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#TBT Placar Toda quinta-feira, um tesouro dos arquivos de nossas cinco décadas de história

Em 2001, Paulo Nunes tentou ganhar o coração da fiel

Ídolo histórico do Palmeiras, atacante topou a aventura de vestir a camisa do rival Corinthians. Fez gols e até levantou taça, mas jamais houve química

Por Da redação Atualizado em 9 jun 2022, 16h04 - Publicado em 9 jun 2022, 06h00
Paulo Nunes, do Corinthians, deitado na sua cama, segurando um coração de pano, em homenagem a sua esposa Liz -
Paulo Nunes em ensaio para a PLACAR: ele só queria amar em 2001 Alexandre Battibugli/Placar

Arílson de Paula Nunes, o popular Paulo Nunes, é uma figura singular do futebol brasileiro. Atacante veloz, goleador e irreverente, ele marcou época na década de 1990, sobretudo em suas vitoriosas passagens por Grêmio e Palmeiras, pelos quais conquistou a Copa Libertadores, entre vários outros títulos. Hoje comentarista do grupo Globo, Paulo Nunes viveu um momento de forte turbulência na carreira há 21 anos. O blog #TBT PLACAR, que todas às quintas-feiras recupera um tesouro de nossos cinquentenários arquivos, relembra a passagem do “Diabo Loiro” pelo rival Corinthians.

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Paulo Nunes, do Palmeiras, comemorando gol com um véu no rosto, imitando
Paulo Nunes comemorando gol imitando “A Feiticeira” Alexandre Battibugli/Placar

Ídolo de gremistas e palmeirenses, o jogador goiano revelado pelo Flamengo vivia mau momento, aos 29 anos, quando buscava um novo clube na virada para 2001. Apesar de toda a sua história pelo Verdão, que inclua títulos e comemorações de gols históricas, além de brigas e provocações contra o Corinthians, Paulo Nunes se ofereceu para atuar no eterno rival, segundo ele próprio relata em entrevista ao repórter Eduardo Cordeiro, para a edição de PLACAR de agosto de 2001.

Na ocasião, Paulo Nunes já havia conquistado o título paulista e participado da campanha do vice-campeonato da Copa do Brasil, mas, nem mesmo com “declarações de amor”, conseguia conquistar a fiel.  Os protestos começaram em sua apresentação no Parque São Jorge e jamais cessaram. “Quem não quer jogar no Corinthians? Eu joguei várias vezes contra. Teve jogo em que meu time ganhava de 3 x 0 e a Fiel não parava. Ficava puto com aquilo, queria ter eles a meu favor”, lamentou.

Um dos mais divertidos personagens do esporte nacional, Paulo Nunes topou posar para fotos com um coração de pelúcia e nas mais variadas poses, tudo para tentar conseguir convencer os alvinegros. Ele sabia, porém, qual era o grande entrave.  “Estou cem por cento fisicamente, fazendo gols, me dedicando ao máximo, mas não está adiantando nada. Imagina o que eu não faria se eles (torcedores) estivessem a meu favor? Quem sabe se eu fizer um gol no Palmeiras…”

Não teve jeito. Ele deixaria o Corinthians justamente no fim daquele mês de agosto, com 25 jogos e quatro gols. Em recente entrevista ao SporTV, ele contou que o clima era insustentável. “Eu tinha seis seguranças. Quando a Gaviões invadiu a churrascaria, os meus seguranças pipocaram. Eu andava com eles todos os dias e eles tinham mais medo do que eu”, brincou, como de costume.

Confira, abaixo, a última entrevista de Paulo Nunes como jogador do Timão:

No coração da fiel?

Paulo Nunes recuperou a forma física, começou o Brasileiro fazendo gols e virou um dos líderes do time após o caso Marcelinho. Mas ainda não conseguiu o que esperava ser mais fácil: o carinho e o respeito da Fiel

Por Eduardo Cordeiro

Paulo Nunes chegou ao Corinthians em 22 de janeiro para ser apresentado à imprensa e à torcida como a grande contratação do clube para o primeiro semestre. A recepção aconteceu no salão nobre, onde o atacante foi entrevistado e recebeu do presidente Alberto Dualib a camisa 10 do clube. Após atender aos jornalistas, caminhou ao lado de alguns dirigentes pelas alamedas do clube para chegar ao gramado do Parque São Jorge, ao som da tradicional sirene, privilégio conferido às estrelas.

Mas a festa planejada pela diretoria corintiana não foi completa, faltou ensaiar com os torcedores. Paulo Nunes foi ameaçado e hostilizado desde o momento em que o carro no qual estava estacionou no clube, por volta das 13 horas, até o final do treino da tarde. Mesmo assim, conversou com torcedores no alambrado e prometeu dedicação, profissionalismo. Mas que recepção, hein?

