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Elas na Área Por Maria Fernanda Lemos e Mariah Magalhães Notícias, entrevistas e reportagens especiais sobre o futebol feminino

Viva a estrela solitária: Giovanna, a jovem craque do Botafogo

Aos 13 anos, a meio-campista carioca faz sucesso e golaços entre os meninos do Fogão. Somente quando completar 16 é que ela jogará ao lado das mulheres

Por Maria Fernanda Lemos, com fotos de Alex Ferro Atualizado em 8 mar 2022, 08h07 - Publicado em 8 mar 2022, 08h00

Sejam bem-vindos e bem-vindas. Neste Dia Internacional da Mulher, PLACAR tem o orgulho de estrear um novo blog, o Elas na Área, dedicado exclusivamente ao futebol feminino. Nós, Maria Fernanda Lemos e Mariah Magalhães, seremos as responsáveis pelas notícias, entrevistas e reportagens especiais sobre a modalidade. Em sua postagem inaugural, o blog abre uma reportagem publicada na edição impressa de março, já disponível em nossas plataformas digitais em dispositivos iOS e também Android e em breve nas bancas, sobre a meia Giovanna Waksman, revelação do Botafogo. Eis o pontapé inicial de mais um golaço de PLACAR. Boa leitura.

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Uma sugestão para o americano John Textor, executivo do ramo de tecnologia, cinema e esportes que acaba de comprar o Botafogo: fique de olho na meio-campista Giovanna Waksman, uma menina de 13 anos que tem comido a bola. E um aviso fundamental: não há ironia alguma, pelo contrário, no conselho ao mandachuva da Estrela Solitária. Giovanna, camisa 10 às costas, é craque. Um vídeo de uma partida semifinal de um torneio carioca, entre Botafogo e Vasco, em outubro de 2021, apresentou a menina ao mundo. Eram 21 meninos e ela em campo, na categoria sub-12 masculino. Os alvinegros ganharam por 3 a 0 e aquela bola por cobertura, que foi morrer no fundo da rede cruz-maltina, foi de embasbacar. Assim, nas palavras dela, em entrevista a PLACAR: “Saí arrastando todos os jogadores, veio o zagueiro e ele ficou indeciso para vir me marcar. Quando veio, eu já dei um tapa. O goleiro estava saindo na cara do gol, eu cavei por cima dele e saí para comemorar”. Na final, ela marcaria dois gols, mas o título ficou com o Flamengo.

Tê-la entre os moços foi resultado de sua habilidade, sem dúvida, mas também de uma particularidade: o time de General Severiano não tem equipe feminina para a idade dela. Por isso, Giovanna participa de competições com o sub-12 e sub-13 masculinos. Segundo os preparadores físicos do Botafogo, ela prosseguirá entre eles pelo menos até os 15 anos, enquanto seus patamares de força forem ainda equiparáveis aos dos homens. Aos 16 anos, finalmente poderá jogar pelo sub-18 feminino. Enquanto isso, salve Giovanna, a ovelha desgarrada, que inclusive treina entre os profissionais. Com 1,61 metro, e ainda em fase de crescimento, em campo ela exibe o avesso da timidez que exala fora dele. É uma das primeiras a pisar no gramado. Joga rindo como fazia Ronaldinho Gaúcho — o que não exclui, evidentemente, o semblante compenetrado de quem sabe o que faz.

A habilidade e visão de jogo: camisa 10 clássica
A habilidade e visão de jogo: camisa 10 clássica Alex Ferro/Placar

A menina conta que sempre atuou ao lado dos meninos. Está para lá de acostumada, portanto. “Com 6 anos, nas aulas de educação física, as meninas jogavam queimada e os meninos, futebol. Como eles tinham prioridade e eu não gostava de esperar na arquibancada, pedi para bater bola junto”, lembra. “Logo evolui e pedi para o meu pai me pôr numa escolinha.” Sua primeira passagem, aos 8 anos, foi no Sogima FC, clube que organiza a base do Cabofriense. Depois, teve breve atuação no Fluminense, até que, em dezembro de 2020, foi convidada a treinar no Botafogo, depois de um supervisor do clube observá-la em um vídeo postado na internet.

Na inocência da infância e da pré-adolescência, ela já descobriu onde mora o problema de convivência, o nó do preconceito. “Os meninos sempre me respeitaram muito, são mais os pais deles que fazem algum comentário”, diz. “Mas por sorte não consigo escutar nada dentro de campo, enquanto estou jogando, e só fico sabendo depois.” Os pais da atleta, Renato e Jackeline Waks­man, acompanham de perto a carreira da filha única. O pai, que também foi jogador das categorias de base do Botafogo e teve o caminho abreviado por lesões, deixou de trabalhar para estar mais presente nos treinos e na carreira da menina. “Ele fala que, se eu não tirar notas boas na escola, não posso mais jogar bola”, diz Giovanna, sorrindo. “Eu tento agradecer a ele dentro de campo. Dando o meu máximo.”

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Preparo físico: cuidado especial da equipe médica do Botafogo
Preparo físico: cuidado especial da equipe médica do Botafogo Alex Ferro/Placar

Desde que ela chegou ao Botafogo, há uma grande preocupação em torno da atleta: os profissionais do departamento médico, preparadores físicos e treinadores têm zelado pelo condicionamento físico dela com um objetivo muito claro: suportar a carga de treinamentos, pesados demais para alguém tão jovem. “Prestamos muita atenção na parte de mobilidade e estabilidade, além do controle motor”, diz Paulo Neves, preparador físico da equipe profissional, que ressalta ainda a importância do trabalho de base do clube. “Um outro cuidado é com a recuperação depois do esforço.” Do ponto de vista tático, há unanimidade: ela se posiciona no gramado como os adultos. Camisa 10 “clássica”, daquelas que organiza as jogadas, busca a bola e serve os atacantes, Giovanna diz se inspirar em Lionel Messi. Quer ir para a Europa, ser eleita a melhor jogadora do mundo e ser convocada para a seleção brasileira.

Talento, ela tem de sobra. Giovanna é evidentemente acima da média. “Parece que ela herdou dos craques do futebol um dom da 10 que o futebol masculino já não consegue mais formar”, diz o treinador Gláucio Carvalho. “A rigor, quase todos os aspectos de um jogador são treináveis, mas é impressionante como a menina mesmo com pouco tempo de formação de categoria de base já vem com as qualidades muito apuradas.” Patrocinada pela Nike, logo trilhará o sonho. Giovanna já recebeu sondagens de fora do país — por ora, vai ficar. “O importante para mim é estar dentro de campo me divertindo”, diz.

Em breve, o plano é que possa se divertir ao lado das mulheres. Ela participou de um torneio totalmente feminino apenas no fim do ano passado, quando o Botafogo a emprestou ao Internacional para disputar a Copa Nike sub-17. Foi vice-campeã e eleita a craque da partida na final. “Não senti diferença no modo de jogar, somente nas relações extracampo”, diz. “Consegui me aproximar mais delas do que dos meninos. Sinto falta de jogar com as meninas da minha idade porque seria mais confortável.” É conforto que precisa ser oferecido à esperança alvinegra.

No vestiário: compenetração de quem sabe o que quer e a primeira a entrar no campo
No vestiário: compenetração de quem sabe o que quer e a primeira a entrar no campo Alex Ferro/Placar

 

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