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Quando Vagner, a sensação do Palmeiras na Copinha, virou ‘Love’

Destaque na campanha do vice-campeonato em 2003, o "artilheiro do amor" brilhou em entrevistas e ensaios para PLACAR naquele ano

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 20 jan 2022, 15h04 - Publicado em 20 jan 2022, 14h56

O Palmeiras segue firme em busca de seu primeiro título da Copa São Paulo de Futebol Júnior. Classificado à semifinal, na qual enfrentará o São Paulo, o Verdão bateu duas vezes na trave, nas finais de 1970 e 2003. Se hoje o destaque da equipe é Endrick, de apenas 15 anos, a última boa campanha ficou marcada pela ascensão de outro atacante ágil e habilidoso: Vagner “Love”, apelido que recebeu justamente durante aquela Copinha, vencida pelo Santo André, ao ser flagrado com uma mulher na concentração.

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O sucesso foi imediato. Eleito o melhor jogador da Copinha de 2003, Love foi rapidamente promovido ao elenco profissional que disputaria a Série B e estampou duas grandes reportagens em PLACAR, uma delas de capa, e ambas com direito a divertidos ensaios fotográficos de Alexandre Battibugli.

Então com 19 anos, ainda carequinha, bem diferente do visual trançado com que se destacaria na Rússia, na volta ao próprio Palmeiras e no Flamengo, Love segurou um coração para a foto de capa da edição de setembro de 2003. A reportagem escrita por Daniel Tozzi destacou que “antes mesmo de ser profissional, ele pôs a carreira em risco ao tentar ‘se dar bem’, no estilo do ídolo Romário. Salvou-se, mas não sem antes ganhar o apelido que irá carregar pelo resto da vida.”

A segunda reportagem, intitulada “O limite da fama” e escrita por Mauro Beting na edição de fevereiro de 2004, destacava não apenas Love mas também Diego Souza e Edmílson, outras duas revelações da base e vice-campeões da Copinha.

Relembre abaixo, na íntegra, o conteúdo das reportagens com a revelação palestrina de quase duas décadas atrás.

Só love

Por Daniel Tozzi

Antes mesmo de ser profissional, ele pôs a carreira em risco ao tentar “se dar bem”, no estilo do ídolo Romário. Salvou-se, mas não sem antes ganhar o apelido que irá carregar pelo resto da vida. Hoje, por cima, Vágner tem a missão de marcar os gols que podem devolver ao Palmeiras a aura perdida

O que tem o Vágner?”, disse um desconfiado Fernando Gonçalves, diretor de futebol do Palmeiras, ao saber do interesse da Placar em saber sua opinião sobre a principal aposta do clube para voltar à elite do futebol brasileiro. O zelo do dirigente, no entanto, se justifica. Com apenas 19 anos, esse jovem que cresceu em Bangu, no Rio de Janeiro, e chegou ao Parque Antártica em março de 2001, conseguiu catalisar como poucos a esperança e a decepção que marcam os dias mais cinzentos da história do Palmeiras. Sim, porque, se hoje o camisa 9 é um dos principais trunfos do técnico Jair Picerni para devolver o time à Série A, é bem verdade que algumas mancadas por pouco não abreviaram a carreira de Vágner Silva Nascimento.

Afinal, mais que gols ou boas atuações, foi o flagrante na Copa São Paulo de Juniores em janeiro deste ano ” quando fora descoberto com uma mulher na concentração na véspera de um jogo decisivo “, que levou às manchetes esportivas não o garoto promissor que se tornara no ano passado, com 32 gols, o maior artilheiro da história do Campeonato Paulista da categoria, mas sim mais um candidato à craque-problema. Em poucos meses, o jovem atacante saiu do anonimato para atender por Vágner Love, o “Artilheiro do Amor”. Agora, com o Palmeiras respirando um pouco melhor graças aos seus gols, Vágner quer mostrar que é capaz de, mesmo na Segundona, atingir o estrelato recorrendo apenas às suas atuações ” em campo, fique bem entendido.

