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#TBT Placar Toda quinta-feira, um tesouro dos arquivos de nossas cinco décadas de história

O que Felipão dizia de Romário e Ronaldo meses antes do penta

Em entrevista a PLACAR em novembro de 2001, o pai da "Família Scolari" ressaltou que priorizava união do grupo e deu dicas do que pretendia fazer na Ásia

Por Da redação 28 jul 2022, 13h52

Com a proximidade da Copa do Mundo do Catar, crescem as expectativas pelo hexacampeonato da seleção brasileira. Há duas décadas, o sonho do penta era acompanhado de desconfiança. Depois de Eliminatórias cambaleantes, que culminaram nas demissões de Vanderlei Luxemburgo e Emerson Leão, Luiz Felipe Scolari conseguiu dar consistência ao time e, apesar do clima de incerteza geral, demonstrava convicção em seu projeto, sete meses do início do Mundial da Coreia do Sul e do Japão.

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Em entrevista a Arnaldo Ribeiro e Sérgio Xavier Filho para a edição de novembro de 2001, Felipão foi bastante direto: deixou claro que Romário e Elber estavam mal avaliados em seu “caderninho” e que por isso tinham poucas chances de ir ao Mundial; adiantou que testaria Kleberson, então revelação do Atlhetico-PR e que preferia jogar com três zagueiros; e, contra todos os prognósticos, demonstrou fé na volta de Ronaldo.

“Se ele jogar dezembro, janeiro, fevereiro, março… Jogando de quatro a seis partidas por mês, quando chegar o mês de abril ele vai estar voando. Ele tem algumas limitações, que terá de administrar. Conto com ele”, disse, na época em que Ronaldo acabara de se recuperar de uma gravíssima lesão no joelho na Inter de Milão. Meses depois, ele seria o artilheiro da Copa com oito gols.

Sobre Romário, Scolari avisou: “Eu tenho um caderninho, onde eu somo e diminuo. Quem fica me devendo, meu amigo, vai ter que fazer muita coisa para voltar”, disse. “A primeira vez, ele foi convocado e todos nós perdemos o jogo. Na segunda e na terceira convocações, ele estava machucado. Depois, foi opção minha. Nas últimas, foi opção minha.” Havia naquela ocasião um clamor pela convocação do Baixinho, que tinha 35 anos e vivia boa fase no Vasco.

O blog #TBT PLACAR, que todas as quintas-feiras recupera um dos tesouros de nossos arquivos, relembra abaixo a entrevista de Felipão, na íntegra:

Capa de PLACAR de novembro de 2001
Capa de PLACAR de novembro de 2001 PLACAR/Reprodução

Fidelidade, a palavra de ordem

Em entrevista exclusiva, Felipão explica por que Romário está no “caderninho” dos queimados e sugere que quem deu sangue nas Eliminatórias já está quase na Copa

Por Arnaldo Ribeiro e Sérgio Xavier Filho

Quer descobrir quem Luiz Felipe Scolari vai levar para a Copa? A melhor maneira é investigar quais jogadores foram fiéis a ele no passado e, principalmente, no atual momento.

Entre fidelidade e capacidade de desequilibrar uma partida, ele certamente fica com a primeira opção. Para se ter uma idéia, Felipão diz ter um caderninho onde anota os pontos positivos e negativos que cada atleta acumula ao longo dos tempos.

Na sua lista de queimados está Elber e, sobretudo, Romário. Nessa entrevista a PLACAR, ele não diz textualmente que o Baixinho não vai à Copa, mas nem precisa. Felipão revela que fará testes só com atletas que atuam no país ” citou Klébers, o do Atlético-PR e o do Corinthians, Kléberson, Kaká, Esquerdinha, entre outros ” para definir as últimas vagas.

O esquema? É o 3-5-2 mesmo. Segundo ele, porque o Brasil simplesmente não tem laterais que saibam marcar e, portanto, são necessários três zagueiros para proteger a defesa. Com um grupo de jogadores fiéis, sem Romário e no 3-5-2, Felipão garante que o Brasil (e Portugal) estará entre os quatro melhores da Copa. É rezar para ver.

