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O Comentarista do Futuro Ele volta no tempo para dar aos torcedores (alerta de!) spoilers do que ainda vai acontecer

As derrotas do futebol para as guerras

Às vésperas de Escócia x Ucrânia, Cronista vai à 'final da Copa de 1942' e dá ‘spoilers’ sobre futuros conflitos armados que vão ‘entrar em campo’

Por Claudio Henrique (@comentaristadofuturo) Atualizado em 31 Maio 2022, 18h26 - Publicado em 31 Maio 2022, 15h17

Sábios eram os Gregos que, na Antiguidade, suspendiam a rotina beligerante sempre quando chegava a hora das disputas esportivas. Neste particular, como em outros, involuímos muito, pois em plenos anos 1940 continuamos a fazer Guerras e, pior, por causa de uma delas, a maior, suspendemos a Copa do Mundo deste ano. Sinto informar a vocês, ilustres leitores e leitoras de 1942, que serão 12 anos sem Mundiais, a bola só voltando a rolar em 1950. Pouca se falará nisso, mas alguns de vocês talvez saibam que ontem, em Berlim, deu-se uma “pseudo-final’ de Copa, entre a Alemanha nazista e Suécia, com vitória por 3 x 2 dos suecos, para desespero daquele ditador de bigodinho cujo nome não será escrito aqui. Retornarei hoje a 2022, de ‘quando’ venho, na véspera de uma partida classificatória para a Copa do Mundo entre Escócia e Ucrânia, futuro país (desmembrado da URSS) cujo selecionado entrará em campo mesmo em plena guerra contra o poderoso exército russo – anotem: os camaradas serão fundamentais na resolução do conflito contra o Eixo do Mal. Não será a primeira nação a disputar partidas válidas por Mundiais enquanto seu povo está sob a mira de canhões. Daqui a 80 anos, acreditem, as Guerras continuarão derrotando o Futebol. Já então com um ‘placar elástico’…

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Terá ainda menos eco no futuro a tal ‘Copa das Nações’, mal-ajambrado torneio substituto do Mundial organizado pela neutra Suíça este ano. No próximo século, só uns poucos aficionados italianos invocarão este arremedo de disputa – entre poucos países europeus, e por isso não oficializada pela Fifa – como um título em Copa, pois foi a Azzurra a pseudo-campeã. Desta vez (ao contrário das últimas disputas, em 1934 e 1938) não levarão para casa a Taça Jules Rimet, que até 1950 permanecerá em solo italiano, mas escondida na casa de Otorino Barassi, espécie de ‘guardião do Caneco’. A boa notícia é que, passado o pesadelo desse hiato na festa maior do Futebol, nos próximos 80 anos nos emocionaremos com mais 18 Copas do Mundo, embora chegando a 2022 sem que 132 dos 211 países afiliados à Fifa consigam participar pelo menos uma vez da disputa. No Mundial que em breve assistirei, o Qatar será o estreante, por ser o anfitrião. E não estará em guerra. Na pauta, já discutiremos as razões e consequências do dialeto do esporte ter termos como ‘artilheiro’, ‘petardo’, ‘arqueiro’, ‘matador’ …

Copa de 1950: no Pacaembu, Ghiggia marca contra a Espanha
Copa de 1950 comemorou a volta dos mundiais – Popperfoto/Getty Images/VEJA

O teatro burlesco de ontem em Berlim teve início em 20 de abril, quando, em comemoração aos 53 anos daquele baixinho de bigode, a Seleção Alemã convidou a Suíça pra um amistoso e, mesmo não estando previsto no cerimonial da festa, deu Suíça: 2 x 1. O mal humorado e furioso líder do III Reich não titubeou: caso os atletas da escrete alemão voltassem a perder, avisou, teriam que arrumar suas mochilinhas e ir pro campo de batalha. Pra guerra! Após o ‘recadinho’ sutil do Füher, os caras trataram de vencer: 5 x 3 na Hungria; 3 x 0 na Bulgária; 7 x 0 na Romênia. Um tipo de doping diferente: o pavor.

