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Filho do terrão: o surgimento de Willian no Corinthians

Ao lado de Lulinha, outra jovem promessa alvinegra na época, meia estampou capa de PLACAR em 2007; aposta alvinegra na base não deu certo

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 23 set 2021, 14h04 - Publicado em 2 set 2021, 10h02

Willian voltou para casa. A contratação do meia de 33 anos, com duas participações em Copas do Mundo no currículo, foi confirmada esta semana e encheu os torcedores do Corinthians de orgulho e esperança. Ele é uma das mais célebres crias do “terrão”, como eram chamados os campos de terra batida das categorias de base do clube (hoje são todos forrados por grama sintética). Em junho de 2007, Willian estampou a capa de PLACAR, ao lado de Lulinha, outra grande promessa alvinegra da época.

Capa da revista Placar, edição 1307, de Junho de 2007.
Capa da revista Placar, edição 1307, de Junho de 2007. PLACAR/Reprodução

A previsão de que a dupla poderia salvar o Corinthians de um momento de turbulência após a saída da parceira MSI naufragou: o time acabaria rebaixado naquele ano, com Lulinha pouco aproveitado e Willian, que era o grande destaque do time aos 19 anos, já vendido ao Shakhtar Donetsk, da Ucrânia. A primeira passagem do camisa 10 pela equipe profissional se encerrou com apenas 33 jogos, dois gols e nove assistências. Já era possível prever, no entanto, que se tratava de um talento com potencial de brilhar internacionalmente.

A matéria escrita há 14 anos pelo repórter Estevan Ciccone, com direito a um ensaio de fotos especialíssimo do fotógrafo Alexandre Battibugli, colheu depoimentos dos treinadores corintianos da época e também de grandes ídolos do clube (leia a íntegra, abaixo). Em um dos trechos, o então técnico das categorias de base, José Augusto, conta que Willian por pouco não foi parar no Santiago Bernabéu.

“Fomos jogar um campeonato na Espanha e vencemos o Real Madrid por 5 x 2, com dois gols do Willian. E o Real se interessou por ele. A torcida pode esperar que ele vai brilhar no Brasileirão. O Lulinha deve seguir o mesmo caminho. Eu sinto muito a falta dele no sub-17. Dando o devido tempo, tem tudo para ser um grande craque”, disse José Augusto na ocasião.

O capitão da equipe na época, Betão, caprichou na previsão. “É muito cedo para afirmar que eles são craques. Mas o Willian já mostrou que é muito bom e irá brilhar na seleção. Já o Lulinha precisa de mais experiência, mas também terá sucesso”. Já Marcelinho Carioca, ídolo da equipe recém-aposentado, pediu cautela. “O Willian é habilidoso. A Fiel tem que ser paciente com ele. O Lulinha tem outro estilo, mais de toque, mas também é bom. Já aconselhei os dois a manterem a humildade e jogarem sem firula.”

Lulinha e Willian em ensaio de 2007
Ídolos da nova geração: Lulinha e Willian em ensaio de 2007 no terrão Alexandre Battibugli/Placar

A reportagem ainda cita um atleta que não brilharia no Corinthians, mas em outros clubes grandes do país: Everton Ribeiro, então lateral-esquerdo, que no futuro se tornaria ídolo de Cruzeiro e Flamengo como meia. “Everton, 18 anos, jogou como lateral-esquerdo e meia com Carpegiani. No Brasileirão, está inscrito com a camisa 6 para atuar na sua posição preferida: “Estou mais adaptado à lateral, mas ajudo como o professor quiser”. Amigo de Willian e Lulinha, ele sonha repetir o sucesso dos companheiros. “Isso serve de incentivo. São jogadores que subiram comigo e agora estão explodindo.”

