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O Comentarista do Futuro Ele volta no tempo para dar aos torcedores (alerta de!) spoilers do que ainda vai acontecer

Carnaval no Maraca

Comentarista vai ao primeiro jogo na Folia, a estreia de Rivellino no Fluminense (4 x 1 Corinthians) em 1975, e dá spoilers sobre tabelinha samba e futebol

Por Claudio Henrique @comentaristadofuturo 1 mar 2022, 14h57

Também era Carnaval quando deixei o futuro para vir testemunhar o show de Rivellino ontem no Maraca. Quer dizer, ‘era’ mais ou menos, pois, sinto informar, caros leitores e leitoras de 1975, que em 2022, de ‘quando’ venho, estaremos sofrendo, pela segunda vez seguida, a suspensão da folia, por conta de uma pandemia que atingirá o mundo. E, para piorar, assustados com uma guerra que terá início dias antes na Europa. Parece ‘profecia barata’ de fim de mundo, mas … Será real. Talvez sejam esses os motivos da forma exagerada como festejei os três gols de Riva na estreia com a camisa do Fluminense. Extravasei! Botei as tensões pra fora! Afinal, é pra isso que serve o Carnaval. Pra ser feliz e se divertir! Tudo a ver com a bola – tanto assim que, a partir de ontem, será corriqueira a realização de partidas nos dias da festa. Futebol também é alegria. É pra ser feliz, certo? Não pra sempre. Desculpem, mas sou obrigado a contar que, no mesmo Carnaval de daqui a 47 anos, o futebol brasileiro estará numa semana triste, com seguidas ocorrências de agressões de torcidas a jogadores profissionais, em vários estados do país. Pois é. Deixei 2022 assim: pandemia, guerra, folia cancelada e violência extracampo no futebol. Melhor começar de novo: também era Carnaval quando deixei o futuro para vir testemunhar o show de Rivellino ontem no Maraca…

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Não fui o único a extrapolar nas comemorações dos três gols de Rivellino ontem. Não é todo dia que um jogador troca de time e ao estrear em jogo com o ex-clube balança três vezes a rede. O próprio jogador festejou e muito cada tento. Explique-se: embora a última frase pareça óbvia, friso a alegria de Riva porque, no futuro, não sei bem como, vai surgir um curioso comportamento: alguns jogadores vão deixar de comemorar gols que marcarem enfrentando times que já defenderam… Isso mesmo, acreditem. Um ‘gesto de respeito’, dirão, mas ao menos pra mim vai soar mais como ‘desrespeito’ … Ao esporte.

Mas estamos em 75, certo, e aposto que a maioria de vocês que me leem estão menos ligados nos abusos e na violência da Ditadura Militar e mais em novidades como a revista ‘Playboy’, agora com edição brasileira. Não tenho lá muitas boas notícias que virão ainda este ano, mas infelizmente 1975 será marcado menos por ser o ‘Ano Internacional da Mulher’ e mais pelo lançamento, em novembro, do quarto disco da banda Queen – ‘A Night at The Opera’ – e pela fundação, daqui a dois meses, de uma empresa que vai mudar o mundo, a Microsoft. E, claro, pela chegada do ex-Garoto do Parque às Laranjeiras, dando início a um dos maiores elencos da história do futebol nacional, que eternamente chamaremos de ‘Máquina Tricolor’.

Só mesmo o ‘arquiteto-mor’ desse esquadrão, o presidente Francisco Horta, para conseguir a proeza de convencer o Corinthians a disputar um amistoso marcando a mudança do craque. Ele ainda vai aprontar muito como dirigente, inclusive, no fim deste ano, o primeiro ‘troca-troca’ no futebol. Calma, não é nada disso que vocês estão pensando. Com a superioridade evidente que o Fluminense vai demonstrar na temporada e tentando equilibrar as forças, pra termos uma competição mais atraente, Horta vai se juntar com outros cartolas do Rio, de Vasco, Botafogo e Flamengo, e cambiar jogadores, sacudindo o futebol carioca. No futuro, já adianto, será acusado de tratar atletas como “mercadoria de escambo”, mas a verdade é que o tal “troca-troca” trará novo frescor ao campeonato estadual e, daqui a dois anos, vai virar música na voz de Jorge Ben – que, a propósito, também fará uma ‘troca’, de nome artístico, para Jorge Ben Jor, mas isso só daqui a 14 anos.

Rivellino trocou o Corinthians pelo Flu em 1975 -
Rivellino trocou o Corinthians pelo Flu em 1975 – Fluminense Football Club/Facebook

Teve gol de Rivellino de tudo que é jeito ontem, até de cabeça, que nunca foi seu forte. No futuro ele não esconderá a mágoa que teve pela forma como foi expatriado pelo Corinthians, onde se formou craque e foi escolhido como culpado pelos 17 anos sem títulos no Paulistão. No Rio, já a partir do segundo jogo, vai ganhar o apelido de “Curió das Laranjeiras” e dará muitas alegrias à torcida tricolor, entre elas um gol genial e eterno, após aplicar o “drible do elástico” num zagueiro vascaíno, a conferir. Serão quatro anos no Fluminense, 158 partidas, 53 gols e alguns títulos importantes – que vou manter em sigilo -, embora não exatamente os que a estatura da ‘Máquina’ poderia e mereceria alcançar. Sem Brasileiros, por exemplo, que, revelo, vão sempre ‘bater na trave’.