“Não me incomodo com esse rótulo”, diz o jogador, que nega ser um namorador de mão cheia. “Quero ser reconhecido pelo que faço dentro de campo, e não por um erro grave que cometi fora dele”

Mas, apesar da ascensão, Vágner ainda está muito mais para “Love” que para artilheiro confiável. “Mas não me incomodo com esse rótulo”, diz o jogador, que nega ser um namorador de mão cheia. “No Rio, tive apenas uma namorada, quando tinha 15 anos.” Na realidade, Vágner pouco ” ou melhor, nada ” faz para que imprensa e torcida parem de se referir a ele dessa maneira, mesmo após o clube ter-se mostrado contra a idéia. “Já disse a ele que isso tem que acabar”, afirma Gonçalves. Mas o artilheiro reconhece que seus gols, sozinhos, não lhe dariam o espaço que tem hoje na mídia.

“O episódio em São José dos Campos (sede do grupo do Palmeiras na Copa São Paulo) me ajudou (a aparecer), mas quero ser reconhecido pelo que faço dentro de campo, e não por um erro grave que cometi fora dele”, diz, para em seguida, admitir que ser “Love” tem lá suas vantagens. “Já que estão me chamando assim, vamos deixar do jeito que está”, afirma. Ele revela que a fama de Don Juan não lhe facilitou as coisas com as mulheres. “Até agora não melhorou nada. Prefiro mesmo ser “matador” dentro de campo, o que é bem mais difícil”, diz o jogador que chegou a liderar a artilharia da Série B.

Olhos abertos
O fato é que Vágner, embora tenha adotado o apelido, já toma cuidado com os aspectos negativos do mesmo. Ele diz não ter mais espaço em sua vida para aventuras ousadas e jura que até mesmo musas típicas dos boleiros, como as Scheilas do Tchan, não habitam mais sequer sua imaginação. “Nota dez só para minha irmã Vânia”, diz, aos risos, sobre a beldade da família, destaque nos desfiles da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel. A mãe de Vágner, dona Jaira, confirma que, ao menos sob sua supervisão, o filho nunca mostrou ser dos mais saidinhos.

“Pelo que sei, ele namorou firme apenas uma vez, e mesmo assim somente por alguns meses”, diz. Jaira até vê graça no apelido. “Acho Vágner Love um apelido bonito, embora não aprove o que fez”, afirma a mãe, que garante ter alertado a cria sobre o perigo das “Marias-chuteiras”. “Foi o que mais falei para ele”, diz, já enquadrando a moça flagrada com Vágner na infame categoria. Ele não se importa. “Eu a conheci em São Paulo e levei para lá (concentração do Palmeiras). Depois, nunca mais a vi. Mas acho que ela torce por mim”, diz o jogador. E, segundo Diego Souza e Alceu, jogadores do Palmeiras que dividem com o atacante um apartamento pago pelo clube, longe do olhar materno a história não é diferente. “Ele ficou com essa fama, mas do jeito que é feio, não dá para ser garanhão”, diz o gozador Diego Souza, outro que, assim como Vágner, já teve uma “conversinha” com a liderança da Mancha Alviverde, facção organizada de torcedores, sobre alguns exageros noturnos. “O Vágner é mais na dele, só sai às vezes. Mas sempre que tem uma chance de ficar com uma garota, ele aproveita”, afirma o “dedo-duro” Alceu.

Mas se a fama de namorador e baladeiro não provoca mais tanto ressabio ao jogador, na comissão técnica do Palmeiras é diferente. “Ele tem condições de ser um dos principais atacantes do país, mas precisa colocar a cabeça no lugar”, diz o técnico Jair Picerni. Se é difícil ofuscar todo esse “prestígio” de Vágner, fácil mesmo é admitir que Picerni tem boa dose de razão. Os poucos dias que ficou fora do time da Copa São Paulo bastaram para ameaçar seriamente a carreira do jogador. Não fosse o apoio da equipe e o consenso entre o presidente Mustafá Contursi ” que queria dispensar o atleta “, diretoria e o técnico dos juniores, Karmino Colombini, a decisão de afastá-lo teria sido mantida.

