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O Comentarista do Futuro Ele volta no tempo para dar aos torcedores (alerta de!) spoilers do que ainda vai acontecer

O pontapé oficial

Comentarista do Futuro faz a mais longa viagem possível na Máquina do Tempo, até aquela que seria a primeira partida de futebol realizada no Brasil, em 1895

Por Claudio Henrique (@comentaristadofuturo) Atualizado em 30 nov 2021, 15h09 - Publicado em 30 nov 2021, 15h08

Vocês certamente não vão acreditar, me chamarão de maluco, mas posso jurar: no futuro teremos bólidos voadores, batizados de “aviões”, que cruzarão o céu nos levando a qualquer parte do mundo. Em 2021, de “quando” venho, a mais longa viagem aérea que poderei fazer será de cerca de 12 mil quilômetros (14 horas de voo), até Dubai, cidade nos Emirados Árabes – confederação que se formará onde hoje está a chamada Costa da Trégua. Com a minha Máquina do Tempo -sim, o ‘bagulho’ é doido mesmo! -, o maior percurso possível seria trafegar até ontem, quando, embora vocês, caros leitores de 1895, não saibam, deu-se a primeira partida em terras brasileiras do novo esporte que está chegando: o Futebol! Trata-se de curiosa e divertida disputa entre dois times em que os jogadores só podem conduzir e lançar a bola com os pés, sempre buscando fazê-la chegar a dois grandes retângulos posicionados nas duas extremidades do campo – é o melhor que consigo explicar. Garanto que se tornará o mais popular esporte do mundo, desbancando corridas de cavalo, provas de remo… Amado em qualquer buraco do planeta, esse tal de Futebol irá longe! Mais até do que os “aviões”.

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Escudo do São Paulo Railway Company, um dos primeiros times a realizar uma partida de futebol - Reprodução/Arquivo
Escudo do São Paulo Railway Company, um dos primeiros times a realizar uma partida de futebol – Arquivo/Reprodução Comentarista do futuro/Arquivo

Uniforme do São Paulo Gaz Company, time que fez um dos primeiros jogos de futebol em solo brasileiro em 1895Enfrentaram-se ontem num descampado da Várzea do Carmo, mais precisamente na Rua do Gasômetro (ou Carmo), no Brás, próximo à Estação da Luz, as equipes da São Paulo Gaz Company e da São Paulo Railway Company, saindo a última vencedora, por 4 tentos a 2. Isto é: por quatro vezes os ferroviários conseguiram, usando apenas os pés, levar a bola até a meta adversária, marcando “goal”. Pouca gente estava lá testemunhando. Eu mesmo só vim do próximo século, atravessando 126 anos, por saber que será este o marco oficial do começo do Futebol em nosso país. Bem controverso. Muitas outras versões vão reivindicar a autoria deste, digamos, pontapé inicial.

Um colégio de jesuítas em Itu, o São Luís, está entre os pretendentes à primazia. Parece que, desde 1880 – haverá registros -, padres e alunos “batem uma bolinha” por lá – chamam a atividade
recreativa de “bate-bolão”. Desde 1887, separam o grupo em dois times. E consta que, há dois anos, o padre Luís Yabar, novo reitor, introduziu as regras do esporte que conheceu em suas visitas a escolas da Inglaterra. Ano passado, inclusive, teriam trocado a demarcação das metas feita com tinta na parede pela instalação de estacas de madeira, as “traves”, formando o tão almejado “goal”. E criaram um prêmio para o melhor aluno na prática do esporte, cujo primeiro vencedor será um certo Arthur Ravache – ao menos até aqui, candidato a craque do Futebol no planeta.  Ele sequer imagina, mas, em 2021, os jogadores eleitos “melhor do mundo” ganharão salários iguais a “aviões”, com cifras nas alturas.

Uniforme do São Paulo Gaz Company, de 1895 - Arquivo/Reprodução
Uniforme do São Paulo Gaz Company, de 1895 – Arquivo/Reprodução Reprodução/Arquivo

Até uma ainda obscura fábrica de tecidos em Bangu, na Zona Oeste da Capital Federal, vai pleitear a honra de estrear o Futebol no Brasil. O escocês Thomas Donohoe será apontado como o autor da proeza. Mas crédito seja dado também a Elizebeth, sua mulher, que ao vir para o Brasil, três meses depois do marido, não fez cara feia e atendeu seu pedido, topando trazer uma bola da Europa. Há sete meses, em 9 de setembro de 1984, ele teria aproveitado para organizar, num terreno baldio do bairro carioca, ao lado da tal fábrica, um “rachão” (jogo) – no futuro também conhecido como “pelada”. Ou “baba”.