Ontem no estádio, encontrei o guru Nelson Rodrigues que, mesmo sem nada enxergar, estava inebriado com o baile carnavalesco. Posso garantir que hoje ele batucará:

“O que nos diz a história do futebol é que nunca houve uma estreia como a de Rivellino. Se Riva marcasse um gol, um cínico e escasso gol, tricolores vivos ou mortos estariam bebendo champanhe pelo gargalo. Se fizesse dois gols, a nossa euforia seria maior. Vejam bem: a galera tricolor se daria por satisfeita com um gol, mais com dois. E o craque fez, não um, nem dois, mas três. Por isso, repito que nunca se viu uma estreia assim.” (Nelson Rodrigues)

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Nas arquibancadas, torcedores fantasiados nas cores do time; no intervalo, show da bateria da Mangueira. Sem falar na presença do ilustre tricolor Carlota e no pontapé inicial dado pelo Rei Momo. Foi mesmo uma festa! Ao final, Gil ainda perdeu pênalti, mas a torcida tricolor já cantava: “É covardia, é covardia… Rivellino, Paulo César e companhia”. De hoje a 2022, muitas Escolas de Samba terão personagens do futebol como enredo para seus desfiles. A presença de jogadores na Avenida, aliás, será mais e mais uma atração à parte da festa, pois, saibam, no próximo século os craques dos gramados serão ainda mais celebridades do que nesses ainda tímidos anos 70. Festeiros como Paulo César Caju e Doval deixarão de ser exceções. E ninguém mais vai encher o saco dos atletas quando forem vistos tomando uma cervejinha inocente.

Mesmo com toda a timidez de Riva, sua chegada ao Rio será sempre reverenciada como a “primeira transferência midiática” do nosso futebol, com maciça cobertura da imprensa. Pudera! Estamos falando de um campeão do mundo que em 1970 integrou o “melhor time de todos os tempos” (em 2022, ainda o será) e sempre terá seu nome incluído e lembrado em futuras listas de “melhores jogadores de todos os tempos”. Ainda disputará mais um Mundial, na Argentina, mas já então exibindo seu estilo inconfundível num clube árabe – sim, se vocês não sabem, eles jogam bola lá e, inclusive, vão sediar a Copa de 2022.

Teremos um segundo amistoso, dia 6 de março, em São Paulo, e já adianto que vai dar Flu de novo, 2 x 1. Foi um baita golaço de Horta a vinda do “Patada Atômica” (outro dos seus apelidos, assim como ‘Bigode’ ou ‘Reizinho do Parque’) para o Rio. No futuro, todos saberemos detalhes que ele utilizou em sua estratégia para contratar o craque, como convencer, antes de qualquer outra pessoa, a esposa do jogador, a quem entregou um buquê de rosas vermelhas comprado no aeroporto, ao desembarcar em São Paulo. No entorno, um caprichado arranjo verde e branco. Ou seja: não eram exatamente vermelhas, mas sim ‘rosas grenás’.

“Vim aqui contratar a senhora”, disse Horta à Maísa, assustada com as ameaças recebidas da torcida corintiana após a derrota para o Palmeiras na final do Paulista ano passado. “Mas eu não jogo”, ela reagiu. “A senhora que pensa”, respondeu o habilidoso cartola, que depois fez os Cr$ 8 milhões, pedidos inicialmente pelo Corinthians, caírem pra Cr$ 3 milhões + 50% da renda dos dois amistosos. Craque. E olha que nem este valor ele tinha nos cofres do clube. Pediu emprestado a tricolores ilustres e, no dia da conclusão do negócio, ficou dando voltas pela cidade com Vicente Matheus, presidente corintiano, até que os bancos fechassem, adiando a compensação do cheque, ainda sem fundos. Só mesmo usando um jargão que, anotem, ainda vai se popularizar no Desfile das Escolas de Samba: “Dez! Nota Dez!”

FICHA TÉCNICA
FLUMINENSE 4 x 1 CORINTHIANS

Data: 8 de fevereiro de 1975 (16h, sábado de Carnaval)
Estádio: Maracanã, Rio de Janeiro
Competição: Amistoso
Árbitro:  José Roberto Wright
Público: 40.457 espectadores
Renda: Cr$ 573.052,50 (Cruzeiros)

FLUMINENSE: Júlio Roberto, Toninho, Silveira, Assis e Marco Antônio; Zé Mário, Cleber e Rivellino (Erivelto); Cafuringa, Gil e Mário Sérgio. Técnico: Paulo Emílio

CORINTHIANS: Sérgio (Paulo Rogério), Laércio, Ademir, Zé Eduardo e Waldmir. Tião e Adãozinho; Waguinho (Zezé), Lance, Zé Roberto (Arlindo) e Daércio (Pita). Técnico: Sylvio Pirillo

Gols: Rivellino (26’ e 39’) e Lance (40’) do 1ºT; Rivellino (19’) e Gil (34’, de pênalti) do 2ºT.

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Escreva para o colunista: ocomentaristadofuturo@gmail.com

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