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O Comentarista do Futuro Ele volta no tempo para dar aos torcedores (alerta de!) spoilers do que ainda vai acontecer

O título brasileiro mais difícil de comemorar

Cronista hesita, mas decide voltar a 1992 e ver Flamengo 2 x 2 Botafogo, final marcada pela queda da arquibancada que matou torcedores no Maracanã

Por Claudio Henrique @comentaristadofuturo Atualizado em 2 ago 2022, 12h54 - Publicado em 2 ago 2022, 12h42

Pare e pense: se lhe fosse dado o poder de retornar ao passado e alterar três coisas ou decisões que tomou na vida, quais seriam? Se nunca antes fez este exercício de autoanálise, recomendo. São dias como o de ontem que me trazem dor e incômodo por ser um Viajante do Tempo que, pelas regras de usufruto da Máquina que me transporta, não tem permissão para agir e mudar fatos já ocorridos, seja o placar de um jogo ou, bem mais grave, a morte de pessoas num acidente. Por isso, relutei muito em processar na minha geringonça mágica as coordenadas deste domingo de final do Campeonato Brasileiro deste ano, entre Flamengo x Botafogo. Como vim do futuro, de 2022, claro que tinha conhecimento da tragédia que ocorreria 20 minutos antes de a bola rolar. E não poderia fazer nada, mesmo estando presente no estádio em dose dupla, pois o meu ‘eu’ de 30 anos atrás também assistiu de perto à triste cena da queda de torcedores na arquibancada. O saldo final, sinto informar, queridos leitores e leitoras, será de três vítimas fatais, além dos 82 feridos. Se foi correta ou não a realização da partida após o acidente é uma dúvida que persistirá daqui a três décadas. Assim como não tenho resposta sobre se os ‘artistas do espetáculo’, os jogadores, estavam ou não em condições emocionais de entrar em campo e disputar um título. Sei que entraram, jogaram, 11 contra 11, e o empate de 2 x 2 deu a taça ao rubro-negro. Uma conquista improvável, pois o time comandado pelo ‘Maestro’ Júnior estava longe de ser o favorito, mas que pelas circunstâncias ficou meio difícil de comemorar, certo? Errado: parabéns, Flamengo! Campeão Brasileiro de 1992!

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O futebol, a gente sabe, tem essa mania de achar que é um mundo à parte da vida cotidiana de todos nós. Ainda se falará disso no próximo século. Mesmo assim, duvido muito que em 2022 uma partida de futebol fosse realizada após um incidente de tamanha gravidade. Uma das notícias boas do Futuro é que atitudes e decisões serão questionadas e cobradas de forma mais incisiva e plural, pois já teremos a colaboração de uma ferramenta perigosa mas que tem lá seus predicados: as ‘redes sociais’, aguardem. Uma das notícias ruins é que daqui a três décadas estaremos vivendo uma época violenta no nosso Futebol, com sucessivos episódios de apedrejamento de ônibus dos times na chegada aos estádios, invasão de Centros de Treinamentos – os ‘CTs’, assim chamaremos as dependências (que serão mais robustas) dos clubes – e até invasões de campo para agredir jogadores, com chutes ou facas! Arquibancadas lotadas que não resistem e vão abaixo com torcedores? Acreditem se quiser: teremos outra vez, em 2000, já aviso, em nova final do Campeonato Brasileiro: Vasco x São Caetano (creiam também, o ‘Azulão’ do interior paulista vai chegar lá!). Coisas positivas e negativas acontecem, e assim sempre será, o problema é que a mídia e nossos olhos dão mais atenção às ‘derrotas’, não apenas nos gramados.

O mundo tem sua cadência particular e singular para ir evoluindo, num vaivém que dá a impressão de estarmos andando pra trás, mas não estamos – penso assim. Uma malemolência como a que o grande personagem deste Brasileirão, Júnior, transbordou ao reger, aos 38 anos, veteranos e também a geração de jovens craques do rubro-negro carioca. Como se sabe, muitos dos garotos que há dois anos deram o primeiro título da Copinha São Paulo ao Flamengo mostraram seu valor na jornada do título no Brasileiro, como Djalminha – que, sinto informar, vai brilhar com outros escudos no peito. Adianto também que a performance de Júnior no meio-campo do Fla levará o ex-lateral-esquerdo ainda este ano de volta à Seleção, da qual se despedirá com 74 jogos e seis gols.

Outra boa nova que trago, especialmente aos atletas, é que jogadores com idade de 35/40 anos ainda jogando em alta performance serão comuns no Amanhã. Já entre as ‘bad news’ que – alerta de ‘spoiler’! – posso revelar, em especial aos flamenguistas, é que esta equipe campeã será tida como a última do atual período de ouro na história do clube, iniciado em 1979, na visão de alguns, ou em 1989, para os mais criteriosos. Mas conforto vocês, rubro-negros, adiantando que um esquadrão ainda mais poderoso trará seguidas e portentosas alegrias lá pelos anos 2019, 2020… Anotem.