“Mas, se o Vágner saísse, o Palmeiras estaria perdendo muito também”, diz o ex-goleiro Gilmar Rinaldi, que detém 40% dos direitos federativos do jogador ” os outros 60% são do Palmeiras. Hoje empresário de jogadores, ele diz que recebeu em junho uma proposta de 500 mil Dólares para levar o atacante para “um clube médio da Itália”. Mas os apelos da família sobre a pouca idade de Vágner fizeram Gilmar recusar o negócio. “Pelo mesmo motivo não o levei para o Venezia, da Itália, antes de trazê-lo para São Paulo”, afirma.

E hoje, mesmo sendo destaque no time profissional, Vágner segue como o aluno rebelde sob a vigilância constante dos professores palestrinos. “Tivemos que conversar com ele sobre como é o esquema profissional. Afinal, ele não teve boa conduta nos juniores”, diz o técnico Picerni, sem esconder a preocupação com a suposta assiduidade de Vágner na noite paulistana. “Parece que esses problemas voltaram…”

Vágner, no entanto, nega qualquer tipo de abuso. Reconhece que, nos momentos de folga, sai para se divertir ao som de funk e pagode, seus ritmos preferidos, mas sempre com moderação. “Amadureci bastante desde o início do ano, entendi o que significa ser um jogador profissional”, afirma o artilheiro, que começou aos oito anos no futsal do Bangu, foi para o futebol de campo e passou pelo Campo Grande, Vasco e novamente Campo Grande até ser descoberto pelo empresário Evandro Ferreira, que o agencia ao lado de Gilmar Rinaldi. Com 16 anos, Vágner foi trazido pelo ex-goleiro para o São Paulo, mas não ficou no Morumbi, segundo Gilmar, “por problemas na condução do departamento amador”. Placar procurou o diretor das categorias de base do tricolor, Julio Moraes, mas o clube não quis se pronunciar sobre o assunto.

Salário defasado
E entre erros e acertos, Vágner Love começa a capitalizar. Gilmar negocia com o Palmeiras um aumento salarial para seu pupilo, que ganha 5 mil reais mensais ” bem abaixo da média ” e tem contrato com o clube paulista até 2006. Além disso, a Adidas acertou acordo de patrocínio de um ano com o atacante. Love recebe mil reais em material esportivo, além de bônus. Sobre a chance de figurar ao lado dos (bem) mais badalados Kaká, Diego, Robinho e Gil em Atenas-2004, Vágner mostra otimismo. “São jogadores inteligentíssimos e acho que eu, por jogar como centroavante, me encaixaria bem ao jogo deles”. A experiência no Pan-Americano de Santo Domingo foi um bom começo ” apesar de o Brasil ter perdido o ouro para a Argentina, Vágner fez um bom torneio, marcando quatro gols.

E fora de campo, com as tietes, quem levaria a melhor? “Ah, nessa eu ia ficar em último, só no rebote”, diz o “artilheiro do amor”, que tem por meta, hoje, conquistar “apenas” o coração dos milhões de palmeirenses. “E a melhor maneira de fazer isso é marcar o gol que levará nosso time de volta à primeira divisão”, afirma. A torcida do Palmeiras, como uma princesa aprisionada no alto da torre pela “bruxa” Série B, o espera para salvá-la, Vágner Love.

