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O Comentarista do Futuro Ele volta no tempo para dar aos torcedores (alerta de!) spoilers do que ainda vai acontecer

Os ‘assuntos proibidos’ do futebol

Volta da Portuguesa inspira Comentarista a ir até 2013 investigar queda misteriosa por escalação irregular e protestar contra os ‘arquivos secretos’ da Bola

Por Claudio Henrique (@comentaristadofuturo) Atualizado em 10 Maio 2022, 14h43 - Publicado em 10 Maio 2022, 14h41

Jamais perderei minha indignação diante da prerrogativa dos Governos (inclusive os que se dizem ‘democráticos’) de determinarem que certos documentos são ‘ultrassecretos’ e, por isso, devem ficar sob sigilo – alguns por 100 anos ou até pela eternidade! Na minha cabeça de cidadão comum, só dois raciocínios produzem essa excrescência: a) Tem ‘coisa’ ali que pode prejudicar e/ou incriminar os que estão lá, no poder; b) Os governantes acham que nós, reles normais – o chamado ‘povo’, do qual ‘todo o poder emana’ –, somos uma massa de imbecis que não têm a capacidade de processar certas informações, aptidão exclusiva de uma casta soberana. Podem cravar: ‘letra c): As duas alternativas estão corretas’. Curiosamente, além de fatos históricos e investigações geralmente invocando Política e/ou Igreja, outra área em que verificamos muitos ‘arquivos secretos’ é o Futebol. Misteriosas e suspeitas passagens do Mundo da Bola são atiradas, de forma oficiosa ou teatral, às gavetas do “Deixa pra lá!”. E não apenas porque, como sabemos, nos gramados tudo vira lenda e folclore. Também tem ‘letra a)’ e ‘letra b)’ nesses casos. Um exemplo que dou a vocês, caros leitores e leitoras de 2013, é o empate de ontem, 0 x 0, entre a Portuguesa e Grêmio, no Canindé. Embora aparentemente insosso, o jogo se tornará alvo e cenário de uma das mais obscuras passagens do esporte no Brasil. Mas cujas suspeitas, em 2022, de ‘quando’ venho, já estarão praticamente esquecidas (e arquivadas pela Justiça Esportiva). Calma, fiquem tranquilos, vou explicar tudo: para o Comentarista do Futuro não existe informação que não deva ser de conhecimento de qualquer ser humano. Bonito isso…

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O imbróglio é tão rocambolesco que tive dificuldades, inclusive, de escolher o jogo ideal para visitar com a Máquina do Tempo, pois são dois os lances capitais da história, nenhum deles de gol. Os fatos sinistros, incriminatórios ou não, são duas SUBSTITUIÇÕES, uma no confronto que testemunhei no Canindé e outra na partida entre Flamengo x Cruzeiro, disputada na véspera, sábado 7. Antes de fornecer mais detalhes, preciso e sinto informar aos torcedores lusitanos que o empate de ontem, ao contrário do que ‘estão a dizeire’, não foi garantia de permanência na Primeira Divisão do Brasileiro. Foi não… A Portuguesa vai cair! É sério! Pior que isso: o rebaixamento será apenas o primeiro ato de uma década de quase extinção do tradicional clube, que vagará como moribundo pelos mais humildes patamares do futebol nacional, só não indo parar abaixo da Série D porque esse ‘subsolo’ não existe.

Vocês hão de ler amanhã nas manchetes: Héverton, jogador da Portuguesa que entrou em campo aos 13’ do Segundo Tempo, estava em situação irregular, suspenso, o que custará 4 pontos ao clube, indo então à 17º posição, ou seja, rebaixado. Por conta disso, não se salvará do descenso apenas o Fluminense, primeiro entre os quatro desafortunados da temporada, mas também e principalmente o Flamengo. Explico. O rubro-negro perderá iguais 4 pontos, por motivo idêntico: escalação irregular de atleta. Mas que deu-se quase 24 horas antes. Tempo que, muitos vão sustentar, o time carioca teve para mexer alguns pauzinhos que o livrassem da Série B. Negociando a escalação de Héverton, por exemplo. Será?