Sete meses depois, um título paulista, um vice na Copa do Brasil e um bom começo no Campeonato Brasileiro não foram suficientes para que o jogador conquistasse a simpatia da Fiel. “É uma situação muito complicada. Estou fazendo de tudo, mudei meus modos, minhas atitudes, meu comportamento, mas a resposta não vem. Eu achava que seria um pouco mais fácil, mesmo com a minha imagem sendo tão ligada ao Palmeiras.”

Paulo Nunes está triste, desanimado. E garante que a falta de apoio da torcida transforma esta na pior fase de sua carreira. Pior até do que em 2000, quando “fez número no Grêmio”, segundo ele mesmo diz. O último grande momento do “Diabo Loiro” foi no Palmeiras, de onde saiu no final de 1999, porque a Parmalat, dona de seu passe, estava deixando o clube. “Eu tinha duas propostas da Espanha, mas a oferta do Grêmio era financeiramente irrecusável. Eu sabia que estava dando um passo atrás na minha carreira, em termos de expressão, de exibição na mídia, mas preferi pensar no meu futuro.”

Na verdade, foi um passo para o meio, de campo. Paulo foi contratado a peso de ouro e juntou-se a Zinho, Marinho, Nenê e aos argentinos Amato e Astrada. Em Porto Alegre, o novo Grêmio era tratado como o time dos sonhos, mas naufragou.

Paulo Nunes com a camisa 7 do Corinthians -
Paulo Nunes com a camisa 7 do Corinthians – Alexandre Battibugli/Placar

Férias em Porto Alegre

Leão, que havia indicado a contratação do atacante, caiu durante o Campeonato Gaúcho e Antônio Lopes foi contratado para substituí-lo. “Achavam que o time seria imbatível, mas não era nada disso. É só você analisar aquele elenco. Mas tudo piorou quando o Lopes chegou, um dos piores treinadores com quem já trabalhei. Você vê nas mãos de quem está a nossa Seleção… O cara me colocou para jogar no meio, numa função que eu nunca tinha feito na minha vida. Será que ele não via futebol? Já tinha jogado várias vezes contra ele, feito gols, sempre jogando lá na frente. Até tentei conversar, mas ele dizia que era ele quem mandava.”

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Paulo Nunes diz que “enganou” na meia e que parou de reclamar para não arrumar confusão. Com ele no meio e Ronaldinho no ataque – o atacante diz que Ronaldinho era muito mimado no Olímpico e que só ele podia jogar na frente, com liberdade – o Grêmio chegou à final do Gauchão, mas perdeu o título para o Caxias (Paulo não jogou as duas partidas que definiram o Campeonato porque estava suspenso).

No Brasileiro, Antônio Lopes deu lugar a Celso Roth, mas a vida de Paulo Nunes não mudou. Ele diz que pensou em pular fora e que tinha inclusive uma oferta do Corinthians, mas achava que não poderia deixar o Grêmio daquela forma, sair por baixo, com uma dívida com a torcida. Jogou as quatro primeiras partidas do clube na competição, mas o time não andava. Com a contratação de Warley, foi para a reserva. “Depois disso, joguei muito pouco, entrava de vez em quando. Lembro que o Zinho me perguntava como é que eu estava aceitando aquilo calado, mas sinceramente, não queria confusão. Mas foi uma barra muito pesada”.

Paulo costuma dizer que “passou férias” em Porto Alegre. Outros dois problemas ajudaram a empurrá-lo para a reserva do Grêmio. O primeiro, dores no joelho. O jogador sofreu uma cirurgia no ligamento cruzado de seu joelho direito em 1993, quando ainda jogava no Flamengo, e voltou a sentir dor no local no início do ano passado. Ciente de que teria que fazer uma nova cirurgia para resolver de vez o problema, preferiu jogar para compensar o dinheiro que o clube investiu. “Eu não poderia me dar ao luxo de parar, seria uma sacanagem, pela grana que os caras investiram.”

O segundo problema acontecia fora de campo. No final de 1999, Paulo Nunes separou-se de Josiane, com quem tem dois filhos. Depois de nove anos de casamento, foi morar sozinho em Porto Alegre. O fato de já estar namorando com a modelo gaúcha Liz Vargas, que também morava na cidade, melhorou um pouco a situação. “Mas era um baque chegar em casa e não ver as crianças. Até achava que isso não estava me prejudicando, mas os amigos diziam que sim.”