Liberdade vigiada

Paulo Serdan, presidente da torcida Mancha Verde, do Palmeiras.
Paulo Serdan, presidente da torcida Mancha Verde, do Palmeiras. Alexandre Battibugli/Placar

Vágner Love vai ter que distribuir muito amor, em gols, para apaziguar os ânimos da Mancha Alviverde. Para Paulo Serdan, líder da facção, o artilheiro ainda estaria abusando das noitadas. “Dentro de campo, ele está correspondendo, mas fora está deixando a desejar”, diz. O atacante rebate: “A partir do momento que trabalho sério, eles não têm nada a ver com a minha vida.” O líder da Mancha Alviverde concorda mas, mesmo assim, entrou em contato com Evandro Ferreira, um dos procuradores do jogador, para relatar a situação. “Foi um papo bom. E hoje não é uma cobrança, é um conselho”, diz. E bastou o “conselho” de Serdan para Ferreira mostrar uma preocupação maior com seu atleta. “Já é a segunda vez, e agora ele é profissional. Está saindo dos limites”, afirma o empresário, preocupado com a imagem de sua estrela.

O mistério do hotel

“Não vou falar”, afirma Vágner, enquanto mexe no ideograma pendurado num cordão do pescoço (“Quer dizer “sucesso” em japonês”, explica). “Não me envergonho do que aconteceu, mas já esqueci e agora quero manter minha privacidade.” Nem por decreto Vágner revela a identidade da moça descoberta com ele no hotel onde o Palmeiras se hospedou, em janeiro, em São José dos Campos, durante a Copa São Paulo de Juniores. “Ela não é conhecida, não é famosa, não é do (meio do) futebol, mas não posso falar o nome”, diz. A razão para tanto zelo, além de bom senso, são os conselhos dos empresários Gilmar Rinaldi e Evandro Ferreira. “Eles me orientaram bastante sobre isso.”

“Foi um dia de azar para ele”, afirma o companheiro Alceu, que ignorava o plano do colega e contou, enquanto Vágner fotografava para a Placar, como foi o episódio do flagra. “O Karmino (Colombini, ex-técnico do Sub-20 do Palmeiras, hoje no futebol dos Emirados Árabes Unidos) havia levado sua família para o mesmo hotel do Palmeiras. Eles (esposa e filhos) ficaram no mesmo andar da menina (sexto andar). Um dia (12 de janeiro, véspera do jogo contra o Joseense), eles (Karmino e Vágner) deram de cara no corredor. O Karmino saía do quarto da esposa e o Vágner do quarto da menina”, afirma o zagueiro-volante. Como a delegação do Palmeiras estava no segundo e terceiro andares, o treinador tratou de checar o que Vágner fazia ali. A moça, que o jogador havia conhecido em São Paulo e levado para São José dos Campos, havia sido descoberta.

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Dona Jaira, mãe do jogador, diz que ela mesma, até hoje, não sabe quem é essa “menina”. E acredita que houve uma “teoria da conspiração” para tirar seu filho da linha. “Parece que ela se infiltrou; acho que foi mesmo algo pensado para prejudicá-lo.”
Vágner não oculta apenas a identidade da moça de São José dos Campos. Entre Sheila, sua primeira namorada, e Dayane, a atual, houve outra “conquista”, que veio quando ele já estava em São Paulo. “Mas também não posso revelar quem é, ela me pediu para que não fizesse isso.” Mas que cuidado, hein, Vágner?

Love na edição de 2003
O ‘artilheiro do amor” em fotos de Alexandre battibugli PLACAR/Reprodução

Esse Love já tem dona

Vágner Love queria escondê-la, mas não teve jeito. Mamãe Jaira abriu o jogo e o “Artilheiro do Amor” assumiu para a Placar o romance com Dayane Fernandes, de 20 anos, de quem é fã confesso desde o início da adolescência. “Mas só rolou agora”, diz, admitindo os “dribles” que levou da amada.
O “agora”, na realidade, começou há cerca de cinco meses, pouco depois de Dayane dar cartão vermelho para um zagueiro marrento com quem namorava. Com “passe livre”, a moça deu uma chance ao artilheiro. “Ele sempre teve interesse, só que eu não”, afirma. “Mas, quando terminei (o namoro anterior), conheci um “outro” Vágner, mais interessante”, diz a estudante, que mora com os pais, no Rio, e planeja ser fisioterapeuta. “É de boa família, menina direitinha. Parece que ele está mesmo gostando dela”, afirma dona Jaira.