Tenho ojeriza a ‘Teorias da Conspiração’ em qualquer campo, não apenas no de quatro linhas. Em menos de 10 anos, todos vocês, queridos leitores e leitoras de 2013, estarão familiarizados com um termo que será uma das piores pragas deste início de século: ‘fake news’. Será uma prática infelizmente comum no dia-a-dia: criar notícias falsas e espalhar, com a ajuda de redes sociais, para formar opiniões equivocadas ou, no mínimo, confundir e gerar dúvida na população. Crescerá muito também a obsessão nacional de achar que tudo que acontece de ruim no Brasil é ‘culpa da Globo’. Cito isso porque, acreditem, a emissora será apontada como a cabeça por trás de toda a suposta tramoia, preocupada em evitar a queda do Flamengo para a Segundona, o que reduziria seu faturamento com a transmissão dos jogos do Brasileiro. Balelas assim chegam a ser cômicas e, de certa forma, funcionam pra mim como sinal de que talvez tudo não tenha mesmo passado de um erro grotesco da comissão técnica do rubro-verde paulistano. Mas outros ‘lances’ no tabuleiro da queda da Lusa (repito, vai cair!) atiçam a imaginação e o raciocínio lógico de qualquer detetive amador. Vou dar mais detalhes para que vocês possam tirar suas conclusões. A minha já tenho: Coronel Mostarda, com o Candelabro… na Biblioteca!

Manuel da Lupa, então presidente da Portuguesa, no julgamento do clube no caso Héverton na sede do STJD, no Rio de Janeiro
Manuel da Lupa, então presidente da Portuguesa, no julgamento do clube no caso no STJD – Daniel Marenco/Folhapress/VEJA

Em 2015, um coronel reformado da PM carioca, Paulo Ricardo Paúl, tricolor, lançará um livro reacendendo os holofotes sobre esses dias que estamos ‘a viveire’. O autor será taxativo na tese de que tudo que se deu nesse fim de semana e nos próximos dias e meses de investigação foi um teatro para escamotear a verdadeira causa do que chama de ‘Operação Abafa’: livrar o Flamengo da queda para a Segunda Divisão, fato inédito em sua história (até 2022, anotem, continuará na lista dos ‘times grandes’ jamais rebaixados, junto com Santos e São Paulo). Além de detonar os caminhos de investigação seguidos pelo Ministério Público, o Coronel Paúl vai apresentar uma pesquisa que fez, de próprio mouse, sobre notícias veiculadas por sites esportivos na semana dos jogos. E mostrar que boa parte da mídia dá alertas sobre a impossibilidade legal do lateral André Santos ser escalado mas cala-se após o jogo (com o atleta em campo), voltando ao assunto somente depois da denúncia do TJD. Xiii…

Quem quiser atestar a informação pode ir agora mesmo à internet e visitar as páginas de Futebol… Eu verifiquei, mas não me leva à conclusão alguma, pois, como se sabe, nas redações de esporte é mais ou menos assim: em cada dez jornalistas, seis são flamenguistas ou corintianos e, não me perguntem o porquê, três são Botafogo ou Santos. O último profissional do time, no Rio ou em São Paulo, é sempre aquele ‘velho homem da imprensa’ que escapou dos ‘passaralhos’ (demissões em massa) e ainda vibra e chora com os gols do América ou da Juventus. Ou da Portuguesa, claro.

O livro não vai dar em nada, até porque no mesmo 2015 o processo será devidamente arquivado, sem muitas explicações, por falta de provas, blábláblá… E este Brasileirão de 2013 – que levou 5 milhões, 681 mil e 551 torcedores aos estádios do Brasil e provocou 24 demissões de treinadores nos 20 clubes disputantes – terminará com o título do Cruzeiro (campeão desde a 34ª rodada) e o descenso de Náutico (último colocado), Ponte Preta, Vasco da Gama e… Portuguesa! Um rolo danado! Que nunca será totalmente esclarecido. E que acontece justo no ano em que, por conta da Copa das Confederações, não tivemos rodada final composta por clássicos regionais – o que dificultaria qualquer armação. Como já pincelei linhas acima, no farto infortúnio que o torcedor lusitano terá que digerir nos próximo anos, este rebaixamento, creiam-me, é só uma ‘entradinha’, um bolinho de bacalhau do suplício que está por vir.