Como nós, brasileiros, a ‘alemãozada’ ama o Futebol. Tanto que, pasmem, jamais vão interromper a Liga nacional durante esta 2ª Grande Guerra, o que só acontecerá no tão aguardado dia da derrota (sugestão: que tal chamarmos de ‘Dia D’? Aceito os créditos pelo batismo!), o que ocorrerá, anotem, em 1945. Até lá teremos na Alemanha festa pelos títulos do Schalke 04 (campeão em 1939 e 1940, voltará a vencer em 1944), do Dresdner (que erguerá a taça em duas temporadas) e do Áustria Wien, time austríaco que, com a Áustria anexada no início do conflito, aproveitou a chance pra faturar o ‘Alemanzão’ do ano passado. Isso tudo ao mesmo tempo em que dizimam cidades e asfixiam judeus em câmeras de gás. Sim, não é boato… Eles matam com gás mesmo!

Mas voltemos ao jogo. Como os ventos pareciam soprar a favor, os nazistas planejaram apagar a imagem negativa deixada na derrota para a Suíça convocando a Suécia, neutra também, para medir forças. Agiram com a soberba costumeira, apostando na falácia da ‘superioridade ariana’ justo diante da equipe mais forte do momento no Continente Europeu. Com apenas 7 minutos de bola rolando, o atacante Arne Nyberg, estrela do IFK Gotemburgo, abriu o placar pros suecos. Ernst Lehner e August Klingler conseguiram a virada alemã, mas era ilusão. No último minuto do primeiro tempo, Henry Carlsson empatou. E aos 26 da segunda etapa, Gunnar Gren e Gunnar Nordahl (alerta de ‘spoiler’: esses dois vão fazer bonito no Milan do pós-guerra e chegarão juntos à final da Copa de 1958, e mais não digo…) fizeram a jogada para o arremate de Malte ‘Raio Negro’ Martensson, o único de cabelos negros no Onze sueco. No futuro poderemos chamar a derrota de “Berlimazzo”, numa referência à final de Copa que teremos em 1950. Melhor parar por aqui…

A História e parte da mídia alemã registrarão que, findo o jogo, o ministro das Relações Exteriores nazistas, Martin Franz Julius Luther, defendeu o fim do futebol na Alemanha. “Quase 100 mil pessoas foram embora deprimidas hoje”, disse o provável assassino. “Uma vitória no futebol aquece mais o coração das pessoas do que a captura de alguma cidade no fronte oriental. Por isso, esses tipos de eventos esportivos deveriam ser proibidos, pelo bem do estado de espírito do povo em nosso país”, completou. Mas as consequências da derrota serão outras. Bem mais cruéis. O facínora bigodudo cumprirá a promessa, mandando muitos dos jogadores alemães para a guerra, a maioria em cargos burocráticos, mas alguns para campos de batalha, onde terão que atirar não contra as metas adversárias, mas em seres humanos. Como o atacante August Klingler, autor do 2º gol teutônico ontem, a quem aconselho deserdar antes de ir ao fronte em 1944, quando terá apenas 26 anos. Outros dois com botinas no lugar de chuteiras, Fritz Walter e o técnico Sepp Herberger, terão sorte melhor, sobrevivendo e brilhando em triunfo alemão que virá em 1954. Milagres acontecem. Em Berna, inclusive.

Revelo que em 2022, de ‘quando’ venho, o Futebol russo será outra vítima dos conflitos bélicos, merecidamente suspenso de qualquer torneio da Fifa, inclusive a Copa, como punição por invadir a Ucrânia. Antes disso, porém, a Polônia, que seria adversária na partida classificatória, já terá declarado sua recusa a enfrentar a seleção soviética. Se jogo houvesse, com vitória, o escrete da Rússia decidiria a vaga no Mundial com o vencedor do confronto Suécia x República Tcheca. Mas os dois países também já terão definido posição de não jogar com os invasores de nações soberanas. Talvez em 2022 não tenhamos involuído tanto como vai parecer…

Ofensiva russa na Ucrânia segue refletindo no futebol -
Ofensiva russa na Ucrânia segue refletindo no futebol – Mikhail Metzel/AFP

Há quatro anos, na Copa de 1938, a Espanha foi o primeiro país a ficar fora de um Mundial por causa de Guerra. Mergulhada na disputa civil interna, teve sua inscrição rejeitada pela Fifa ou teria desistido de jogar as Eliminatórias – há uma guerra de versões também. Já ocupada pela Alemanha, a Áustria classificou-se mas não teve como participar do torneio realizado na França. Outro conflito – entre Japão e China, lembram? – fez os japoneses desistirem de disputar vagas, abrindo brecha para as Índias Orientais Holandesas (futura Indonésia), que se tornaram assim o primeiro país da Ásia a disputar uma Copa do Mundo. Mesmo assim, reitero: não há males da guerra que vêm pro bem.