O Felipão vai usar terno na Copa?
Se for norma, eu vou usar terno. Mas se não for uma exigência, vou de abrigo.

Quais as seleções que mais encantam ?
Paraguai, Argentina… A França então, nem se fala. Tem um trabalho científico, de base. Eles preparam os atletas para entrar no time de cima. O que é uma coisa que eu pretendo desenvolver aqui. Como? Fazendo treinos de três, quatro dias por mês só com quem joga no Brasil. Vou organizar uns quatro, cinco jogos-treinos contra times brasileiros.

Por que você tem insistido tanto para controlar as categorias de base?
Porque se trata de um projeto da própria CBF. Mas como havia Eliminatórias, CPIs, não pude mexer ainda nisso.

O Brasil perdeu o Mundial Sub-20, o Sub-17. Dá para apostar na molecada?
Perdemos, mas o Adriano está na Inter, o Eduardo Costa é titular do Bordeaux, Fábio Rochemback foi para o Barcelona… O que falta ser corrigido nesses jovens? Disse ao Fábio: “Daqui a um ano e meio, serás um grande jogador para a Seleção. Antes, precisas aprender a ser um jogador tático.” Ele tem tanta vontade, que vira peladeiro.

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Como trata o assédio dos empresários?
Tenho um bom relacionamento com todos os empresários. Abro as portas para todos eles. Se tu não abrir, é a mesma coisa… Pode ser que eu tenha convocado alguns jogadores de um e o outro tenha ficado puto comigo, chateado… Mas nunca me falaram nada.

Você segue com o 3-5-2 até a Copa?
O time já se sente protegido. O grande problema da Seleção é fazer com que os laterais joguem como defensores. Nós não temos mais laterais assim. O Belletti fecha razoavelmente pelo meio. O Roberto, não. O Serginho, a mesma coisa. Júnior, razoável. Cafu? Não sabe fechar pelo meio. Dá para entender os três zagueiros? Tu precisas de uma alternativa.

Mas e os zagueiros do Brasil? Eles sabem fazer o papel nesse esquema?
O Lúcio sabe jogar, o Roque sabe jogar, o Edmílson, o Juan…. o Anderson Polga, o Nem. Se tivéssemos um lateral marcador, poderíamos jogar com dois. O único lateral marcador do Brasil é o Roger, do Grêmio, que está jogando como zagueiro. Como técnico de clube, sempre joguei no 4-4-2. O que tentamos agora é encontrar um segundo volante que chegue à frente, o que vocês estão cobrando. O Zinho, quando eu estava no Palmeiras, fazia esse papel.

Por que você não convocou o Zinho?
Pensei em convocá-lo, mas a coisa não evoluiu. Pensei então no Leonardo. Cheguei a convocar o Leonardo, mas…

O problema é com a idade então?
Não. São outras coisas. Ligações com as Seleções de 1998, de 1994… Entrosamentos… A Seleção hoje tem outro palavreado… Hoje temos uma dinâmica de trabalho, um tipo de cobrança diferente, jogadores com outras características. Hoje preciso pensar muito mais no coletivo do que no individual. Não posso pensar mais num jogador como solução.

Quem vai ser o seu líder?
O Emerson já foi meu capitão. O Roque, também. O Rivaldo eu quero que se transforme numa liderança. Se ele tem uma liderança técnica, pode então comandar o grupo. Até a Copa, espero tirar o peso das costas dele. Ele não ganha jogo sozinho.

Temos um jogador que desequilibra? Um Romário, um Ronaldo…
Eu digo que confiava num jogador que foi convocado para as últimas partidas. O Luizão, um jogador com espírito de grupo, com dinâmica de trabalho fantástica. E goleador. Tem Rivaldo, Edílson… Romário, Ronaldo, tudo bem… Mas será que não vamos ter uma dupla com A ou B que vá fazer sucesso na Copa?

Você acredita na volta do Ronaldo?
Se ele jogar dezembro, janeiro, fevereiro, março… Jogando de quatro a seis partidas por mês, quando chegar o mês de abril ele vai estar voando. Ele tem algumas limitações, que terá de administrar. Conto com ele.

