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Quando teve início a (boa) fama de ruim do Íbis

Há 39 anos, PLACAR cravou: “É o pior time do Brasil”. Hoje, o Íbis celebra a volta à elite pernambucana e faz sucesso nas redes ao exaltar seus fracassos

Por Gabriel Pillar Grossi Atualizado em 10 mar 2022, 08h47 - Publicado em 10 mar 2022, 08h00

Em julho de 1983, PLACAR custava 500 cruzeiros e trouxe na capa os atacantes Serginho e Casagrande “chamando” os torcedores para o duelo entre Santos e Corinthians, marcado para o domingo seguinte. Quase no final da revista, uma reportagem assinada por Lenival do Aragão ficaria marcada pelo tom algo profético “Este é o pior time do Brasil” era o título. Em seguida, a revista garantia que os jogadores “não se ofendem e admitem a fraqueza dessa equipe que só venceu um jogo desde 1979”. O que ninguém sabia é que o Íbis Sport Club, da cidade pernambucana de Paulista, a 16 quilômetros do Recife, ficaria mais um ano sem conquistar uma vitória sequer. O jejum, iniciado em 20 de julho de 1980, quando bateu o Ferroviário por 1 a 0, só acabou em 17 de junho de 1984, ao superar o Santo Amparo por 3 a 1. A inusitada marca — três anos e onze meses só empatando e perdendo — rendeu uma menção no Guinness Book e a equipe pernambucana foi “promovida” a pior time do mundo.

Na época reportagem original, PLACAR explicou que o Íbis só permanecia como saco de pancadas porque não havia rebaixamento no torneio estadual. O clube era claramente amador e todos os titulares exerciam outras atividades: “serralheiro, donos de bar, estudantes, motoristas, um soldado da PM e um investigador de polícia”. Eles participavam do campeonato porque tinham contratos (um salário mínimo para cada um), o que atendia às exigências da federação.

Acompanhe a descrição da revista: ”Nos dias de jogo, eles chegam por conta própria ao estádio, onde sempre os espera na porta o técnico João Martins, ferroviário aposentado de 53 anos que todos chamam de João Grandão. Atrás deles vem geralmente a Kombi da escola, de propriedade de seu presidente, Ozir José Vieira Ramos, dono também de uma gráfica na vizinha Olinda, onde mora. Júnior, filho de Ozir e atualmente fora do time por contusão, é quem dirige a perua, que traz os uniformes e chuteiras — guardados na residência do cartola, pois o Íbis não tem sede.”

Quatro décadas se passaram e a fama do clube, fundado em 1938 por funcionários da Tecelagem de Seda e Algodão de Pernambuco, tendo como nome o da ave adorada pelos antigos egípcios que era o símbolo da fábrica, só cresceu. Entre 1987 e 1990, o dono da camisa 10 do Pássaro Preto logo se tornou conhecido nacionalmente pela vasta cabeleira: Mauro Shampoo é considerado até hoje o maior jogador da história do Íbis (leia mais abaixo). O escrete rubro-negro ainda permaneceu na A1 local até 1994, quando foi rebaixado. Voltou a disputar a elite em 2000, mas caiu novamente no mesmo ano.

Condenado ao ostracismo, na segunda divisão estadual, permaneceu vivo na memória dos amantes do futebol. Em 2006, Paulo Henrique Fontenelle e Leonardo Cunha Lima finalizaram o curta-metragem (22 minutos de duração) Mauro Shampoo — Jogador, Cabeleireiro e Homem. Quatro anos depois, Israel Leal da Silva lançou O Voo do Pássaro Preto — A História do Íbis, o Pior Time do Mundo. Na Amazon, o livro, de 140 páginas, é vendido por 99,90 reais, mais o frete. E em 2017, o historiador Luiz Antonio Simas publicou Ode a Mauro Shampoo e Outras Histórias da Várzea, com aventuras curiosas do mundo da bola.

