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O Comentarista do Futuro Ele volta no tempo para dar aos torcedores (alerta de!) spoilers do que ainda vai acontecer

O passo à frente do futebol

Viajante vai até a Copa de 1962 ver Nilton Santos disfarçar para evitar um pênalti e dá ‘spoilers’ sobre polêmicas na ética do esporte

Por Cláudio Henrique @comentaristadofuturo Atualizado em 18 jan 2022, 15h41 - Publicado em 18 jan 2022, 15h40

Desde já peço mil desculpas a todos vocês, queridos leitores e leitoras de 1962, pelos erros que provavelmente vou cometer neste texto. “Errar é humano”, mas sinto informar que o provérbio será esquecido lá pelos idos de 2022, de “quando” venho. Uma escalada positiva (mas dolorosa) de debates éticos, lutas por direitos de minorias, patrulhas ideológicas e ressignificação de linguagens, entre outros ingredientes, nos levará ao terreno perigoso e medieval das sentenças sem direito à defesa. Traduzindo: mesmo pessoas que assumam o erro e queiram se corrigir serão atiradas à vala comum dos ‘imperdoáveis’ – tal criminosos atávicos onde a pena de morte é aceita. Daqui a exatos 70 anos, o lance que vimos ontem neste Brasil 2 x 1 Espanha, em que Nilton Santos derrubou Enrique Collar dentro da área e deu um passo à frente, enganando o juiz, ainda será lembrado, mas estarão abafadas as vozes que por anos vão enaltecê-lo como ‘malandragem’. Não quero antecipar em décadas o debate e sim trazer boas novas: o lateral jamais será crucificado e nem vai pagar o resto da vida por isso. No Século 21 estará listado entre os 100 maiores jogadores de todos os tempos, batizando dois estádios no Brasil e apontado por alguns como principal responsável pelo resultado final do Brasil nesta Copa no Chile. E justamente por este pequeno passo que deu ontem. Verdade seja dita: foi graças a ele que… Avançamos!

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O curioso é que cairá no esquecimento lance muito mais capital que deu-se imediatamente após a ‘traquinagem’, chamemos assim, na cobrança da falta. Bola alçada da área e lindo gol de bicicleta de Joaquín Peiró – e não do craque Puskás, como a imprensa brasileira vai insistir em assinalar no futuro, dando o crédito do gol a quem, ontem pude me certificar, fez o cruzamento). Embora o atacante espanhol estivesse sozinho na meio da área, com 3 ou 4 defensores brasileiros entre ele e a meta de Gilmar, o juiz, o chileno Bustamante, ninguém jamais saberá porque, anulou o tento – impedindo o 2 x 0 pros espanhóis, vitória que eliminaria o Brasil do Mundial. Alerta de ‘spoiler’: sem saber, este cidadão determinou a classificação do algoz do escrete do Chile, em confronto que se dará na semifinal. E agora sou obrigado a revelar notícias não tão boas do futuro: o tempo não vai melhorar as arbitragens no futebol. Mas neste caso os críticos falarão mais de ‘qualidade”, e pouco de ‘ética’. Vá entender…

Há outro lance desta gloriosa geração do futebol brasileiro que oscilará na corda tênue e bamba entre “malandragem” e “comportamento reprovável”. Daqui a 8 anos, no Mundial do México, Pelé (ainda com a ‘amarelinha’, uhu!) vai sofrer um pisão de um jogador uruguaio e em seguida, numa disputa de bola, dará o ‘troco’ com uma discreta e certeira cotovelada no rosto do adversário. Reportagens, documentários e entrevistas incluirão o lance – batizado de “a cotovelada perfeita’ – entre os ‘melhores momentos do Rei’. Obra da mesma mídia que, em agressões semelhantes de outros atletas, vai sair dando paulada também.

Brasil x Espanha - Copa do Mundo de 1962
Brasil x Espanha em 1986: a bola entrou Transmissão/Reprodução

Jornalistas erram, claro. No futuro, muitos serão reincidentes em criticar o surgimento de jovens jogadores com nomes compostos – Bruno Silva, Thiago Medeiros, etc. – e bradar pela volta dos apelidos no futebol (Pelé, Garrincha, Didi, Vavá…), esquecendo que, desde 1958, estamos encantando a Europa com dois laterais ‘Santos’, Djalma e Nilton. Deslizes de árbitros são igualmente corriqueiros e especialmente registrados em jogos entre Brasil e Espanha por Copas do Mundo. Anotem: daqui a 24 anos, em Mundial no México (sim, serão dois lá!), teremos mais uma vez a vitória (1 x 0) facilitada pelo “apito amigo” do australiano Christopher Bambridge, que, após chute espanhol no travessão, não vai ver que a bola descerá quicando dentro da nossa meta. Ou não vai querer ver. Quem nunca?

