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O Comentarista do Futuro Ele volta no tempo para dar aos torcedores (alerta de!) spoilers do que ainda vai acontecer

Jogo 3: ‘a maldição dos 4 x 0’

1982: cronista se dá conta de que outras goleadas com este placar, sobre a mesma Nova Zelândia (2006) e Polônia (1986), precederão novas decepções em Copas

Por Claudio Henrique @comentaristadofuturo 23 jun 2022, 13h47

A partir da estreia contra a União Soviética, e sempre no dia exato dos jogos do Brasil na Copa de 1982, até a derrota para a Itália, em 5 de julho, o Comentarista do Futuro voltará ao início da década de 80 em seu túnel do tempo particular. Ele embarcou com a missão de alertar os jogadores sobre Paulo Rossi e a Tragédia de Sarriá. Será que consegue?

Há mais coisas entre uma goleada e uma derrota do que supõe nossa vã euforia. Mal acabou o ‘jogo-treino’ com a Nova Zelândia, com os 4 x 0 pro Brasil, e já avistei o ‘Pacheco’, bonecão-propaganda da Gillette e agora meu ‘parça’ na missão que me trouxe à Copa de 1982, alucinado, aos gritos, abrindo o bocão, dando saltos e balançando os braços – como seus futuros ‘parentes’ que, a partir de 1996, serão vistos se sacudindo na entrada de postos de gasolina e oficinas mecânicas. Ao me ver macambúzio, sobrancelhas frisadas, tentou me animar:

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– Sai dessa! Ganhamos de 4 a 0! O Brasil tá demais!

Mesmo sendo um viajante do Tempo, vindo de 2022, e, por conta disso, conhecer o destino que nos aguarda na Espanha, poderia sim relaxar e curtir o momento de êxtase e alegria, me permitindo entrar no clima de Carnaval que, lembro bem, hoje se espalhou pelas cidades aí do Brasil – a propósito, sinto dizer que será uma das últimas Copas em que teremos farta decoração de ruas durante a disputa. Mas minha tristeza, queridos leitores e leitoras de 1982, tinha outro motivo: ao assistir ao jogo ‘in loco’, tive epifania desagradável, associando a vitória a outra imensa decepção que teremos no futuro em Mundiais. Anotem: contra a mesma Nova Zelândia, aplicaremos idêntico placar no último jogo-treino antes da Copa de 2006, quando novamente vamos chegar com um timaço e ‘favoritaços’ ao título. E também vai dar ruim. Tem mais: no próximo Mundial, outro 4 x 0, desta vez sobre a Polônia, antecederá nosso adeus ao sonho do tetra. Sinais. Sempre os respeito…

A Nova Zelândia, reconheçam, não é adversário pro Brasil. Assim como não somos, nem perto, capazes de vencê-los no rúgby. Mas, como diz a sabedoria popular: “Uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa”. Tanto que, no Futebol, os neozelandeses são os ‘All White’; no rúgby, ‘All Black’. Não têm tradição alguma no velho e bom esporte bretão. Não à toa é um dos cinco estreantes este ano em Copas – com Argélia, Camarões, Honduras e Kuwait. Trata-se mesmo de um Mundial repleto de marcos inéditos, a começar pelo número de participantes, o primeiro com 24 Seleções, 8 a mais que na Argentina (1978). Este 10 x 1 que a Hungria aplicou em El Salvador semana passada, adianto, em 2022 ainda será a maior goleada de todas as Copas do Mundo. Numa das semifinais, anotem, teremos, pela primeira vez, a classificação definida em cobrança de pênaltis. E a final será, como nunca antes, apitada por um brasileiro, Arnaldo César Coelho. Até porque, acho que já deu pra notar, o Escrete Canarinho, ‘sorry’, não estará lá. E o juiz, determina a Fifa, tem que obrigatoriamente ser de uma terceira nacionalidade, que não a dos finalistas. A regra é clara! – que tal a frase, Arnaldo? Pode usar à vontade…

Sinto informar, aos bravos ‘kiwis’ neozelandeses, que até 2022 só terão mais uma participação em Mundiais, em 2010, na África do Sul, quando ao menos marcarão seus primeiros pontos no certame, com três empates. Em 2022, vão bater na trave, perdendo a vaga em derrota para a Costa Rica no mesmo 14 de junho da estreia do Brasil na Espanha. No próximo século, revelo, eles vão ser bons mesmo em outros esportes, que chamaremos de ‘radicais’, com a ajuda geográfica de seus 268.680 km² de território. Uma das principais cidades, Queenstown, será inclusive a ‘capital mundial dos esportes radicais’, segmento que vai incluir o ‘bungee jumping’, em que seres humanos vão se atirar de penhascos pendurados por uma corda elástica. Papo sério…