Luizão, Roberto Carlos… Qual jogador que mais te agradou até agora? O Edílson foi uma surpresa, não foi?
Foi. Ele se mostrou amigo, receptivo, participativo. Ele tem voz ativa numa palestra, por exemplo. Isso para mim foi ótimo. Eu não tinha trabalhado com ele, só brigado, nos tempos de Palmeiras e Corinthians. Além disso, está sempre alegre, sempre satisfeito, sempre tem uma brincadeira… E isso é bom num grupo. Falei isso a ele quando o escalei contra a Venezuela. Disse: “Tu tens me ajudado tanto que seria ingratidão iniciar o jogo com outro jogador, embora esse outro jogador tenha treinado muito bem. Te tirar na hora de comer o bolo. Até agora, só comemos rapadura. Agora, vamos comer o bolo.”

E o Roberto Carlos? Está reabilitado?
Fizeram uma imagem dele fora de campo, de mascarado, que não corresponde à realidade. É um coração espetacular. As coisas que ele faz fora de campo, pouca gente sabe.

E as decepções? Aqueles que nem esforço fizeram para defender a Seleção? O Elber não entra nessa lista?
Eu tenho um caderninho, onde eu somo e diminuo. Quem fica me devendo, meu amigo, vai ter que fazer muita coisa para voltar.

Com quantos menos o Romário está no seu caderninho?
A primeira vez, ele foi convocado e todos nós perdemos o jogo. Na segunda e na terceira convocações, ele estava machucado. Depois, foi opção minha. Nas últimas, foi opção minha.

Dá para ter algum jogador num time hoje que não marca, como o Romário?
Eu acho muito difícil no futebol atual. Se tu me deres um exemplo de alguma grande seleção ou clube, com um algum jogador sem participação efetiva. O Figo participa. Aqui… O Luizão, Kléber, do Atlético Paranaense, Guilherme, Luiz Mário, França… Mas espera aí. Com isso, não estou dizendo que não vou convocar Romário, que não vai à Copa, nada disso. Ele é um jogador, na minha opinião, igual aos outros, com as mesmas condições dos outros de ir à Copa. Agora, para que eu possa levá-lo, tenho que montar um esquema em que os outros dez teriam de fazer algo diferenciado.

E o Rogério Ceni? Por que não tem vez com você?
É uma pessoa equilibrada, tranqüila. Tenho uma boa amizade com ele. Eu não convoquei porque tinha uma idéia do Dida e do Marcos e eles vêm correspondendo. Não adiantava fazer um revezamento. O Dida vinha trabalhando seríssimo, é um cara fantástico e teve aquele problema com o passaporte. E eu não ia deixar ele mal, na mão.

Rogério Ceni é o terceiro goleiro para a Copa então?
Não sei. Tem Júlio César, do Flamengo, despontando. Em 70, o Leão era o terceiro goleiro, sendo preparado para 74, 78… Você também pode estar preparando para o futuro.

Você disse que o grupo ainda não está fechado? Quais os jogadores que você ainda está observando? Esses que você pretende observar nos jogos-treinos?
Tem um monte… Kaká, Kléberson, Kléber, Kléber do Corinthians, Anderson Polga, Esquerdinha…

Se o grupo não está fechado, a comissão está? Aonde encaixar o Parreira?
Essa função que disseram, para o Parreira, não deve existir e não vai existir. Ninguém na CBF me falou desse cargo, da possibilidade de alguém assumir esse cargo… Na minha opinião, é fora de propósito. Não vejo necessidade. No momento em que tivermos mais um técnico, como coordenador de seleções, o melhor é fazer um triunvirato, um sexteto de técnicos, sei lá…

Por que tanta certeza de que o Brasil chega entre os quatro na Copa?
Tenho certeza. Pode anotar aí. E digo mais: Portugal também vai estar.

E você? Está garantido na Copa?
Falei com o Ricardo Teixeira. É zero a chance de eu não estar na Copa.

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