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O Comentarista do Futuro

Tem vaga pro ‘Estrogonofe’?

Comentarista vai a 1966, último jogo do ‘Ataque dos Sonhos’ (Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe), e imagina escalar craque do seu time de botão

Por Claudio Henrique @comentaristadofuturo Atualizado em 28 dez 2021, 19h00 - Publicado em 28 dez 2021, 17h24

Apolo; Murilo; Curumim; Oscar e Estrogonofe: impossível não ter na cabeça, de cor, a imortal linha de ataque do meu time de botão de mesa. Sei que para vocês, queridos leitores e leitoras de 1966, essas palavras, ditas assim, significam muito pouco ou nada bem mais para a segunda opção , até porque ainda estão por vir os anos de glória desses cracaços, entre 1975 e 1990. Já para mim, são cinco nomes que, juntos, soam como música. Ter na ponta da língua, podendo responder de bate-pronto, a linha de frente dos times de futebol (o nosso ou outros) é uma das delícias que, sinto informar, não existirão no próximo século. Em 2021, de “quando” venho, sequer a plêiade de atacantes da seleção brasileira seremos capazes de recitar. Daí ter se potencializado a emoção de testemunhar, ontem, a goleada de 7 x 1 sofrida pelo Stade D’abidjan/CIV, naquela que, creiam-me, foi e será a última partida do ‘Ataque dos Sonhos’ do Santos… Preciso dizer os nomes?

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Se você passou a última década no ‘Mundo da Lua’, proeza que só realizaremos daqui a 3 anos, e não acompanhou o Bi da Libertadores e do Mundial de Clubes ou os seguidos triunfos nos campeonatos Paulista e Nacional, vou te ajudar: ‘Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe’. Parece uma palavra só, não são cinco. A gente pronuncia com a mesma facilidade e firmeza de quem lista as sete notas musicais, os dias da semana ou as letras da Jovem Guarda. Com o passeio de ontem, aqui na África, são 99 jogos do quinteto como titular, somando 295 gols (90%) dos 327 que o Santos fez neste período com os craques. Foram 71 vitórias –76,6% de aproveitamento (no futuro teremos mania dessas estatísticas percentuais) –, 19 derrotas e apenas 9 empates. Com eles em campo, gol tem! 

Meu 'Fab 5', da esq. para dir: Estrogonofe, Oscar, Curumin, Murilo e Apolo
Em destaque, o craque tricolor Estrogonofe Claudio Henrique/Arquivo pessoal

Não consta neste levantamento o empate, 2 x 2, com a Lusa em 19 de abril de 1960, pois Mengálvio ainda estava na reserva e só entrou com a bola já rolando. Mas dois dias depois, contra o São Paulo, já era dele a vaga e teve início a chuva de gols do ‘Ataque dos Sonhos’ – alerta de ‘spoiler’: este apelido vai ressurgir no futebol daqui a uns 30 anos, no Flamengo, mas dar menos alegrias e mais ‘dor de barriga’, aguardem. A série de gols desta linda história foi aberta por Coutinho no empate em 1 x 1 com o tricolor paulista. Dois jogos adiante, no Parc du Princes (Paris) – lembram? – veio a primeira vitória da trupe, com tentos de Coutinho (3), Pelé e Pepe, abatendo o Stade de Reims por 5 x 3, resultado mais com a cara dos placares do Peixe com este ataque. Tipo 10 a 2, 8 a 3, 8 a 2… Esses são ‘os cara’! A propósito, vendo ontem, de perto, a forma como avançam envolvendo a defesa do oponente, sempre com a bola no chão, tenho que reconhecer: vivo já fosse, nem ‘Estrogonofe’, o craque do meu time de botão (com dadinho, claro!), teria vaga nesse ataque. 