A vida nos ensina que muitas vezes o cérebro é imperativo sobre o sentido da VISÃO. Enxergamos o que nossos pensamentos querem, ou cumprindo ordens de nossos sonhos e desejos. Ontem mesmo, ao final da partida, visitei a área da imprensa e tive a felicidade de encontrar o grande Fiore Gigliotti, narrador esportivo, que transmitiu o embate pela Rádio PanAmericana. Pois eis que, para minha surpresa, tanto ele como seus colegas de equipe estavam chamando a penalidade máxima de “encenação” espanhola e considerando o golaço de bicicleta “muito bem anulado” pelo juiz. São os olhos da paixão. Menos mal que, nesses anos 60, ainda temos direito a rever nossas posições em vez de sermos imediatamente condenados e banidos do convívio e do respeito social. É como o bordão do mestre: “E o tempo passa…”

À parte o lance polêmico, o duelo particular entre Nilton Santos, com seus 37 anos, e o atacante Enrique Collar, 27, foi vencido pelo brasileiro. Mas na maior parte do tempo, reconheçamos, a Espanha dominou o Brasil. Observei que no exato momento em que Puskás se preparava para bater a falta que terminaria no gol anulado, o treinador Aymoré Moreira foi até a lateral do campo dar instruções específicas a Amarildo, substituto de Pelé. Devem ter sido palavras mágicas, pois daquele momento em diante o Brasil cresceu no jogo e o estreante no ataque mostrou-se gigante. Os últimos minutos da partida foram emocionantes, com chances reais para ambos os lados e o gol derradeiro de Amarildo aos 38’. Mas além de Aymoré Moreira, a vitória teve por trás a sabedoria de outro ‘macaco velho’ da bola: Nilton, o ‘Enciclopédia’.

O apelido dele entre os jogadores é outro: ‘Chiado’, surgido pelo tanto que o lateral fala, opina e orienta no grupo, sempre em tom severo, reclamando, cobrando. Na véspera do confronto, a história revelará, Nilton Santos teve conversas particulares com Amarildo, seu colega no Botafogo, e Didi, que nutria especial revanchismo contra Di Stefano, desde que ‘não se bicaram’ atuando juntos no Real Madrid. Mesmo sabendo que o argentino – naturalizado espanhol especialmente para a Copa, como o húngaro Puskás – ainda não deveria ter condições, por lesão, de entrar em campo, tendo estreia prevista para a próxima fase deste Mundial. A propósito, com a eliminação espanhola, Stefano, para tristeza do futebol, encerrará a carreira sem jamais disputar um jogo de Copa.

Já Nilton Santos está pela quarta vez disputando a maior competição do mundo entre seleções. Alto (1,84m), destro (embora na esquerda) e dono de um futebol técnico e vigoroso (será dele eternamente o mérito de ter inventado a subida ao ataque dos laterais), o craque dará muitas entrevistas sobre o tal pênalti, mais do que sobre projetos sociais e outras iniciativas que ainda terá em vida. Pouco preocupado em dar justificativas, será sincero ao dizer que agiu “instintivamente”. “Só vi que foi pênalti revendo o lance. Na hora, na dúvida, dei dois passos. O árbitro estava longe, não viu. Foi pura malandragem, daquelas que a gente aprende nas peladas”, serão suas palavras. O espanhol Collar também será compreensivo com as motivações do brasileiro. “Foi inteligência. São coisas do futebol. Não tenho queixa alguma. Ele fez o que tinha que fazer por sua equipe.” Como se vê, o olhar pessoal, o tempo e o contexto são protagonistas neste jogo difícil de julgar as pessoas. E isso não se aprende nas Enciclopédias. Aliás, em 2022 elas nem existirão mais. A intolerância, sim.

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FICHA TÉCNICA

BRASIL 2 × 1 ESPANHA

Data: 6 de junho de 1962

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Estádio: Sausalito, em Viña Del Mar (Chile)

Árbitro: Sérgio Bustamante (Chile)

Auxiliares: Esteban Marino (Uruguai) e Jose Antonio Sundheim (Colômbia)

Público: 18.715

Brasil: Gilmar; Djalma Santos, Mauro Ramos, Zózimo e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Amarildo e Zagallo

Técnico: Aymoré Moreira

Espanha: Jose Araquistain; Rodrí, Echeberría e Gracia; Martín Vergés e Pachín; Enrique Collar, Joaquin Peiró, Ferenc Puskas, Adelardo e Francisco Gento

Técnico: Helenio Herrera

Gols: Adelardo (35’/1º tempo), Amarildo (27’/2º tempo) e Amarildo (41’/2º tempo)

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