Love diz que não usou nenhuma tática especial para ganhar a musa. “Foi na conversa”, afirma. “A pessoa, o jeito dele me conquistou”, diz Dayane, que conhece Vágner desde os 13 anos, quando eram vizinhos em Bangu. “Ele é carinhoso e atencioso. Um conjunto perfeito” afirma a moça, que dispensa maiores mimos. “A presença dele, por si só, já me agrada. Estamos apaixonadíssimos”. Apesar de admitir o romance, Vágner não permitiu que tirássemos fotos da amada. “Ele acha que seria muita exposição”, diz Dayane.
Dayane jura que Vágner jamais posou de paquerador. “E é assim que prefiro vê-lo. Para mim, esse “Vágner Love” é outra pessoa. Aquilo (flagra sofrido por Vágner e uma “moça misteriosa” na concentração do Palmeiras) não faz parte do nosso relacionamento. Não gosto desse apelido e, além disso, o que vale é o nosso presente, juntos”, afirma.

Tamanha confiança no namorado faz Dayane não apenas duvidar dos supostos agitos noturnos da garotada do Palmeiras como confessar que o casal tem planos que vão bem além da volta do Palmeiras à Série A. “Já conversamos sobre casamento, mas é algo para o futuro. Não sei o que vai acontecer”, diz. Como Vágner, Dayane era torcedora do Flamengo na infância, mas hoje esverdeou o coração. “Ser jogador sempre foi o maior sonho dele. O único problema é a distância.”

 

Diego Souza, Vagner Love e Edmílson, jogadores do Palmeiras.
Diego Souza, Vagner Love e Edmílson, jogadores do Palmeiras. Alexandre Battibugli/Placar

O limite da fama

A diretoria do Palmeiras continua com os pés no chão – o que nem sempre é bom. Parece que os garotos do Verdão, também – o que é ótimo

Por Mauro Beting

Será que eles vão mascarar? Essa pergunta está na boca de muito palmeirense e é a principal preocupação do clube em 2004. “Eu, não!”, diz, na lata, Vágner Love. “Eu quero fazer o meu pé-de-meia, eu quero vencer na vida, dar uma condição melhor para a minha família”. Diego Souza, o “porta-berro” da concentração e língua afiada dos moleques do Palmeiras, faz coro ensaiado e entrosado com o parceiro: “Eu quero jogar a Libertadores, eu quero ser campeão, eu quero ser um grande jogador, eu quero jogar na Seleção!”

Eles querem. Eles estão podendo. Todo o Palmeiras quer ainda mais. Não que a diretoria tenha algum plano especial para eles, uma orientação profissional para evitar que Vágner Love, Diego Souza e Edmílson se deslumbrem demais e sejam lembrados num futuro como aqueles que poderiam ter sido muito mais do que de fato foram. Mas não há uma voz dentro do elenco, da diretoria e da comissão técnica que não acredite no futuro dos meninos. Um presente que o palmeirense ganhou em 2003, e vai poder brincar bastante em 2004.

Eles brincam sérios. Como os santistas Robinho e Diego (guardadas todas as proporções), são os líderes da bagunça na concentração, os titulares absolutos da descontração no vestiário, no treino, no ônibus. Não são líderes positivos ” são simplesmente positivos. Os marmanjos que lideram o grupo gostam da pilha deles. E acham que é alcalina: “eles zoam muito. Mas, no campo, eles respeitam a gente”. Palavra de Marcos. O “goleiro santo” ” e mais Sérgio, Magrão, Daniel e Adãozinho ” compõem a tropa de choque de Picerni. Eles fazem a checagem das atividades extracurriculares da garotada, as estripulias fora de campo.