A reportagem ainda listou outros talentos formados na base corintiana na década anterior, com destaque para Jô no comando do ataque. Ele e Willian devem comandar o ataque do time, que espera ainda poder brigar por vaga na Libertadores de 2022. Confira, abaixo, a reportagem completa:

Em 2007, PLACAR montou um time de boas crias recentes do
Em 2007, PLACAR montou um time de boas crias recentes do “terrão” corintiano PLACAR/Reprodução

Confira, abaixo, a matéria na íntegra:

O Timão que dá certo

Enquanto a MSI torrava dólares com seus galácticos, o lendário “Terrão” forjava outra leva de craques. Com o ocaso da parceria, cabe agora a garotos como Lulinha e Willian a tarefa de tirar o Corinthians da lama

Edição: Placar 1307 Data:01/06/2007 Páginas: 64-68

Estevan Ciccone

O ano era 2005. Após campanhas fracas nos Brasileiros de 2003 e 2004, o Corinthians aguardava um salvador. Alguém que chegasse com um caminhão de dinheiro e muitas promessas, como montar um timaço e realizar o sonho de ganhar a Libertadores. E foi com esse rótulo, de salvador, que surgiu o iraniano presidente da MSI, Kia Joorabchian. Empolgado, ele foi além e garantiu em um português esquisito que o clube seria o número 1 do mundo. Em seu primeiro ano, teve sucesso e calou os que o tachavam de aventureiro: foi campeão brasileiro. Mas bastou a eliminação da Copa Libertadores no ano passado para que a antiga realidade voltasse: o dinheiro sumiu, as dívidas reapareceram e os craques evaporaram. Técnicos foram trocados, assim como as eternas farpas entre parceiros e dirigentes. E a melhor mudança, quem diria, foi forçada: sem outras empresas interessadas numa nova operação de salvação, chuteiras cheias de terra passaram a alimentar a esperança da torcida.

O curioso é que, apesar de conhecido por revelar talentos, o Corinthians só se lembra disso depois de esgotar os outros recursos. Mais uma vez, foi a carência do elenco que obrigou um dos maiores patrimônios do clube a reaparecer: o Terrão, tradicional campo das categorias de base do Corinthians e que, apesar da ausência de grama, já revelou nomes como Roberto Rivellino. Hoje, forçada ou não, a importância do Terrão no Corinthians é evidente: dos 27 jogadores relacionados pelo técnico Paulo César Carpegiani para a pré-temporada em Águas de Lindóia (SP), nada menos que 14 saíram de lá.

É verdade que, agora modernizado, o Terrão ganhou novo visual ” leia-se grama sintética. Ainda há quem jogue na terra batida, é verdade. Mas já não era assim, por exemplo, o campo onde recentemente atuavam os principais candidatos a craques corintianos: Willian e Lulinha. Símbolos da nova geração alvinegra, eles subiram ao time principal pelas mãos do técnico José Augusto, que há sete anos comanda as divisões de base do clube. Um treinador que não poupa elogios aos dois e revela que Willian quase fez as malas em 2005: “Fomos jogar um campeonato na Espanha e vencemos o Real Madrid por 5 x 2, com dois gols do Willian. E o Real se interessou por ele. A torcida pode esperar que ele vai brilhar no Brasileirão. O Lulinha deve seguir o mesmo caminho. Eu sinto muito a falta dele no sub-17. Dando o devido tempo, tem tudo para ser um grande craque”.

Até hoje, Willian não esquece o jogo citado por José Augusto: “Me lembro bem. Eu me destaquei e, depois da partida, um diretor do Corinthians veio me dizer que o Real estava interessado em mim. Não soube de propostas, mas, pela correria da diretoria para renovar comigo, acho que devia haver algum interessado”. Com os jogadores saindo para atuar no exterior sempre mais cedo e a atuação dos empresários, o assédio aos garotos aumentou. Com Lulinha, pelo menos aparentemente, não foi muito diferente. “Oficialmente, acho que ainda não [houve propostas]. Mas, pelo que o Wagner [Ribeiro, empresário do atleta] me falou, houve sondagem do Barcelona e de um clube inglês.”

