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Em 1973, PLACAR apresentou Cruyff, o ‘Pelé Branco’, aos brasileiros

Estrela da Ajax (sim, grafava-se o clube como feminino) falou à revista em reportagem especial sobre o título da Liga dos Campeões

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 27 jan 2022, 11h52 - Publicado em 27 jan 2022, 08h30
Reportagem de 1973 sobre Jogan Cruyff, o craque holandês
Reportagem de 1973 sobre Jogan Cruyff, o craque holandês PLACAR/Reprodução

Pode soar absurdo para os leitores mais jovens, acostumados às facilidades do mundo sem fronteiras da era digital, mas décadas atrás, quando os campeonatos europeus não eram transmitidos no Brasil, a única forma de conhecer os craques estrangeiros era assistindo à Copa do Mundo a cada quatro anos ou lendo revistas e jornais. Em seu terceiro ano de vida, PLACAR encarou uma deliciosa aventura: enviou o repórter José Maria de Aquino e o fotógrafo Zeka Araújo a Belgrado, na então Iugoslávia (hoje Sérvia), e a Amsterdã, na Holanda, para acompanhar a sensação do Velho Continente: a Ajax (sim, na época grafava-se como substantivo feminino), do craque Johan Cruyff, já aclamado como o “Pelé Branco”.

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Primeiro, a dupla de jornalistas brasileiros acompanhou à conquista “da” Ajax da Copa dos Campeões da Europa (atual Champions League), com vitória por 1 a 0 sobre a Juventus, na capital iugoslava. Em seguida, nos Países Baixos, José Maria de Aquino, hoje com 88 anos, e Zeka Araújo, que morreu no ano passado aos 74, produziram um perfil de Cruyff, o homem que revolucionou o futebol como jogador e treinador, e até colheram algumas palavras do craque.

Na época, o ídolo do Ajax já se mostrava uma figura muito à frente de seu tempo também pela forma como geria sua carreira, preocupado com contratos e ganhos com patrocínios. Um ano depois, os brasileiros o conheceriam ainda melhor, mas de uma forma desagradável: com o show da Laranja Mecânica sobre o Brasil, na semifinal da Copa de 1974, 2 a 0, com um gol de Cruyff. Ídolo do Ajax, do Barcelona e da seleção holandesa, o eterno camisa 14 morreu em 2016, aos 68 anos.

Confira abaixo a reportagem de 1973, na íntegra:

O REI BRANCO

O negócio de europeu não-latino ter cintura dura já era

“Sem Cruyff, a Ajax seria o mesmo grande time, mas não seria o time de gênios que é.” (Kovacs, técnico da Ajax.)

“Você já o viu jogar? Ele é realmente muito bom, um craque. Às vezes parece correr na frente bola, com ela o acompanhando.” (Altafini, o Mazola.)

“Cruyff é um desses casos raros que aparecem de muitos em muitos anos, como Pelé, Di Stefano, Bobby Chariton.” (France—Football)

“É difícil, é impossível fazer esses tipos de comparações. Pelé é Pelé, Di Stefano foi Di Stefano e Cruyff é Cruyíf. É preciso vê-lo jogar para conhecer a beleza de sua arte.” (Kovacs.)

“Ele é o Pelé branco.” (Um torcedor da Ajax.)

“Ele é melhor do que o Pelé.” (Um outro torcedor da Ajax.)

Um quase Deus

Johann von Cruyff, um holandês que conseguiu mostrar ao mundo que em seu país não existem apenas jogadores de futebol com cintura dura, é o homem que tem maravilhado a Europa nos últimos anos, a maior atração onde quer  que jogue, uma espécie de Deus branco. Por ele, o Barcelona está oferecendo 1 milhão de dólares, se o mercado espanhol for aberto a estrangeiros. Para segurá-lo em seu time, como grande artilheiro, como a principal estrela, a Ajax de Amsterdã paga o que ele pede e o tem contratado por mais sete anos.

Falar com Cruyff é muito difícil. Ouvi-lo falar muito, respondendo a perguntas, é quase impossível. “Isso custa dinheiro, muito dinheiro.” (Resposta de qualquer pessoa em Amsterdã, ou mesmo fora)

O começo difícil

Do garoto humilde, muito pobre, que nasceu, cresceu e se criou perto do estádio da Ajax, frequentando o clube onde sua mãe fazia a limpeza dos lavatórios, conversando e fazendo amizades com antigos jogadores, começando no dente de-leite quando tinha apenas oito anos, passando depois para os infantis, juvenis e profissionais, desse menino humilde ao Cruyff de hoje, respeitado e adorado pelos torcedores e pela garotada que o têm como exemplo, alguma coisa mudou. Mas muita coisa continuou na mesma.

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— Eu adoro as crianças, ricas ou pobres, feias ou bonitas, todas elas. Nisso me pareço com o Pelé. Cruyff não é grandalhão, como quem não o conhece de perto pode imaginar. Tem apenas 1,70 m, pesa só 65 quilos e não engorda com as cinco refeições que faz por dia. Com a bola nos pés, correndo de um gol ao outro do campo, controlando-a com passes curtos, com fintas suaves ou com embaixadas, ele em nada lembra os gringos de cintura dura. É um sul americano de cabelos claros, capaz de entrar, como ídolo, em qualquer um dos grandes times brasileiros.

Quando a Ajax está em campo, mesmo que não haja jogo, os estádios não ficam vazios, com muitos torcedores que querem ver Cruyff, nem que seja apenas em treino. Depois de uma bela jogada, quando ele para e, timidamente, parece olhar para O primeiro garoto a bater palmas, tem-se a impressão de que os aplausos são dirigidos a um grande maestro que acaba de reger com perfeição um concerto muito difícil.