O Flamengo deste Brasileiro de 1992, sabemos, nem é um time tão bom assim. Com sérios problemas financeiros, que fizeram Vanderlei Luxemburgo deixar a Gávea dizendo que não tinha bolas pra treinar, o clube chegou à final aos trancos e barrancos, com generosas pitadas de sorte e circunstâncias – quem aí já tinha visto e ouvido a torcida do Vasco gritando, em São Januário, como na última rodada do campeonato, quando pediu que o time entregasse o jogo, o que impediria o Flamengo de ir à final? Os favoritos ao título, desde o início da disputa, eram o São Paulo (atual campeão, que andou escalando reservas por conta da Libertadores), o Vasco (de Edmundo e Bebeto) e o próprio Botafogo, que brilhou no torneio mas não se encontrou nas duas partidas derradeiras – e ainda foi apunhalado pelos espetos do churrasco que Renato Gaúcho fez semana passada, um dia após a derrota do alvinegro (3 x 0), primeiro confronto da decisão. ‘Touché’… A torcida alvinegra jamais o perdoará. Tanto assim que após pendurar as chuteiras, em sua futura e vitoriosa carreira de técnico, o hoje atacante comandará todos os ‘grandes’ do Rio, exceto o clube da Estrela Solitária.

Mas voltemos ao que teve de bom: Júnior. A volta ao Flamengo – após as temporadas no Torino e no Pescara da Itália – sacramenta o seu novo apelido: ‘Vovô Garoto’, que com o Tempo vai até superar o mais conhecido, ‘Capacete’. Foi uma exibição de gala a que este ‘cracaço’ de bola deu este ano, reafirmado pelo gol de falta com que abriu o placar ontem. Com os 3 x 0 da primeira partida e a necessidade de um empate para o título, quando Júlio César assinalou o 2 x 0 no placar parecia que a disputa estava decidida. Mas o Botafogo, que segue jogando bem, alcançou nos minutos finais uma igualdade que espelha mais o que foi o confronto. É a segunda vez que dois times do Rio decidem a principal competição do país – a primeira foi aquele Fluminense (campeão) x Vasco de 1984 – e sinto informar que última, pois daqui a 11 anos adotaremos o sistema de pontos corridos e nunca mais teremos um jogo decisivo com este grau de emoção. Se a mudança será boa para o Futebol? É aquele vaivém da evolução do mundo que falei, lembram? Sei lá… Mas sempre haverá os que criticarão o novo formato.

Eram bem mais de 122 mil pessoas ontem no Maraca, inflado pela multidão que pulou os muros ou subornou fiscais e PMs da entrada do estádio – isso ficará público a partir de hoje. Para atender esta multidão no caso de algum acidente, seis médicos e oito enfermeiros. Nos próximos dias, um laudo realizado pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli vai concluir que as causas da queda da grade foram o excesso de carga, o desgaste do material e falhas na instalação da estrutura de alumínio. Mas até 2022, vocês devem supor, ninguém será penalizado pela tragédia. Nem mesmo a Indústria e Comércio de Alumínio Ltda. (Incal), empresa responsável pela instalação das grades de proteção, obra de 1979, e que comprovadamente, deixou de instalar ‘contraporcas’ (uma segunda porca que se coloca sobre a primeira). Se fossem as estruturas antigas, de ferro, certamente não teriam cedido, e não teríamos pessoas desavisadas caindo 8 metros abaixo sobre… Outras pessoas. Esta obsessão contemporânea pelo alumínio, definitivamente, é meio que ‘porca’, não?

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E pensar que tudo isso começou por causa de uma (sempre) desnecessária e idiota briga de torcedores do mesmo time, o Flamengo, na arquibancada. Veio a ‘avalanche’ de gente pra cima do gradil, que rompeu numa extensão de 12 metros, virando precipício mortal. O caso se tornará ainda mais escandaloso daqui a uma semana, quando o jornal ‘O Globo’ descobrir e noticiar que a Suderj, órgão público responsável pelo estádio, sabia dos riscos há dois anos, desde que engenheiros da UFRJ fizeram o alerta e recomendaram que os três primeiros degraus da arquibancada fossem interditados. O único que sofrerá alguma punição pelo acidente é o Maracanã, que, antecipo a vocês, ficará interditado por sete meses (205 dias), voltando com mais refletores e assentos na ‘arquiba’, num teste que vai antecipar mudanças bem mais drásticas que o destino reserva para o ‘Maior do Mundo’. No futuro, a propósito, ele não o será mais – outro retrocesso no tal vaivém do avanço da Humanidade.

Podemos considerar que outro punido será o torcedor do Rio de Janeiro, que no segundo semestre terá que assistir a um Campeonato Carioca sem Maraca, com clássicos disputados em São Januário e até um inédito Fla-Flu em Ítalo Del Cima, casa do Campo Grande A.C., jogo que, ponderem e reconheçam, será interessante pelo lado folclórico do Futebol. É isso: precisamos tratar os assuntos graves com seriedade mas nunca esquecer de olhar o lado positivo das coisas. Por isso, parabéns Flamengo Campeão Brasileiro de 1992! Vamos olhar o ‘copo cheio’, certo? E de chopp! Pode chamar o Renato…

FICHA TÉCNICA
FLAMENGO 2 x 2 BOTAFOGO

Competição: Campeonato Brasileiro de 1992
Data: 19 de julho de 1992
Local: Maracanã, Rio de Janeiro
Público: 122.001 pagantes

FLAMENGO: Gilmar, Charles Guerreiro, Wilson Gottardo, Gélson e Piá; Uidemar, Fabinho (Mauro), Júnior e Zinho; Júlio César e Gaúcho (Djalminha). Técnico: Carlinhos

BOTAFOGO: Ricardo Cruz, Odemílson, Válber, Márcio Santos e Renê Playboy; Carlos Alberto Santos, Pingo e Carlos Alberto Dias; Vivinho (Jéfferson), Chicão (Pichetti) e Valdeir. Técnico: Gil

Gols: Primeiro Tempo: Júnior, aos 42′; Segundo Tempo: Júlio César, aos 10′; Pichetti, aos 28′; e Valdeir, aos 43′

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