Portuguesa conquistou o título e coroou o acesso à elite -
Portuguesa conquistou o título e coroou o acesso à elite – Alexandre Battibugli/Placar

Mas falemos de coisas boas! De vinho do Porto! De uma bela posta do pescado ‘à Lagareira’! Deixei 2022 dias após conquista que levará, após 7 anos de ausência, a centenária Portuguesa (fundada em 14 de agosto de 1920) de volta ao Paulistão Série A1, em 2023. O acesso foi alcançado após empate com o Rio Claro em 1 a 1 que lhe deu o título da Série A2. Figurando ainda no impensável 138º lugar do ranking nacional de clubes, mas habilitando-se também a jogar, no segundo semestre de 2022, a Copa Paulista. Se vier a vencer ou ser vice, voltará finalmente a disputar a Série D no futebol brasileiro, de onde estará alijada desde 2018. E ninguém sequer anotou a placa!

De hoje até 2022, serão poucas alegrias. Nenhum título de expressão se somará às conquistas do Torneio Rio-São Paulo em 1952 e 1955 (à época, o único campeonato interestadual do Brasil, espécie de precursor do Brasileiro), aos três triunfos no Campeonato Paulista (o último em 1973), ao honroso vice-Campeonato Brasileiro de 1996 e à taça erguida em 2011 na Série B, com aquele time que foi comparado ao Barcelona, ganhando o apelido de ‘Barcelusa’. É mesmo um clube cuja história merece respeito. A Portuguesa é pé-quente quando o assunto é Seleção: já cedeu 6 jogadores para disputar 4 copas do mundo (1954, 1958, 1962 e 1970), três delas terminando com triunfos nacionais. Com o manto rubro-verde já brilharam craques como a geração de ouro dos anos 50 – que tinha Djalma Santos, Julinho Botelho, Brandãozinho, Ipojucan, Simão e Pinga – e, mais tarde, Leivinha, Marinho Peres, Enéas, Roberto Dinamite, o saudoso Dener e Zé Roberto – esse, saibam, ainda demora a pendurar as chuteiras, e vai ser aqui, no Canindé. Diz a lenda que a lista poderia ter ainda mais relevância se o clube não decidisse recusar, em 1975, um jovem (tinha 15 anos) e promissor talento oferecido por US$ 300 mil pelo empresário Juan Figger: Diego Armando Maradona.

No passado, o clube já tinha sido vítima de má sorte ou má intenção naquele erro de aritmética básica do árbitro Armando Marques, na final do Paulista de 1973, lembram? Invicta na competição, teve que dividir o título com o Santos, tendo ainda um gol legítimo de Cabinho anulado inexplicavelmente pelo juiz – mas é outro assunto sobre o qual pouco se fala. O silêncio é uma estratégia corriqueira no mundo do Futebol, espécie de 4-4-2 para vencer escândalos e momentos pra lá de embaraçosos. Dá para tapar os olhos, por exemplo, para a ‘Máfia do Apito’, denunciada pelo jornalista André Rizek, na revista Veja, em 2005? Não foi noticiado com o mesmo destaque o capítulo final da investigação, em que os principais envolvidos, como o empresário Nagib Fayad e os árbitros Edilson Pereira de Carvalho e Paulo José Danelon, foram banidos do futebol mas, na ação penal por estelionato, saíram ilesos. O Tribunal de Justiça de São Paulo concluiu que nenhum crime previsto em lei fora cometido. É assustador pensar que mutretas assim, para manipular resultados, aconteceram no futebol brasileiro (haviam provas de esquemas na Libertadores, no Campeonato Paulista e nas séries A e B do Brasileirão) e que, portanto, podem ainda estar acontecendo ou voltarem a acontecer. Afinal, nunca é demais lembrar, maracutaia semelhante já viera a público em 1997, quando a Globo divulgou gravações criminosas do senhor Ivens Mendes, então presidente da Comissão Nacional de Arbitragem de Futebol (Conaf), órgão encarregado de escalar árbitros para as competições da CBF. Assim como na ‘Máfia do Apito’, foi comprovado que houve venda de resultados de jogos e ninguém jamais foi preso. Alguém ainda toca neste assunto?