Daqui a 8 anos, na próxima reunião de seleções, em 1950, já vou adiantando: Japão e Alemanha, derrotadas no conflito em curso, estarão suspensas, por orientação da ONU (Organização das Nações Unidas), organização ‘intergovernamental’ (colei essa!) que ainda vai nascer. Sinto, mas vou listar outras derrotas do Futebol para as Guerras que ainda estão por vir:

– de 1966 a 1990, ficará alijado das competições da Fifa um país que manterá em seu território uma das piores guerras da Humanidade, a da segregação racial: África do Sul, onde até o Futebol será separado, em quatro federações distintas: uma que aceitará apenas atletas brancos; uma de jogadores sul-africanos de origem indiana; outra para o povo Bantu; e uma quarta exclusiva para negros. Só disputará um Mundial em 1998. Merecerá o castigo…

– Um acirrada disputa por vaga na Copa de 1970 chegará a um grau tamanho de tensão que, após o terceiro e decisivo jogo, Honduras (derrotada) e El Salvador (classificado) entrarão em conflito armado de verdade, com ‘Guerra’ deixando de ser uma simples metáfora do Futebol.

– Em 1986, conflito com o Iraque fará o Irã ser suspenso de competições Fifa. Os iraquianos (liderados então por um cidadão de nome Sadham) sairão incólumes, não me perguntem o porquê…

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– Em 1994, a Fifa suspenderá a Iugoslávia – que sequer disputará as Eliminatórias por causa de um conflito que matará mais de 100 mil pessoas. Curiosa e infelizmente, a Guerra dos Bálcãs terá seu estopim, em 13 de maio de 1990, numa partida de futebol, que acabará em briga, entre o Estrela Vermelha (Belgrado) e o Dínamo (Zagreb).

– Também em 1994, cartão vermelho (xiii! Vocês ainda não sabem o que é isso, né?) para a Líbia, por Guerra Diplomática, após um futuro ditador (de primeiro nome Muammar) romper com EUA e Europa por posicionar-se contra Israel (sim, teremos Estado de Israel, mas não dá pra me estender sobre isso agora).

Zinho na partida entre Brasil e Camarões na Copa do Mundo de 1994
Zinho durante partida na Copa de 1994 – Bob Thomas/Getty Images/VEJA

Em trincheira diferente, Argentina e Inglaterra estarão em guerra (juro!) quando participarem do Mundial de 1982, que acontecerá na Espanha. O temido enfrentamento em campo, porém, só veremos quatro anos depois, com gol de Deus e tudo, aguardem…

Agora um pouquinho de ‘news’ atuais. Como todos sabem, tivemos navios de bandeira brasileira afundados em fevereiro (o cargueiro ‘Buarque’, com torpedo do submarino alemão U-432, nos EUA), em maio (o ‘Comandante Lira’, abatido pelo submarino italiano Barbarigo) e em agosto (quando o vapor ‘Baependy’ foi aos ares na costa de Sergipe, assim como o ‘Aníbal Benévolo’ e o ‘Itagiba’, naufragado pelo submarino alemão U-507, no litoral da Bahia). Resultado: desde 31 de agosto estamos em guerra contra os países do Eixo (decreto nº 10.358). Nada que nos impeça, claro, de manter na ativa nosso futebol. Semana passada, por exemplo, o presidente Palestra Itália, Ítalo Adami, reuniu os dirigentes para decretar o novo nome do clube paulistano, acatando sugestão do senhor Mário Minervino: Sociedade Esportiva Palmeiras. Daqui a três meses será a vez do carioca Botafogo Football Club unir-se ao Club de Regatas Botafogo, fazendo nascer o Botafogo de Futebol e Regatas.

