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‘Menino da capa’ relembra a Tragédia do Sarriá, 40 anos depois

O advogado José Carlos Vilella Júnior, hoje com 50 anos, conta o que sente ao rever a imagem do fotógrafo Reginaldo Manente para o 'Jornal da Tarde'

Por Da redação 5 jul 2022, 09h57
O advogado José Carlos Vilela Júnior, hoje com 50 anos,
Antes e depois: a capa histórica e o advogado José Carlos Vilela Júnior, hoje com 50 anos PLACAR/Reprodução

Texto publicado na edição impressa de junho de 2022 de PLACAR

Não há como ver a foto do menino de 10 anos recém-completados, em prantos, sem lembrar do conhecido aforismo do poeta inglês William
Wordsworth, que depois Machado de Assis citaria em Memórias Póstumas de Brás Cubas: “O menino é o pai do homem”. Eu, um homem de 50 anos, advogado, olho para o garoto com a camisa da seleção e sinto uma dupla sensação: de nostalgia trágica e de orgulho. A nostalgia, associada à derrota, me remete ao futebol nos anos 1980, de alguma ingenuidade e amor ao esporte sem as amarras comerciais e imposições financeiras de hoje.

O orgulho brota de uma percepção individual, mas que imagino ser possível transferir para a sociedade: a relevância e beleza daquele momento. É sinônimo de fracasso, sim, mas também de como devemos enfrentá- lo, de coração aberto e sinceridade. É o retrato de um país que, em 1982, debruçado sobre o futebol, sonhava em dar adeus à ditadura militar, e terminou em lágrimas, depois daqueles três gols de Paolo Rossi.

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Só um adulto poderia, quarenta anos depois, refletir com maturidade em torno daquele episódio — mas, pensando bem, não seria exagero dizer que o José Carlos menino intuía, de algum modo, o que acontecia no Sarriá. Pode soar inverossímil, mas não é: passadas quatro décadas, tenho lembranças perfeitas daquela tarde em Barcelona. É como se fosse aqui e agora.

Lembro-me do ambiente no local, do estádio, do momento, do meu sentimento, de tudo. Eu era um pré-adolescente sentimental, sensível. Muito protegido por minha mãe, Vânia, desde pequeno, mimado mesmo. Filho único — minha irmã mais nova, Amanda, crescia na barriga da mamãe, lá junto com a gente. Eu estava de luto, emocionado, inconsolável, não apenas pela eliminação contra a Itália, mas por saber que nunca mais poderia ver aquele espetáculo novamente, aquela seleção, aqueles jogadores.

Era o fim, e todo fim é triste. Despedia-me de um tempo de vida — talvez seja isso, em resumo, o que a foto revela. Apareço sem fôlego, de tanto chorar. Chorava antes mesmo de o jogo acabar, encostado no alambrado logo abaixo da tribuna de honra onde estávamos. Tenho o peito estufado porque buscava um pouco de ar, que não vinha de jeito nenhum.

Demoramos bastante até sair das cadeiras onde nos sentávamos. As lágrimas continuaram ainda nas instalações internas do camarote. Era consolado pela minha mãe e por outras pessoas sensíveis ante aquela visão de tristeza profunda. Bonitas recepcionistas espanholas, lembro bem, tentaram me ajudar. Mas não adiantava. O sofrimento não passava.  A ponto de meu pai, sério e vaidoso, um homem de seu tempo, ter brigado comigo por não parar de chorar.

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Acompanhei a Copa desde o início, junto com um grupo de amigos do meu pai, José Carlos Vilella, advogado do Fluminense, pejorativamente conhecido como “o rei do tapetão”, porque nunca perdera uma causa. Nos puseram em um setor nobre, ao lado de autoridades. Logo abaixo ficava o setor de imprensa, com repórteres e fotógrafos. Antes mesmo do início da partida já havia percebido as câmeras de fotografia apontadas para nossa direção — e sobretudo para minha mãe, ex-miss, uma mulher muito bonita.