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Um jogador peruano que dá entrevista confirmando que a Ditadura argentina pagou para alcançar os 6 x 0 na Copa de 1978? Um famoso craque pego num motel do Rio dando calote em três travestis? São e serão muitos os ‘assuntos proibidos’ do futebol. E, sinto informar, no Brasil de 2022 seguirá abarrotada a gaveta do ‘Deixa pra lá!’. Não apenas no futebol. Em 2021, por exemplo, um futuro Presidente vai impor sigilo ao processo que absolverá um general, ex-ministro da Saúde, por sua participação em ato político a favor da reeleição do próprio ‘legislador’.

Se a Justiça pode ser amordaçada, é fácil supor que a Portuguesa não obterá sucesso em nenhuma de suas tentativas jurídicas de reverter o rebaixamento, tanto na Desportiva como na Comum. Aliás, apelos aos Tribunais também serão feitos por Flamengo e Vasco, rebaixado pela segunda vez em sua história (alerta de ‘spoiler’: até 2022, já serão 4 quedas). O presidente da Lusa vai demorar a falar sobre o tema, e quando o fizer resumirá tudo numa ‘grande cagada’, erro da comissão técnica. De fato, coincidências acontecem. É ou não curioso, por exemplo, que as duas partidas decisivas no rolo tenham envolvido justamente o campeão e o vice-campeão Brasileiro, Cruzeiro e Grêmio? O atleta Héverton vai sempre jurar inocência. Ainda dará uns pinotes em clubes como Paysandu e Caxias, mas, amargurado com o futebol, vai encerrar a carreira aos 30 anos, tornando-se dono de padaria – ramo em que será acusado de furto e estelionato pelos sócios.

Sobre o rubro-negro, suspeito do episódio, registre-se um álibi importante: na noite de sábado, enquanto André Santos corria atrás dos atacantes cruzeirenses, Héverton, pivô da reviravolta, já estava jogando sinuca na concentração da Portuguesa. O Fluminense também vai sofrer com o episódio. No futuro, volta e meia ainda ouviremos pessoas e até jornalistas imputando ao tricolor carioca a culpa pela derrocada da Lusa. Em grande parte, talvez, por já carregar nas costas um escape da Segundona, em 1997. E qual foi mesmo o motivo de Fluminense – e Bragantino – serem mantidos na Série A, naquela famosa ‘virada de mesa’? Aquele já citado escândalo da venda de resultados com compra de juízes. Silêncio demais dá nisso: uma ‘mesa’ puxando a outra…

PARA VER LANCES DO JOGO

 FICHA TÉCNICA
PORTUGUESA 0 X 0 GRÊMIO

Competição: Campeonato Brasileiro de 2013 (última rodada)
Local: Canindé, em São Paulo
Data: 8 de dezembro de 2013 (domingo)
Horário: 17h (de Brasília)
Público: 4.539 pagantes.
Renda: R$ 90.810,00.
Árbitro: Ricardo Marques Ribeiro (MG)
Assistentes: Marcio Eustáquio S. Santiago (MG) e Guilherme Dias Camilo (MG)

PORTUGUESA: Lauro; Luis Ricardo (Carlos Alberto), Valdomiro, Lima e Rogério; Ferdinando, Correa, Moisés e Wanderson (Héverton); Diogo (Willian Arão) e Henrique. Técnico: Guto Ferreira

GRÊMIO: Dida; Pará, Rhodolfo, Bressan e Alex Telles; Souza, Ramiro e Zé Roberto; Kléber, Vargas (Maxi Rodríguez) e Barcos. Técnico: Renato Gaúcho

Cartões amarelos: Diogo e Henrique, da Portuguesa; Vargas, do Grêmio

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