— Não penso deixar a Ajax, nem mudar de país. Para continuar com este futebol que lota os estádios, serve como atração garantida e, principalmente, lhe dá muitas vitórias, a Ajax, na última reforma de contrato, teve que se sujeitar a todas as exigências de Cruyff.

— Assino contrato por mais oito anos e aceito continuar na Ajax porque gosto, mas quero ganhar tanto dinheiro que aos trinta anos serei um milionário — contam que Cruyff falou assim há menos de um ano.

E a Ajax aceitou, sem brigas ou pedidos de diminuição. Quanto ganha Cruyff, por mês ou por ano? Isso parece ser um segredo que ninguém tem coragem de tentar descobrir.

— Um dos grandes segredos do sucesso da Ajax — explica um antigo jogador do clube, hoje dono de uma loja que todos os atuais jogadores frequentam — está na maneira como ele paga, por fora, alguns dos seus principais jogadores. Como aqui as taxas são muito elevadas, o clube, quando joga fora, não traz o dinheiro para cá, não sofrendo assim os pesados descontos. É com esse dinheiro que ele vem mantendo um grande time. E é por isso que ninguém sabe, ao certo, quanto ganha Cruyff ou qualquer outro.

Frankfurt, 1974: Johan Cruyff com a mulher e o filho
Johan Cruyff e família, na década de 70 Gamma/VEJA

É com todo o dinheiro que dizem ganhar na Ajax, com o muito que recebe fazendo publicidade para diversas grandes empresas, apresentando pilhas, carros e até bolacha, que Cruyff mudou-se do bairro perto do clube — um bairro de gente pobre, de operários — para viver numa casa confortável, grande e sossegada, à beira de um lago, quase 50 quilômetros distan te do centro de Amsterdã. Ali, ele pesca, passeia de barco. Quando está em casa, fica brincando com suas duas filhinhas. Chantal, a mais velha, de dois anos, está sempre em seu colo. Com elas e Danny, sua mulher, loira, bonita e muito rica, ele divide o tempo de folga. A Shoetique, sua loja de calçados na rua Kinkerstr número 12-A, em Amsterdã, fica por conta do irmão.

—Seu sogro e empresário “é um grande negociante de diamantes e o responsável pela transformação da imagem de Cruyff. No escritório da Coster-Diamonds ele com trola não apenas o dinheiro que entra com as vendas de diamantes, mas também toda publicidade que alguém queira ter com uma mensagem de seu genro. Até para fotos ou entrevistas especiais pedem antes que se fale com o sogro do jogador.

Sem mascara

Aos 26 anos de idade (nasceu no dia 25 de abril de 1947), casado há mais de três, garantido financeiramente por todos os lados, fora de campo Cruyff não parece o monstro sagrado que fizeram dele, nem um mascarado disposto a só falar por bom dinheiro ou a vender caro uma foto bem posada. Seu rosto fino, o cabelo caindo sobre a testa, a fala mansa, a paciência ao posar para os fotógrafos de suas publicidades antes dos treinos mostram mais um homem simples, que o povo define como uma pessoa comum, sem máscara, capaz de falar, brincar, sorrir, fazer tudo isso sem qualquer exagero. Seu Citroên-Maserati, um carro muito caro, é apenas uma conseqúência do seu sucesso. Junto ao espelho retrovisor está a mesma chuteirinha que, dourada ou de couro, os jogadores do mundo inteiro gostam de ter.

Jogo aberto

Sem muito estudo, sem ter ido à universidade, Cruyff nunca tentou esconder a infância humilde. Há pouco tempo, filmou a sua vida e os torcedores da Ajax, principalmente, viram o filme diversas vezes. Os que o conheciam dizem que nada de importante foi es condido. Se um dia ouvisse alguém dizer que ele só se casou com a bela e rica Danny porque é um jogador de futebol fora de série e porque seu sogro é um fanático torcedor da Ajax, por sua simplicidade. na certa concordaria.

— Se me considero um grande jogador? Claro que sim. Treino muito, procuro me aperfeiçoar para isso e acho que consigo. Capitão do time este ano, ganhador em 72 da Bola de Ouro, que o France Football dá ao jogador considerado como o melhor do ano na Europa, quase repetindo a conquista este ano (feito que só Di Stefano conseguiu) ganhando 72 votos contra 81 de Beckenbauer — o vencedor — e 79 de Múller e Netzer, Cruyff é realmente um craque. Tem sede de gol, chuta muito bem com os dois pés, de qualquer lugar e distância, forte e colocado. Não tem vergonha de errar o gol num chute de primeira, e quase não erra.

Não foi o artilheiro da Ajax no último Campeonato Holandês, mas sempre é muito importante dentro do esquema de jogo que Kovacs arma para ganhar dos adversários. Dos 102 gols que a Ajax marcou no Campeonato, dezesseis foram de Cruyff, ficando atrás de Repp, com dezessete, mas os artilheiros foram de outros times — Brokamp (MVV) e Jansens (NEC), com dezoito cada um.

Melhor que Pelé?

Este é Cruyff, um jogador que na Europa é apontado, no mínimo, como um dos melhores atacantes do mundo. Um Pelé branco, ou melhor do que Pelé, levando em consideração o grau de paixão do torcedor da Ajax.

Johan Cruyff
Johan Cruyff, alenda da Laranja Mecânica Getty Images/VEJA
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