Pedindo emprego

A idéia de jogar em São Paulo outra vez foi ganhando força. Ele não lembra o dia, mas diz que em novembro, enquanto passava uns dias numa de suas fazendas em Pontalina, Goiás, ligou para seu empresário para dizer que queria jogar no Corinthians em 2001. “A iniciativa realmente foi dele. Foi o empresário dele que nos ligou para comunicar esse interesse”, diz Antônio Roque Citadini, vice-presidente de futebol do clube. “Tanto o Citadini quanto o Dualib (Alberto Dualib, presidente) achavam que eu estava louco, toda a minha família estava contra, mas eu sabia que poderia encarar esse desafio. Quem não quer jogar no Corinthians? Eu joguei várias vezes contra. Teve jogo em que meu time ganhava de 3 x 0 e a Fiel não parava. Ficava puto com aquilo, queria ter eles a meu favor.”

Apesar dos protestos em sua chegada, Paulo Nunes tinha a certeza de que precisaria apenas de alguns jogos para reverter a situação; e de uns 30 dias para recuperar a condição física e reforçar a musculatura do joelho, que ainda doía. “O problema é que o time estava mal e o Darío Pereyra forçou a minha volta, com dez dias de treinos. Não fiz o trabalho adeqüado e voltei a sentir dor no joelho. Mas ninguém fica sabendo disso; só querem saber se você jogou bem ou não.”

Contra o Joinville, a primeira partida do Corinthians pela Copa do Brasil, já sob o comando de Luxemburgo, Paulo Nunes saiu contundido. No dia seguinte, o exame realizado no clube detectou que o joelho precisava de uma nova cirurgia, que a cartilagem estava desgastada e precisava de uma limpeza. Mas além dele, Luxemburgo só contava com Gil e Ewerthon para o ataque. Resultado: pediu para que o jogador adiasse a cirurgia para junho, após as competições.

Paulo Nunes comemorando gol contra o Botafogo de Ribeirão Preto pelo Brasileirão, em 2001 -
Paulo Nunes comemorando gol contra o Botafogo de Ribeirão Preto pelo Brasileirão, em 2001 – Renato Pizzutto/Placar

Poupado da lista de dispensa

De abril a junho, Paulo cumpriu a seguinte rotina: jogava no final de semana, o joelho inchava, bolsa de gelo logo após a partida, o tratamento prosseguia de segunda até quarta, na quinta fazia musculação, na sexta treinava normalmente no campo. “Como aconteceu no Grêmio, as pessoas me perguntavam como é que eu estava agüentando, segurando a barra. Mas eu fechei com o Luxemburgo e aceitei a situação.”

Fora de campo, pelo menos, a vida entrava nos eixos. Ele passou a morar com Liz, ver os filhos com freqüência e triunfar nos negócios: um bar temático em Porto Alegre, uma escolinha de futebol e uma loja de materiais de construção em Goiânia, outra escolinha e dois jornais de pequeno porte em Ribeirão Preto, três fazendas em Pontalina, onde o jogador quer morar quando parar de jogar futebol.

Paulo Nunes acha que por ter ajudado Luxemburgo antes seu nome não apareceu na lista de dispensas que afastou nove atletas do clube, antes do Brasileiro. Ele teve tempo para fazer a cirurgia no joelho, melhorou o condicionamento físico e ganhou a posição de titular.

Mais: virou uma espécie de líder do grupo. Ao lado de Scheidt e Ricardinho, comandou a união dos jogadores a favor de Luxemburgo e contra Marcelinho. No Brasileiro, fez três gols nos três primeiros jogos. Mas bastou sair contundido da partida contra o Juventude, depois de nova pancada no mesmo joelho – o exame realizado não constatou nenhum tipo de lesão – para o jogador ouvir outra vez da arquibancada as palavras “palmeirense bichado”. “Estou cem por cento fisicamente, fazendo gols, me dedicando ao máximo, mas não está adiantando nada. Imagina o que eu não faria se eles (torcedores) estivessem a meu favor? Quem sabe se eu fizer um gol no Palmeiras…” Quem sabe, Paulo Nunes.

André Luiz e Paulo Nunes, do Corinthians, comemorando a vitória contra o Santos, no Estádio do Morumbi, em 2001 -
André Luiz e Paulo Nunes comemorando a vitória contra o Santos, no Estádio do Morumbi, em 2001 – Renato Pizzutto/Placar

ARÍLSON DE PAULA NUNES

Nascimento: 30/10/71, em Pontalina (GO)

Carro: Cherokee 2001, placa 7777

Hobby: Cinema. “Assisto de tudo, costumo freqüentar os do Shopping Iguatemi”

Investimentos: Um bar temático, duas escolinhas de futebol, uma loja de material de construção, dois jornais, três fazendas…

Futuro: “Vou encerrar a carreira no Flamengo e virar fazendeiro”

Edilson, do Corinthians, dando uma rasteira em Paulo Nunes, do Palmeiras -
Edilson, do Corinthians, dando uma rasteira em Paulo Nunes, do Palmeiras – Rogerio Pallatta/Placar
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