Voltando à realidade, a História do ‘Ataque dos Sonhos’ vai registrar que ontem, nesta quente tarde de domingo africana, teve choro do Pelé. Mais um. Coração mole tem o Rei, a gente sabe (talvez esconda ali uma improvável ‘bola murcha’). Não havia mesmo como segurar a emoção diante da festa e a devoção do povo da Costa do Marfim aos gritos de ‘Le Roi! Le Roi!’. Vendo a confusão e as pauladas de cassetete da polícia local, o técnico Lula sacou Pelé do carro aberto que o levaria no trajeto até o estádio e enganou a galera com um jornalista brasileiro, Odair Pimentel, negro como o “Negão” – rezará a lenda, até 2021, quando retornarei após confirmar a história com meus olhos. Já no vestiário, o destemido “coleguinha” repórter, também chorou, junto ao verdadeiro Deus da bola. Uma ‘tabelinha’ de lágrimas. ‘A la’ Pelé e Coutinho.   

A festa foi tamanha que, durante o jogo, uma banda, posicionada ao lado do gramado, não parou um segundo de tocar. O que parou foi a Costa do Marfim! É sempre assim, pelos quatro cantos do Planeta, sempre que chega o “Santos de Pelé”. Mas o que seria da Branca de Neves sem os Sete Anões? “Não faria tantos gols na minha carreira não fossem esses craques ao meu lado”, dirá Pelé eternamente. E qual o segredo desta ‘química’ de entrosamento dos cinco atacantes? Todos sempre darão a mesma resposta: “a amizade”.

O primeiro a chegar foi Pepe, em 1954, alçado das divisões de base da Vila Belmiro. Dois anos depois, foi a vez do gaúcho Dorval, contratado do Força e Luz, time de Porto Alegre, e Pelé, de Bauru para a base santista. Os dois viraram titulares em 1957. Mais um ano e nova estrela jovem emerge, Coutinho, juntando-se ao grupo com 16 anos. O catarinense Mengálvio, em 1960, veio do Aimoré-RS, fechando o caixão – dos adversários.

Mas tudo que é bom um dia acaba, até a Panair do Brasil, né? Triste é saber que, mesmo gravando com letras de ouro seus nomes na história do Santos Futebol Clube vão pendurar a chuteira somando mais de 2 mil gols pelo time , os integrantes do ‘Ataque dos Sonhos’, acreditem, no futuro chegarão a ser barrados na Vila e proibidos de frequentar remodelados camarotes do estádio, mesmo batizados com seus nomes. 

Mas ainda é possível evitar descasos assim. Vejamos, por exemplo, como os ingleses tratam seus ídolos. Recentemente, a Rainha da Inglaterra condecorou os quatro Beatles. O 7 x 1 de ontem (placar que guarda em si uma ironia que manterei em segredo) tem alguma similaridade com um show que, em breve, acontecerá num telhado londrino, tornando-se a última apresentação pública do ‘Fab Four’ (xiii, falei…). O amistoso na África, igualmente simples, sem nenhuma pompa ou circunstância, foi o adeus a um ataque único na história do futebol. 

O “Fab Five’ da bola!

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Apolo; Murilo; Curumim; Oscar e Estrogonofe
Meu ‘Fab 5’, da esq. para dir: Estrogonofe, Oscar, Curumin, Murilo e Apolo Claudio Henrique/Arquivo pessoal

FICHA TÉCNICA

SANTOS 7 X 1 STADE D’ABIDJAN/CIV

Data: 9 de janeiro de 1966

Local: Estádio Félix Houphouët-Boigny, em Abidjan, na Costa do Marfim

Renda: US$ 90 mil ou cerca de CR$ 200 milhões (recorde no continente africano)

Público: 30 mil pessoas

SANTOS: Gilmar (depois Claudio); Mauro (Oberdan) e Geraldino; Carlos Alberto, Orlando e Lima (Zito); Dorval, Mengálvio (Lima), Coutinho (Toninho), Pelé e Pepe (Abel)

Técnico: Lula

Gols: Lima (abriu aos 10’); depois Coutinho, duas vezes; Pelé; Pepe (2 seguidos também, o segundo deles ‘Olímpico’, cobrando escanteio); Mea (descontou pro D’abidjan); e Pelé (de pênalti)

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