Antes disso, em 2009, o clube abriu uma conta no Twitter (@ibismania). Surfando a onda de zoeira e deboche, os responsáveis pelas postagens anunciam, logo na página inicial: “Perfil oficial do pior time do mundo”. Até que, na pandemia, a zoeira estourou de vez. Em 2020, um levantamento da empresa de marketing Sports Value colocou o Íbis como o quarto clube do mundo mais eficiente no Twitter, atrás apenas de Arsenal, Chelsea e Manchester United. O engajamento chegou a mais de 11 000 interações por tuíte — sempre graças à ironia. Além de tirar sarro do próprio (mau) desempenho do time, a conta passou a zoar os gigantes que caem feio. “Gostei do estilo de jogo do Barcelona. Vou copiar”, publicou após o time catalão ser goleado pelo Bayern de Munique na Liga dos Campeões. “Aprende a perder”, disparou após Jorge Jesus dizer que “Fluminense jogou para não perder”, quando bateu o Flamengo na final da Taça Rio.

Em 30 de junho, último dia do contrato de Lionel Messi com o Barcelona, o @ibismania anunciou as condições para que o craque argentino viesse jogar em Paulista: não pode fazer muitos gols, não pode ser campeão e não pode usar a 10 (“Es do Mauro Shampoo”, diz o texto, que mistura português e espanhol o tempo todo). Os jornais Marca, da Espanha, e L’Équipe, da França, escreveram sobre a proposta. Também o Real Madrid, quando perdeu para o Sheriff da Moldávia pela Champions, e o Corinthians, goleado pelo Peñarol na Sul-Americana, foram “celebrados” pelos tuítes do Íbis. O sucesso na rede social chamou a atenção da Betsson, um dos maiores grupos de jogos e apostas do mundo, que fechou, em junho do ano passado, um contrato de patrocínio e passou a estampar a marca BetssonFC (um de seus fantasy games) nas camisas rubro-negras. O acordo trouxe de volta à cena o maior personagem do clube: a família Ramos.

Em 1983, PLACAR contou assim: “Na verdade, o Íbis é Ozir Ramos, filho de um de seus fundadores, Onildo Ramos, e que rasgou o ofício em que o presidente da Tecelagem de Seda e Algodão de Pernambuco pedia a desfiliação junto à Federação, no final da década de 1950. ‘Nasci e fui criado dentro do Íbis, não podia deixá-lo morrer’, relembra Ozir, 49 anos, com orgulho. Desde então, ele dirige o clube, ajudado por seus filhos Júnior e Omar — respectivamente vice-presidente e presidente do conselho deliberativo (que de vez em quando se reúne)”. O Júnior do texto é o atual presidente do Íbis. “Nós já estamos fazendo a divisão de bases, porque a Betsson está me proporcionando isso. Estamos fazendo ações sociais que a Betsson está promovendo, uma coisa que eu nunca fiz. Estou aqui emocionado. Meus jogadores estão todos vibrando, minha diretoria também. Tenho meia dúzia de diretores que me ajudam financeiramente e no que podem para manter o Íbis vivo. E com a Betsson, tenho certeza de
que ele está mais vivo do que nunca!”, exultou ele após assinar a histórica parceria, cujos valores são mantidos em sigilo.

Nada mau para o time, que, naquele começo dos anos 1980, tentava inutilmente vencer uma partida para poder “ganhar o bicho de 200 000 cruzeiros — para ser dividido entre todos, é bom lembrar — prometido em caso de vitória pelo industrial Amaury Gomes, do Café Soberano, nome que aparece nas camisas da equipe”. Na ocasião, o repórter Lenivaldo Aragão relatou: “Como um boxeador que teima em não aceitar o nocaute, o Íbis apanha — mas não morre. E comemora com festa cada pequena alegria, como o empate por 2 a 2 arrancado frente ao América, dia 13 deste mês. Amaury resolveu dar 100 000 cruzeiros pelo feito: 4 000 cruzeiros para cada um, e
o zagueiro Canito achou logo um destino para sua cota: ‘Saí do trabalho direto para o jogo, nem pude fazer um lanche. Com esse bicho, vou poder jantar e tomar uma
cervejinha’. Saúde, Íbis”.