Voltando o olhar ao Planeta, é com pesar que informo que serão pelo menos 75 os jogadores ingleses que morrerão nesta Guerra. Além de clubes e seleções, conflitos entre nações impedem e continuarão impedindo que cracaços de bola participem de Copas do Mundo, momento maior do Futebol. Como o angolano Peyroteo, em ação nos gramados de Portugal desde 1939. Em 2022, ele ainda será o maior artilheiro da história do Sporting e do Campeonato Português, mas quase desconhecido, pois vai pendurar as chuteiras em 1949, um ano antes do próximo Mundial. Ou o argentino Adolfo Pedernera, vítima do ‘anos 40 sem futebol’ e dos boicotes da Argentina – além de 1938, nossos vizinhos vão ‘fazer doce’ e bater o pé ficando de fora em 1950 e 1954. Sorte nossa! Explico…

No futuro os historiadores dirão que se Copa houvesse este ano e em 1946, muito provavelmente se sagrariam campeões os nossos eternos rivais, os argentinos. Os ‘hermanos’, que boicotaram a França/1938 (por defenderem a alternância de continentes como sedes), já deram mostras de sua superioridade no triunfo da Copa América do ano passado, feito que, sinto contar, repetirão em 1945, 1946 e 1947. Não só pelos craques do elenco, baseado no River Plate de Pedernera e Moreno, mas também porque certamente jogariam pelo menos um dos Mundiais em casa. Este ano ou em 1946, a Argentina teria tudo para superar o Brasil, mesmo que escalássemos Leônidas da Silva, Domingos da Guia, Heleno de Freitas e Ademir de Menezes. ‘Spoiler’: chegaremos a 2022, vibrem, com três títulos mundiais além dos alcançados pelos ‘albicelestes’. Jogassem e ganhassem este ano e em 1946, a disputa no próximo século estaria mais apertada. Ufa…

Outros fortíssimos candidatos seriam o Uruguai (campeão da Copa América este ano com a dupla de “Varelas”: “Galego” Severino Varela e Obdúlio Varela, que ainda se eternizará como um dos três maiores algozes do futebol brasileiro); a Suécia (futura medalhista de ouro nas Olimpíadas de 1948); a atual bicampeã Itália (com suas feras do pentacampeão Torino – 1934/1938); e a Alemanha, a partir do poderoso Schalke 04, com seu ataque formado pelos cunhados Fritz Szepan e Ernst Kuzorra e de jogadores do campeão de 1941 Rapid Viena, como Franz Binder, que encerrará carreira com a não-comprovada marca de 1.000 gols. De hoje a 1946, portanto, seguiremos como uma ‘sexta força’ do Futebol mundial. Mas isso vai mudar! E quem fará mais de mil gols, anotem, será um brasileiro… Tão admirado, famoso e querido que um dia vai fazer um país parar uma Guerra para o povo poder assistir ele jogar. Como os gregos faziam. ‘Stop the war’!

FICHA TÉCNICA
ALEMANHA 2 x 3 SUÉCIA

Competição: Amistoso (‘Falsa Final da Copa de 1942’)
Data: 20 de setembro de 1942
Local: Estádio Olímpico de Berlim
Público: cerca de 98.000 pagantes

ALEMANHA: Helmut Jahn; Paul Janes; Karl Miller; Andreas Kupfer e Wilhelm Sold; Hans Rohde, Ernst Lehner, Karl Decker e Fritz Walter; Albert Sing e August Klingler. Técnico: Sepp Herberger

SUÉCIA: Sven Bergqvist; Harry Nilsson, Oscar Leander, Erik Persson e Arvid Emanuelsson; Karl-Erik Grahn, Malte Martensson e Gunnar Gren; Gunnar Nordahl, Nils Carlsson e Arne Nyberg (Erik Holmqvist). Técnico: Federação Sueca de Futebol

Gols: Arne Nyberg, aos 7’ (Suécia); Lehner e Klingler (Alemanha); e Carlsson, aos 44 (Suécia) do 1ºT; e Martensson aos 26’ (Suécia), do 2ºT.

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