android, e nas bancas de todo o país. Leia, abaixo:

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RELATÓRIO DE UM TURISTA

Havia um soldado com metralhadora ao lado do avião quando descemos em Istambul. Mais soldados com toda a parafernália de guerra espalhados pela pista. A ala de desembarque do aeroporto é um galpão sombrio. Os policiais em serviço eram homens sombrios. Apresentei nossos passaportes com um mau pressentimento. Não falo turco e o policial não parecia disposto a falar qualquer outra língua que nos aproximasse. Vi tudo. Um mal entendido e acabaríamos na prisão pelo resto da vida. Ou tentaríamos fugir, em pânico, e seríamos metralhados sem dó. “Visa”, disse o policial, entre outras palavras indecifráveis.

Fiz aquela cara internacional de “sei lá”. Não tinha visa. Não sabia que precisava. Sorri para me desculpar. Ele não aceitou as desculpas. Falou mais alguma coisa em sua língua infernal. Sempre de cara fechada. “Turista”, disse eu, querendo dizer “inofensivo” ou “débil mental”. Não adiantou. Precisava de visa. Ou então — me explicou uma providencial funcionária do aeroporto em inglês, enfim uma língua cristã — teria de pagar 10 dólares. Fui trocar dinheiro e deixei minha mulher, como garantia, cercada por turcos mal-encarados (redigi, mentalmente, o telegrama que mandaria para casa: “Mamãe vendida ao sultão. Segue carta”). Depois, a Lúcia me contou que um dos policiais apontou para ela e perguntou, sério: “Argentina?”. Ao ser informado de que era brasileira, deu um sorriso, controlou uma bola imaginária com o pé, e exclamou “Pelé”.

Estávamos num país amigo. Em todos os lugares em que andamos o futebol seria, se quiséssemos, uma linguagem comum com motoristas de táxi, vizinhos de mesa ou gente de rua. Sente-se a expectativa com a Copa do Mundo com quase a mesma intensidade que há no Brasil em toda a Europa. Em Roma cheguei a participar, como terceiro coadjuvante, de um importante episódio da história contemporânea. Estava com o Araújo Netto quando ele tentava se comunicar com o Falcão para transmitir um recado do Giulite Coutinho para o Roma sobre a liberação do jogador. Grande emoção.

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Cheguei a Paris um dia depois da seleção do Peru ter derrotado a da França num amistoso, deixando os franceses mais irritados do que de costume. Mas eles parecem confiar na seleção de Platini, Six e os outros. E senti, por leituras rápidas e frases entreouvidas, que há muito respeito pela Bélgica. Cuidado com os belgas, portanto. É a única contribuição, de informante não muito atento, que possa dar. Ninguém sabe menos do lugar onde esteve do que o turista.

Na Inglaterra, impressiona o número de publicações sobre a Copa. Livros, revistas especiais, álbuns, folhetos coloridos, tudo alimentando o que parece ser um interesse voraz pelo futebol em geral e pelas finais na Espanha em particular. Os ingleses se parecem com os americanos no modo como cultivam as idiossincrasias — esportes que só eles e seus imitadores entendem, como o aborrecido críquete — que os mantêm à parte do resto do mundo. O futebol é um dos poucos campos em que aquela estranha ilha se integra com os outros. Pena que a crise das Malvinas (não sei se a esta altura não são Falklands, de novo) ameace a participação dos ingleses na Copa. A frustração lá será quase tão grande quanto seria para o torcedor brasileiro uma desistência do Brasil na última hora.

Até nos Estados Unidos existe expectativa. A maciça emigração de hispânicos está forçando também os americanos a reconhecer que o resto do mundo não só existe como até tem uns esportes interessantes. Peguei um táxi em Nova York no dia em que se confirmou que os ingleses invadiriam as Malvinas. O rádio do táxi dava a notícia. “Eles vão ter uma surpresa”, me disse o motorista num inglês decididamente portenho. Saíra da Argentina aos 17 anos. Nossa conversa evoluiu, rapidamente, da duvidosa ascendência da senhora Thatcher para o futebol. Ele não tinha esperanças na Argentina. Achava que o Brasil era favorito. Também falou na Bélgica. Citou a Áustria e a Polônia. Perguntei como ele se mantinha tão bem informado.

Ele me mandou dar uma espiada no banco da frente do táxi, a seu lado. Estava coberto de revistas esportivas. A maioria em espanhol, mas também havia a PLACAR. Me fez perguntas. Mais aí o rádio começou a falar nas Malvinas e ficamos quietos. Desgraçadamente, havia as Malvinas. Em suma: a Itália não acredita na sua seleção, os franceses acreditam, os turcos eu não sei o que pensam, temem-se os belgas e o Brasil é o favorito. Pelo menos em Nova York.

Texto publicado na edição de junho de 2022 de PLACAR

Edição de junho de 2022 de PLACAR: uma homenagem à seleção de 1982
Edição de junho de 2022 de PLACAR: uma homenagem à seleção de 1982 PLACAR/Reprodução
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