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De volta para o futuro, o Íbis de 2021 anunciou, em outubro, o lançamento da própria marca de material esportivo, a Pássaro Preto (em parceria com um fornecedor de Santa Catarina). Até então, quem vestia os craques rubro-negros era a Erreà, marca italiana que assina os uniformes de Queens Park Rangers, Parma e das seleções de vôlei da Itália, da França e da Bélgica, entre outrosNa internet, a FutFanatics vende cinco versões dessa camisa: a número 1, vermelha e preta; a 2, branca; duas de goleiro e uma versão feminina).

Com os cofres bem mais cheios, ficou 310 dias invicto (acredite se quiser, quase um ano sem ser derrotado), terminou a A2 do Campeonato Pernambucano em segundo lugar e garantiu vaga na primeira divisão estadual depois de mais de vinte anos. No Twitter, a conquista foi celebrada com autoironia: “A lista de culpados por essa
terrível fase vitoriosa é enorme, mas fizemos uma peneira para destacar alguns responsáveis por fazer do nosso inglorioso um time de algumas glórias”. A torcida entrou
no clima: “Vou cancelar meu sócio torcedor”, escreveu um. “Devolva o meu Íbis” e “Time sem vergonha” foram outras reações ao acesso.

No passado, o Íbis conquistou o Torneio Início em 1948 e 1950 e o Torneio Incentivo em 1975 e 1976. Até hoje, sua melhor colocação no estadual é o quinto lugar (em quatro ocasiões). O sucesso recente traz junto um novo dilema. O pior time do mundo que se tornar um vencedor? O clube que foi um dos fundadores da Federação Pernambucana de Futebol reestreou na elite local no dia 22 de janeiro contra o Náutico — perdeu por 3 a 0, ainda bem. Até 3 de abril, quando termina o torneio, vai disputar seus
jogos no Estádio Municipal Ademir Cunha, em Paulista, que tem capacidade para 10 000 torcedores. É ali que brilha a mascote Derrotinha — um íbis de bico vermelho com a camisa rubro-negra. Entre a autenticidade e o bom humor das redes sociais e a possibilidade de começar a reescrever a própria história, só nos
resta terminar este texto como PLACAR fez há quase quarenta anos: “Saúde, Íbis”.

O rei do salão

Mauro Shampoo,
Mauro Shampoo, @ibismAniA/Instagram

Nascido no Recife, em 12 de novembro de 1934, Vavá, o Peito de Aço, se consagrou como bicampeão mundial de futebol em 1958 e 1962, com nove gols marcados na Suécia e no Chile. Jogou pelo Íbis em 1948, ainda adolescente. Rildo, recifense de 23 de fevereiro de 1942, brilhou no Botafogo e no Santos e foi titular do time canarinho num dos três jogos da Copa de 1966, na Inglaterra. Vestiu o manto do Íbis em 1959. Mas no mundo do Pássaro Preto, ninguém é maior do que Mauro Shampoo.

Também natural da capital de Pernambuco (20/11/1956), tinha atuado pelo Santo Amaro de 1976 a 1986. No ano seguinte, vestiu pela primeira vez a camisa 10 rubro-negra e é conhecido até hoje como o maior jogador da história do clube.

Mauro Teixeira Thorpe ficou no Íbis por quatro temporadas, até 1990. E garante ter feito, pelo clube, o único gol de seus catorze anos de carreira. “Mesmo assim dizem que foi contra”, afirmou. “O goleiro deu rebote e a bola caiu na marca do pênalti. Fiz o gol e corri o estádio todinho. O estádio estava lotado… lotado de espaço vazio. Perdemos de 8 a 1,mas eu fiz um golaço. Não tem registro, por isso dizem que foi contra. Dói no coração. É o gol da minha vida.” De fato, não tem registro mesmo. Em 2018, a Globo Nordeste procurou e não encontrou nada sobre o tal lance em jornais e súmulas. Como diria um velho jornalista, se a lenda é melhor do que a história, publique-se a lenda.

(Texto publicado na edição impressa de PLACAR de fevereiro de 2022)

 

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