Antes da fase decisiva da Série B, no final de um treinamento, Marcos e Magrão chegaram arrepiando em Vágner Love e Diego Souza. Na base do “ou vocês saem da noite ou vocês saem do time”. Saíram todos abraçados. Ganharam o dia e, depois, o campeonato. “Eles são gente boa. Sabem o que querem. O elenco todo, agora, se dá bem. Parece até que a gente nem saiu de férias”, afirma Magrão, que não teme adversários e nem inimigos íntimos. “Está todo mundo remando e jogando para o mesmo lado.” Mas… e se der errado? E se, em vez da máscara, o time que atropelou rivais na Série B for apenas um bom time de segunda? “Isso não vai acontecer. Temos o nosso entrosamento e o trabalho de campo do Picerni”.

Palavras do próprio técnico do Palmeiras, que diz acreditar em cada arremesso lateral dos seus meninos. “Pode escrever: eles vão fazer um baita de um Paulistão”. Jair (ou Picerni, como ele mesmo diz) acredita no Palmeiras muito mais que os próprios palmeirenses. Mesmo sem os reforços necessários. Ele garante acreditar naquilo que treinou com a cabeça dos jogadores. “Na nossa primeira conversa (em 2004), eu lembrei que os nossos 11 jogadores em campo tinham que valer por 22 no ano passado.

Agora, têm que jogar por 33″. A matemática de Picerni fecha a conta com a do auxiliar Fred Smania. “Esta é a hora da afirmação dos garotos. Eles vão ter que mostrar que estão maduros, prontos. Ano passado, eles passaram por um vestibular duro e entraram no ITA (um dos mais concorridos cursos universitários do país). Eles agora vão querer ser os primeiros da classe”, afirma Smania.

Jovens do Palmeiras no título da Série B de 2003
Jovens do Palmeiras no título da Série B de 2003 PLACAR/Reprodução

“Maloqueiros como nós”
E vai dar? “Ô se vai!”, diz Diego Souza. “Depois de jogar a Segundona, tudo vai ser festa. Ficou até mais fácil para a gente agüentar o tranco e as pressões depois de tudo que a gente sofreu”. “Como é que eu não vou estar preparado para suportar as pressões?” Esse é Vágner Love. Ele quase foi banido antes de estrear. Um aquecimento intenso e alguns alongamentos fora de hora e de local na concentração dos juniores valeram a ele o apelido que parece fadado a carregar. E quase que ele não vale mais nada para o Palmeiras. O presidente Mustafá Contursi mandou Vágner embora pela indisciplina. Foi convencido a dar mais uma chance. Vágner aprendeu. Continua Love. Mas na boa, sossegado. Sempre ao lado de Diego Souza. Até nas férias, em Cabo Frio.

Dos três, Edmílson é o que fica mais na dele. Fala pouco. Pudera. Com a filha Marcela no colo, presente de início de ano, morando com a mulher desde dezembro, só falta comprar um carrinho para levar a família para passear. “Vai ser um Gol cinza”. Nada da farra dos importados. O baiano Edmílson tem o pé no chão. E sabe também que meia vai usar até dezembro de 2008. Ele e Diego Souza foram “blindados” pelo Palmeiras até lá. Vágner Love tem contrato até o final de 2006. Pensa em títulos, Libertadores, Seleção, Olimpíada. Mas não em deixar o Brasil tão cedo.