Ingresso do jogo entre Brasil e Nova Zelândia
Ingresso do jogo entre Brasil e Nova Zelândia ./Reprodução

O Brasil não correu riscos ontem. Desde o início, com boas infiltrações de Sócrates e Cerezzo, o time impôs sua categoria e superioridade. O gol era uma questão de tempo, e veio aos 26’ com o voleio de Zico, completando belo cruzamento de Leandro, em tabelinha que se repetiu quatro minutos depois, no segundo tento. Sobre o nosso refinado lateral, posso revelar que encerrará a carreira como um dos dois únicos jogadores a atuar apenas com a camisa do Flamengo – juntando-se a Carlinhos, o ‘Violino’. E para a Copa de 1986, deixo um aviso. De duas, uma: ou se afasta de amigos que gostam de farra, em especial os gaúchos, ou começa desde já um treinamento para pular muros de Concentração.

O jogo estava tão fácil que, ainda na primeira etapa, até o zagueiro Luisinho chegou na entrada da área e arriscou um chute, vendo que ontem era a chance de deixar o seu. Novo cruzamento de Leandro para Zico e quase tivemos Gol de Bicicleta em Sevilha. Na segunda metade, a Seleção segue na mesma toada. Triangulação entre Falcão, Zico e Sócrates termina no arremate do primeiro: 3 x 0. Luisinho, insistente, apareceu na pequena área, perdendo um gol quase embaixo dos paus. E como era dia de ‘tirar a barriga da miséria’, até Serginho ‘Chulapa’ desencantou.  

Ganhar de 4 x 0 da Nova Zelândia, vamos combinar… Não significa absolutamente nada. Além dos dois confrontos já citados, ainda enfrentaremos os caras em 1999, num magro 2 x 0. Mas é jogo ‘molezinha’. Respeitáveis, convenhamos, e significativos foram os triunfos brasileiros nos jogos preparatórios, já aqui na Europa: 

– o 1 x 0 (Zico) nos ingleses (primeira vitória do Brasil em Wembley);

– 2 x 1 na Alemanha, em Frankfurt; 

– e os 3 x 1 na França, em plena Paris. 

Estamos concluindo a Primeira Fase do Mundial em primeiro lugar no Grupo e seis pontos a mais que o segundo classificado, a Rússia. Mas que ninguém leve a goleada como prenúncio de sucesso na Espanha. E não releguem o caráter místico da partida, pois a Nova Zelândia – ou Aotearoa (‘A Terra da Grande Nuvem Branca’), no idioma dos nativos Maori –, um dos últimos territórios do planeta a ser habitado pelo Homem, é uma nação chegada à magia e ao fantástico. Não à toa, aguardem, será cenário de dois futuros megassucessos do cinema de Fantasia: ‘O Senhor dos Anéis’ e ‘O Hobbit’. Vocês já viram os ‘All Black’ fazendo a coreografia ‘haka’, seu grito de guerra nos jogos de rúgby? Assustador… Deve ser por essas e outras mandingas que nos últimos dias sequer consegui mandar sinais ao Escrete sobre nosso destino na Espanha. É, amigos, o ‘babado’ é forte.

Éder, do Brasil, no jogo contra a Nova Zelândia, na Copa do Mundo de 1982.
Éder e sua assustadora batida na bola durante a Copa do Mundo de 1982 JB Scalco/Placar
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PARA VER OS MELHORES MOMENTOS DO JOGO

https://www.youtube.com/watch?v=dYaaFW6wbo0&ab_channel=FabioQ

JOGO TODO PELA NARRAÇÃO DE JOSÉ CARLOS ARAÚJO (RÁDIO NACIONAL)

https://www.youtube.com/watch?v=8-xfJJ4dBNY&ab_channel=FUTN%C3%81TICO

BRASIL 4 x 0 NOVA ZELÂNDIA

Competição: Copa do Mundo 1982

Local: Estádio Benito Villamarin, em Sevilha (Espanha). 

Data: 23 de junho de 1982 

Horário: 21hs

Público: 31.759 espectadores

Árbitro: Damir Matovinović (Iugoslávia)

Assistentes: Charles George Rainier Corver (Holanda), Abraham Klein (Israel)

BRASIL: Waldir Peres, Leandro, Oscar (Edinho, aos 75’), Luizinho e Júnior; Toninho Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico; Serginho (Paulo Isidoro, aos 75’) e Éder

Técnico: Telê Santana

NOVA ZELÂNDIA:  Van Hattum, Dodds, Herbert, Almond e Elrick; Boath, Summer e McKay; Creswell (Turner, aos 77’), Rufer (Cole, aos 77’) e Wooddin

Técnico: John Adshead

 

Gols: 1º Tempo: Zico, aos 28’ e aos 31’; 2º Tempo: Falcão, aos 10’; e Serginho, aos 25’

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