Diante do assédio estrangeiro sobre nossos mais promissores jogadores e das evidentes carências da maioria dos elencos do Brasil, escalar precocemente os aspirantes a craque passa a fazer mais sentido. Sobretudo em um clube com tradição de revelar atletas. “É muito difícil essa questão de queimar jogador ou não. Eu te responderia perguntando: quando é o melhor momento? Isso é muito relativo. Eu penso que se o jogador tem qualidade ele entra em qualquer situação e brilha”, diz Paulo César Carpegiani. O raciocínio do atual treinador corintiano difere daquele do técnico anterior, Emerson Leão, que chegou a comprar briga com a torcida ao dizer que não pretendia utilizar Lulinha. Aparentemente, porém, a ideia de que o destaque do último Sul-americano sub-17 precisa amadurecer para jogar entre os titulares do Corinthians não é só de Leão. “É muito cedo para afirmar que eles são craques. Mas o Willian já mostrou que é muito bom e irá brilhar na seleção -. Já o Lulinha precisa de mais experiência, mas também terá sucesso”, diz o capitão corintiano Betão.

No atual elenco, aliás, o zagueiro que está há 13 anos no Parque São Jorge é o melhor exemplo de atleta que chegou do Terrão e convive com os altos e baixos do clube. “Converso muito com eles. O mais importante é não deixar o sucesso subir à cabeça, manter os pés no chão. O tratamento da torcida é diferente para quem vem do Terrão, a identificação é maior, mas se o futebol não rende a pressão é a mesma.” E, pelo jeito, Betão passou a mensagem. “Não adianta nada nascer aqui e não jogar bem, porque aí a torcida pega no pé do mesmo jeito”, afirma Willian. Lulinha faz coro, mas, mesmo tendo atuado pouco pelos profissionais, sentiu também a vantagem de vir do Terrão. “É diferente. Por termos nascido aqui, a torcida tem uma paciência maior. Até pela nossa idade”, diz. Carpegiani, por sua vez, acredita que a principal vantagem dos garotos formados no clube é não sentir tão intensamente a diferença de uma promoção aos profissionais: “O bom é que eles sempre freqüentaram o clube e quando vão para a equipe de cima não estranham. Mas é óbvio que é diferente. Eu acho que todo grande jogador, aquele que vai ser destaque amanhã, acima de tudo tem que ter personalidade. Sem isso ele não vai jogar no Corinthians.”

Pode ser. Mas antes mesmo de mostrar essa personalidade Lulinha e Willian já despertaram a atenção de clubes do exterior. “Muitos nos ligam para perguntar dos dois. O Corinthians não tem interesse em negociá-los, mas sempre há sondagens. E o Willian é quem desperta mais interesse”, afirma o diretor de futebol do clube, Ílton José da Costa.

Está claro, portanto, que ao gerenciar esses dois jogadores os dirigentes e a comissão técnica corintiana estão mexendo com um importante patrimônio do clube. E, a curto prazo, a valorização desse patrimônio será determinada pelo desempenho dos jogadores no atual Campeonato Brasileiro. “Com certeza será uma prova de fogo. Estou pronto, amadureci bastante. Já passei de ser uma promessa e daqui para a frente é mostrar a realidade e ganhar títulos”, afirma um confiante Willian. k

Olho neles também

Mas não são apenas Willian e Lulinha a alimentar a esperança alvinegra. Everton, Marcelo Oliveira e Dentinho: são esses outros três nomes que o torcedor pode passar a seguir com mais atenção. Os dois primeiros são conhecidos da Fiel, pois já atuaram no time principal. Everton, 18 anos, jogou como lateral-esquerdo e meia com Carpegiani. No Brasileirão, está inscrito com a camisa 6 para atuar na sua posição preferida: “Estou mais adaptado à lateral, mas ajudo como o professor quiser”. Amigo de Willian e Lulinha, ele sonha repetir o sucesso dos companheiros. “Isso serve de incentivo. São jogadores que subiram comigo e agora estão explodindo”, afirma. Marcelo Oliveira também já atuou, inclusive como titular na Estréia – do Brasileirão. Volante de 20 anos, ele jogou como lateral-esquerdo e agradou o treinador.

