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Quatro gênios da bola numa mesa de bar

Em 1980, PLACAR reuniu Falcão, Reinaldo, Zico e Sócrates para uma conversa franca sobre as angústias e os anseios dos jogadores, dentro e fora de campo

Por Da redação Atualizado em 16 dez 2021, 08h54 - Publicado em 16 dez 2021, 09h00

No início de junho, o mundo do futebol viveu dias agitados. Assim que a CBF anunciou o Brasil como sede da Copa América, em substituição à Colômbia (que desistira em decorrência dos protestos contra o governo) e à Argentina (que jogou a toalha por causa do aumento de casos e de mortes provocadas pela pandemia de Covid-19), os jogadores da seleção brasileira ensaiaram não disputar o torneio, incomodados com a
decisão açodada. Concentrados em Porto Alegre para o jogo contra o Equador, pelas eliminatórias da Copa de 2022, eles evitaram aparecer para entrevistas. Muita gente se alvoroçou. De um lado, a turma que acha que futebol e política não se misturam. De outro, a óbvia constatação de que a atitude dos craques tinha, claramente, motivações políticas. Longas discussões se seguiram, tentando antecipar o conteúdo do surpreendente protesto.

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Como diz o ditado, a montanha pariu um rato. Na semana seguinte, depois de derrotar o Paraguai por 2 a 0 em Assunção, vários atletas publicaram, em suas redes sociais, um manifesto que, resumidamente, não explicava nada. A ameaça de não jogar não se concretizou — “Temos uma missão a cumprir com a histórica camisa verde e amarela pentacampeã do mundo”. E, sem citar uma única vez as palavras pandemia, vírus, Covid-19 e mortes, o texto se limitava a uma crítica sem consequência prática alguma: “Estamos insatisfeitos com a condução da Copa América pela Conmebol” e “Somos contra a organização da Copa América, mas nunca diremos não à seleção brasileira”. E ficou por isso mesmo. O que poderia culminar em postura histórica, na linha do que fazem os jogadores da NBA e Lewis Hamilton ao gritar contra o racismo, porque vidas negras importam, terminou como nota de pé de página. Ao fim da partida, o resultado: os atletas da canarinho preferiram entrar
em campo como se o Brasil andasse em plena normalidade.

Na capa e nas páginas de PLACAR em abril de 1980: o quarteto tratando seriamente do que acontecia nos gramados e nos bastidores
Na capa e nas páginas de PLACAR em abril de 1980: o quarteto tratando seriamente do que acontecia nos gramados e nos bastidores PLACAR/Reprodução

Não se trata de exigir de profissionais da bola que subam em palanques — mas é inegável que o esporte e o cotidiano dão as mãos, e apartá-las nem sempre é bom. Nas páginas de PLACAR, a interseção entre futebol e política sempre esteve presente. Em 1970, ano de lançamento da revista, diversas reportagens foram publicadas sobre a interferência da ditadura militar na comissão técnica que se preparava para a Copa do Mundo do México. Mais tarde, houve grande apoio ao movimento Democracia Corinthiana, no início dos anos 1980. E inúmeros craques apareceram nas páginas falando sobre a importância de os atletas se unirem (em sindicatos, por exemplo) e também sobre as grandes questões sociais do país.

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Foi assim em abril de 1980, quando os quatro maiores jogadores em atividade nos gramados brasileiros apareceram abraçados na capa de PLACAR, vestidos com a camisa de seus clubes. Falcão, do Inter; Reinaldo, do Atlético-MG; Zico, do Flamengo; e Sócrates, do Corinthians; eram “4 gênios no jogo da verdade”. Nas páginas internas, fotografados numa mesa de bar, eles “discutem sua profissão, suas inquietações, seus grilos e suas necessidades”. Depois de reclamar da violência em campo, o quarteto começou o debate sobre as condições de trabalho dos atletas. “Nós, brasileiros, ainda precisamos aprender muita coisa em termos profissionais. O problema é a desunião dos jogadores”, disparou Sócrates. “Só somos alertados
pelos dirigentes para os deveres sem jamais falar em direitos. É um verdadeiro comando fascista, ou melhor, neofascista”, acrescentou
Reinaldo.

Segundo o atacante do Galo, era um absurdo, já naquela época, o Campeonato Brasileiro ser organizado sem a participação de nenhum boleiro. “Somos apenas notificados das frias decisões de gabinete.” Zico e Falcão seguiram na mesma linha. “Jogador é mercadoria ao bel-prazer do grupo dirigente”, afirmou o Galinho de Quintino. “E a rotina de jogos? Não há intervalo racional entre uma partida e outra. O Inter neste mês entra onze vezes em campo, fora o tempo de viagens”, completou o eterno camisa 5 colorado. “Servimos como descarga social e sofremos muito com isso. A massa já chega aos estádios com suas frustrações e, ao jogar mal um dia, somos vaiados e xingados. O povão nos vê como esperança de alegria e, se falhamos, isso soa como traição.”

Aspas ZicoNas palavras de Reinaldo, a melhor solução seria “construir um sindicato forte”. O craque atleticano reconhecia, porém, que faltava unidade ao grupo. Zico lembrou de simpósios que ele ajudou a organizar, no Rio e em Porto Alegre, “que tiveram comparecimento quase nulo”. Como destacou Falcão na conversa, diversos pedidos dos atletas já tinham sido levados ao governo federal, “mas na hora H o ministro (Murilo Macedo) pega o listão e só negocia cinco pontos”. Ao que Sócrates emendou: “Essa geração tem medo de participar, tem medo da barra dos últimos anos” (a ditadura só terminaria em 1985, com a eleição indireta de Tancredo Neves para a Presidência). A desorganização dos clubes e das federações também entrou na roda. “O futebol precisa se tornar mais sério, os dirigentes que cometem crimes precisam ser presos”, defendeu Zico. Por fim, todos se manifestaram sobre a necessidade de estudar mais, para ser um profissional (e um ser humano) melhor.

“O jogador, para os dirigentes, nasceu para ser burro, receber ordens, ser manipulado. Sem estudo, como analisar os direitos?”, questionou o Galinho. “Nosso contrato garante o direito de estudar, ir às aulas, fazer provas — mesmo em dia de treino ou de jogo. Nós quatro fazemos isso e nada acontece. Mas o garoto que está começando não vai à escola por medo de perder a vaga, de ser mandado embora. A direção coage a meninada de todas as formas”, completou Reinaldo. Eles fazem falta. Dentro de campo, evidentemente, porque eram gênios — mas também fora dele, permanentemente atentos a suas dimensões populares. Entregavam pão e circo, quanto pão, quanto circo, mas sabiam onde estavam e o poder que tinham de iluminar temas cascudos. É sempre complicado enxergar o passado no condicional, mas parece haver uma certeza: a Copa América da pandemia Falcão, Reinaldo, Zico e Sócrates não disputariam.

Matéria publicada na seção ‘Prorrogação’ da edição impressa 1477 de PLACAR, de julho de 2021 

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