Indícios precoces da prática do esporte surgirão em Curitiba, dez anos atrás, e, em 1890, no Pará, onde funcionários britânicos da Amazon Sream Navigation Company Ltda., da Parah Gaz Company e da Western Telegraph teriam ensaiado alguns confrontos. Como se vê, seja quando for, tinha gringo na jogada! Não é só. Antes ainda, em 1878, no Rio, tripulantes do navio Criméia teriam feito uma exibição para a Princesa Isabel e, em 1874, outros marujos de passagem deram seus chutes numa bola nas praias cariocas. Mas, oficialmente, será esta partida de ontem, no Brás, o “marco zero” do Futebol no Brasil. E graças ao idealismo e à paixão de um brasileiro filho de pai inglês, Charles Muller, que joga no ataque e é do tipo que marca muitos gols. No campo, um avião…

Quando voltou da sua temporada de estudos na Banister Court Scholl, na terra que inventou o futebol, Muller fez questão de trazer duas bolas de capotão, duas chuteiras (calçados para o jogo) surradas, dois jogos de uniformes e, principalmente, um livreto de regras do esporte. Isso foi ano passado. Recentemente, ele mesmo contará no futuro, numa rara entrevista, tomou coragem e arregimentou os amigos da Railway Company, onde trabalha:

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– Vamos jogar “football”?
Os olhares do grupo, quase todos ingleses, foram de estranheza.
Eram apaixonados por Críquete:
– Como é esse jogo? – perguntaram.
– Com que bola vamos jogar? – quis saber um deles.
– Eu tenho a bola – disse Muller – Só precisamos enchê-la.
– Encher com o quê? – quiseram saber.
– Com ar!
E assim o Futebol começou a respirar no Brasil. Detalhe: Charles Muller, sujeito precavido, também trouxe na mala uma bomba de ar.

Sobre o futuro do Futebol, aconselho vocês a irem se acostumando Pois, no próximo século, vai ter jogo todo santo dia. Já no próximo 10 de julho, a equipe que triunfou ontem vai enfrentar outro time, o São Paulo Athletic Club, eternamente tido como o primeiro do país, fundado pelo mesmo Charles Muller (garoto bom!). O esquadrão da Railway, juntado ontem, vai claudicar como agremiação esportiva anos e anos até finalmente se organizar como clube, em 1919, mas ninguém vai tirar dele o mérito de ser o primeiro punhado de gente perfilado num campo de futebol do país. Detalhe: pra escolher quem jogaria, não teve par ou ímpar!

Em 2021, de “quando” venho, o pioneiro time de ferroviários ainda existirá, rebatizado, a partir de 1957, como Nacional Atlético Clube. Sua sede, inclusive, se manterá diante do Centro de Treinamento de duas das maiores potências do futebol brasileiro, Palmeiras e São Paulo. Chegará a alcançar um histórico título num Torneio Início (com jogos de 20 minutos) Paulista, em 1943, mas a partir dos anos 60 vai sair do trilho geral. Deixei o Século 21 com o brioso Nacional vangloriando-se de ter revelado futuros craques – o lateral Cafu, o goleiro Félix, Deco, Dodô e outros que seus Filhos e netos hão de conhecer – mas navegando pelas divisões A2 ou A3 do campeonato paulista, uma bagaça que não se diferencia muito do espetáculo a que assisti ontem. Pior do que isso: será ignorado em seu pioneirismo heroico. Acostumem-se também com essa crueldade do esporte, que fará nascer o maior clichê de sua história: “O Futebol é uma Caixinha de Surpresas”! E, desde ontem, ela está aberta.

FICHA TÉCNICA

SÃO PAULO RAILWAY COMPANY 4 X 2 SÃO PAULO GAZ COMPANY

Local: Várzea do Carmo, São Paulo
Data: 14 de abril de 1895
Árbitro: Não existia isso
SÃO PAULO RAILWAY COMPANY:  Charles Muller e mais 10
SÃO PAULO GAZ COMPANY:  Nomes desconhecidos

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