Não havia sensação melhor: era uma Copa do Mundo, instante único, de genuína euforia para um garoto que tinha completado 10 anos logo depois da vitória sobre a Escócia. Estava no Olimpo. E então veio o pesadelo. Doído, mas que hoje identifico como marco de transição pessoal, da meninice para a adolescência, e do Brasil, da repressão para a democracia. Aquela foto — que só vim a saber que fora capa do Jornal da Tarde, no lindo registro de Reginaldo Manente, quatro anos mais tarde, porque morava no Rio de Janeiro — é o retrato mais relevante de toda a minha vida. E o que poderia ser o símbolo de um história com final infeliz ganhou outra conotação: a esperança de dias melhores.

Éramos felizes e não sabíamos. Felizes pela qualidade daquele escrete. Felizes porque o Brasil, apesar de tudo, apesar da permanente desigualdade, caminhava para virar a página da ditadura. É história que me comove, que relembro sempre para meus filhos, e autoriza uma certeza: o menino é mesmo o pai do homem.”

O INSTANTE CERTO

O contato com a sériede cliques: retoquena maquiagem damãe abalada comas lágrimas do filho
O contato com a série de cliques: retoque na maquiagem da mãe abalada com as lágrimas do filho REGINALDO MANENTE/Arquivo pessoal

A primeira câmera digital chegou às lojas em 1988 — durante a Copa do Mundo de 1982, portanto os repórteres fotográficos trabalhavam com aparelhos analógicos, ainda um tanto pesados, grandalhões, e com rolos de negativos. O processo de transmissão de imagens da Espanha para as redações de jornais e revistas era uma aventura romântica. Inicialmente, revelavam-se os filmes e, a partir dos negativos, tratava-se de imprimir o que se chamava de contato — os registros pequenos, do tamanho de um retrato 3 por 4, em sequência, um colado ao outro, a partir do qual se escolhiam os melhores cliques.

A foto eleita era então ampliada e levada a uma traquitana chamada telefoto. O aparelho — de zunido eletrônico característico, alto e irritante — enviava as imagens por meio de linha telefônica. Era batata: se por trás de portas de quartos de hotel houvesse o incômodo barulho madrugada adentro, era certo que havia ali um profissional enviando seu trabalho para a sede. O fotógrafo Reginaldo Manente, que trabalhava para o Estadão e o Jornal da Tarde, de São Paulo, estava abaixo da tribuna de honra do Sarriá naquele 5 de julho.

Quando o israelense Abraham Klein encerrou a partida, Manente apontou sua Nikon de lente curta para a carioca Vânia Pinto Padilha Vilella Rabello, que chorava copiosamente, borrando a maquiagem. Ela relembra: “Estava triste com meu filho, o Júnior, agoniado, tentando segurar o choro. Mas aí ele também caiu em prantos. Eu disse: ‘Calma, tem outro jogo ainda”, atrapalhada com a tabela, nervosa. ‘Tem nada, acabou’, ele me disse”.
Manente fez dez ou quinze chapas.

“Tive sorte, o lugar estava à sombra, com pouca luz”, diz. “Fosse naquele sol forte, não teria o efeito que teve, perfeito equilíbrio de tonalidades.” Ao chegar ao hotel, o chefe da cobertura, Roberto Avallone, quis logo saber dele: “Fez torcida?”. No quarto, ao lado do companheiro de trabalho, Alfredo Rizzutti, Manente revelou o filme. Fez o contato e circulou com um marcador a chapa que lhe parecia mais interessante. “Acho que tenho uma boa foto”, disse ao amigo. “Fotos boas sempre temos”, ouviu como resposta. Manente voltou a insistir, pediu atenção, ao que Rizzutti aquiesceu. “Caramba, é boa mesmo.” Foi dar na capa do JT, com a data da tragédia à guisa de legenda.

O repórter Vital Bataglia, que também estava em Barcelona, ao ver a fotografia mais tarde, começou a chorar como o menino, uma, duas, três vezes. Manente enviou aquele único clique para ser publicado — e guardou um tesouro, a série que mostra os segundos exatamente anteriores e posteriores ao instante certo. É possível que a imagem da mãe do menino retocando a maquiagem também gerasse comoção.

Edição de junho de 2022 de PLACAR: uma homenagem à seleção de 1982
Edição de junho de 2022 de PLACAR: uma homenagem à seleção de 1982 PLACAR/Reprodução
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