O palmeirense torce por isso. E garante apoio aos novos ídolos. “Eles são maloqueiros como nós. É um time de homem. Valeu a pena tudo que aconteceu para a gente descobri-los e eles nos descobrirem”. É Paulo Serdan, líder da Mancha Verde, quem diz. A desconfiança histórica do palmeirense com qualquer prata-da-casa foi rapidamente vencida pelos moleques. Eles deram sangue e vitórias. E um faqueiro completo de chá para as torcidas organizadas do clube. Parecem torcedores que invadiram o campo e vestiram a camisa. E, quase sempre, vão bater ponto nas quadras das torcidas. Ganharam no papo e no campo o torcedor.

São exemplos para os novos palmeirenses feitos na Academia. Wilson Coimbra, treinador do Sub-20 do Palmeiras, usou a história deles para motivar e orientar o time que jogou a Copa São Paulo deste ano. “Depois da ótima campanha na Copa de 2003 (vice-campeões), quase todos eles foram para o Palmeiras-B ou voltaram para o time júnior. Eles sofreram com o rebaixamento, com a derrota na final da Copa para o Santo André, com o futuro incerto. E deram uma belíssima resposta ao final do ano.”

Ninguém nega que eles passaram no vestibular. Mas a vida de jogador é um provão atrás do outro. E, no Palmeiras, é uma selva a cada jogo. “Vai ser mais fácil para eles. Eles vão ter até mais espaço para jogar na primeira divisão. Eles já sofreram uma barbaridade na Série B”, diz Picerni. “Eles estão ainda mais entrosados. E mais responsáveis”.

Em campo, pode ser. Fora dele, Vágner Love e Diego Souza ainda são os moleques que pularam o muro do hotel em Maceió, horas depois da conquista da Série B em Garanhuns, ainda de madrugada; invadiram a praia, entraram no mar, tomaram um banho de sal para tirar a Segundona do corpo e voltaram só de sunga para o lobby do hotel, prontos para pegar o avião e voltar para São Paulo com o caneco na mão. Podem mascarar? Podem sair do prumo? Podem dar errado? Só o tempo vai responder.

Chumbos da casa

O Palmeiras dos sonhos só tem um jogador feito em casa. Waldemar Fiume, o “Pai da Bola”. Todos os outros craques do melhor Verdão da história são filhos de outros clubes. Foram adotados pelo Palmeiras, muitos viraram palmeirenses, mas não nasceram nas divisões de base do Parque Antárctica. O palmeirense, desde que era palestrino, é crítico contundente de pai e de pátria. A princípio, todo Ademir da Guia é um bagrecéfalo. Um jogador feito no clube, então, vai ter que jogar em dobro. E com a metade das condições para fazer o trabalho dele. Historicamente, o Palmeiras nunca deu bola às divisões de base. E nem campo.

Só um time de garotos verdes de berço deu caldo: o Palmeiras de 1979, bolado por Telê Santana, e que o levou ao comando da Seleção Brasileira, em 1980. Metade daquele belo time veio da base: Pires (lançado em 1976), Pedrinho (1977), Gilmar (1978) e Mococa e Carlos Alberto Seixas (1979). O time deu show, mas não deixou um título na sala de troféus.

Além desse time, só o de Picerni, em 2003. O Palmeiras não revela craques. Vágner Love é o melhor atacante surgido nos times de base do clube desde… desde… Mazola, no final dos anos 50. Galeano, um dos tantos chumbos-da-casa que sofreram com as cobranças das arquibancadas, acabou sendo o décimo jogador a mais vestir a camisa do clube.

Atuando no Japão e na Turquia em 2003, ele pouco viu o novíssimo Palmeiras atuar. Mas sabe que, agora, a história é outra: “Não havia a estrutura que hoje o clube dá para as divisões de base. Eu espero que eles aproveitem isso. E que também tenham estrutura para entender que eles são os ídolos do clube. E vão ser cobrados por isso.”
A estrutura que Vágner Love e ótima companhia tiveram vai ser melhorada. O clube está inaugurando uma nova Academia de treinamentos. Só para os meninos. Pela primeira vez na história, o Palmeiras investe nas divisões de base e não nas “divisões inferiores”.

 

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