Já a mais desconhecida das promessas corintianas tem o Nome – de Bruno Bonfim, mas é chamado por todos de Dentinho. Destaque ao lado de Willian nas divisões de base, ele tem 18 anos. “O Dentinho é um belo atacante. Daqueles que ainda não tiveram muita oportunidade, é um dos que têm mais chance de subir”, diz o técnico José Augusto.

Se depender de Carpegiani, porém, Dentinho terá que esperar para ter sua chance: “O Willian e o Lulinha estão um pouco acima dos demais, são diferentes. São dois jogadores de muita qualidade para amanhã serem titulares da equipe. Mas estamos de olho nos outros garotos também”, diz. É bom mesmo, Carpegiani. Porque a palavra “garoto”, no Corinthians, virou sinônimo de solução.

Lulinha

Ele brilhou Na seleção – sub-17

Nome – Luiz Marcelo Morais dos Reis

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Posicao/ Altura/ Peso – Meia / 1,69 m / 67 kg

Nascimento – 10/4/90, Mauá (SP)

Estréia – Corinthians 2 x 0 América-SP (7/4/2007)

Jogos até 21/5 – 5 pelo time principal

Contrato até – 25/6/2009

Na seleção – artilheiro na conquista do Sul-americano sub-17 (2007)

Willian

O timão é “ele e mais dez”

Nome – Willian Borges da Silva

Posicao/ Altura/ Peso – Meia / 1,74 m / 70 kg

Nascimento – 9/8/88, Ribeirão Pires (SP)

Estréia – Corinthians 0 x 1 SeLEÇão do Brasileirão (11/12/2005)

Jogos até 21/5 – 27 pelo time principal

Contrato até – 30/6/2010

Na seleção – destacou-se na conquista do Sul-americano sub-20 (2007)

“O Willian tem um futuro brilhante, mas ainda não foi lapidado. O Leão errou em não aproveitá-lo como deveria. Ele precisa aprender a fazer gol, mas tem tudo para ser craque. O Lulinha ainda não está pronto para ser titular, mas deveria entrar em todos os jogos”

Neto, ex-jogador

“Resolver o problema do Corinthians hoje acho que nem Jesus consegue. Mas são dois jogadores de ótimo potencial. O Brasileirão vai servir para avaliá-los melhor”

Rivellino, ex-jogador

“Eles têm tudo para serem craques. Mas já vi muitos começarem bem e depois sumirem. É só ter humildade e correr atrás”

Ronaldo, ex-goleiro

“O Willian é habilidoso. A Fiel tem que ser paciente com ele. O Lulinha tem outro estilo, mais de toque, mas também é bom. Já aconselhei os dois a manterem a humildade e jogarem sem firula”

Marcelinho Carioca, ex-jogador

Tente a sorte

As peneiras dos garotos que sonham jogar nas categorias de base são feitas no próprio clube, de acordo com a necessidade das equipes. Os processos de seleção são divulgados pelo website oficial: http://www.sccorinthians.com.br. A outra forma de ingressar é por meio das escolinhas oficiais do projeto Chute Inicial.

A base que vence

Prova irrefutável de que os times das categorias de base do Corinthians têm frutos a render é o número de títulos nos últimos anos. De 2003 a 2006, foram nada menos que 25 conquistas, da categoria fraldinha até a de juniores. Na Copa São Paulo, o principal torneio sub-20 do país, o Timão levou o caneco em 2004 e em 2005.

 

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