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O Comentarista do Futuro

Vira-latas sim, com muito orgulho!

Comentarista vai ao primeiro Brasil x Inglaterra e, após derrota, jura aos leitores de 1956 que eles deixarão de se sentir ‘inferiores’, ao menos no futebol

Por Claudio Henrique (@comentaristadofuturo​, no Instagram) Atualizado em 5 out 2021, 16h04 - Publicado em 5 out 2021, 16h01

Aposto que todos vocês, aí no Brasil, foram pras ruas nesta manhã de quinta-feira com aquela carinha de cachorro pidão, sabe? Tristes, borocochôs, macambúzios, e resignados com a derrota, ontem, da nossa seleção para o Onze da Inglaterra, 4 x 2 em Wembley. Não duvido nada, tem gente dizendo que “tudo bem, afinal eles são os inventores do futebol.” Pó-pará! Pó-pará! Levanta a cabeça e sacode a poeira, pois no futuro, posso garantir, vamos dar a volta por cima nesse complexo de inferioridade. Em 2021, de “quando venho”, o Brasil já terá sido campeão mundial cinco vezes e os ingleses… Umazinha só! E com gol duvidoso! Até lá, serão 25 novos confrontos, com 11 triunfos verde-amarelos e os nobre fidalgos alcançando apenas 3 vitórias em 65 anos (11 empates). Em Copas, três sacodes do nosso escrete e um 0 x 0. ‘Pedigree’ não ganha jogo! Nossa alma é, e sempre será, de vira-latas mesmo. Pois saibam que no Século 21 isso será motivo de orgulho! Tanto assim que o tipinho mais comum, o ‘vira-lata caramelo’, será tão amado que milhares de brasileiros farão petições para que torne-se símbolo nacional e efígie em cédulas da nossa moeda. As décadas não resolverão problemas como pobreza, fome e analfabetismo, mas ao menos no futebol, acreditem, o Brasil vai ser cachorro-grande!

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Complexo de vira-lata - Reprodução
Complexo de vira-lata – Reprodução ./Reprodução

O título de pentacampeões, é bom que se diga, deveremos em grande parte ao nosso estilo vira-lata, o ‘futebol moleque’, que, desconfio, começou a se consolidar na partida de ontem. Assim, ‘bora’ erguer os queixos – ou abanar os rabos! O mais louco é que esse desânimo todo possa existir em plenos anos 50, época que, no porvir – atentem! -, será reverenciado como o melhor momento da história brasileira. Um década em que, dirão, rascunhamos um lindo projeto de país que não soubemos finalizar, ou construir. Bem, Juscelino acaba de assumir e – alerta de ‘spoiler’! – uma nova capital federal, essa sim, será erguida. Já Wembley, esse santuário da bola que tive a honra de conhecer ontem, terá destino inverso: demolido para ressurgir do ‘fog’ londrino em novo formato, menos romântico. O Maracanã também, mas não quero falar disso – não sou cachorro mas, em 2021, o assunto ainda me fará ter raiva.

  • Mas vamos ao jogo! Os ingleses, com ou sem sangue azul, também têm piolhos e suas dores de cotovelo. Mesmo sendo os inventores do esporte, já são quatro as Copas realizadas e eles ainda não conseguiram levar a Jules Rimet pra mostrar pra essa mocinha que assumiu o trono por lá, a Elizabeth (em 2021, pasmem, ela ainda será Rainha e passará seus dias contando azulejos, isto é, maçanetas de ouro no Palácio de Buckingham). ‘Betinha’ gosta de futebol – seu time de coração será um mistério até 2021: West Ham – e em breve vai condecorar, como “Cavaleiro do Império Britânico”, o herói do jogo de ontem: ‘Sir’ Stanley Matthews. Pra quem não sabe, a história dessas duas celebridades mundiais começou um mês antes da coroação da garota, na inigualável final da Copa da Inglaterra de 1953, a chamada “Matthews Final”, em que o pontinha fez sua maior batalha nos gramados, comandando o Blackpool na virada de 4 a 3 sobre o Bolton. Ontem, ele entrou em campo levando nas costas o número 7 e 41 primaveras! – se é que elas existem na cinzenta Grã-Bretanha. E, mais uma vez, estava com a cachorra. Com seus dribles e arranques deixou nosso lateral Nilton Santos, onze anos mais jovem, zonzo, zonzo… Como cão depois de correr atrás do próprio rabo.

    A bola ainda não tinha rolado quando Nilton, o ‘Enciclopédia’, farejou com os olhos aquele ‘senhorzinho’ baixo, magro e aparentemente frágil no escrete britânico. E riu, caçoando do ponta-direita. Quando as imagens da partida chegarem aos cinemas brasileiros, queridos leitores, vocês hão de confirmar o que aqui relato: o vovô Matthews é ‘imarcável’. Não fez gol, mas infernizou a defesa brasileira e deixou os atacantes ingleses toda hora na cara do gol. Revelo a todos que só vai encerrar a carreira daqui a nove anos, após 36 anos na ativa. Terá então exatos 50 anos e 5 dias de idade, tornando-se o jogador mais velho a atuar profissionalmente em uma partida de futebol. Uau-au-au!

    Vai demorar meio século, mas um dia o ‘Feiticeiro do Drible’ perderá o recorde, em 2017, para um japonês, é mole? Detalhe: o novo recordista, Kazuyoshi Miura, o ‘Kazu’, será ainda mais teimoso. Em 2021, de “quando” venho, já vai estar com 54 anos e ainda jogando – uma espécie de Rainha Elizabeth do futebol! Mas nada que se compare ao mito Stanley Matthews. Na Inglaterra, sua história vai fazer a camisa 7 ganhar mística semelhante àquela que, no resto do mundo, será de outro número – graças ao Brasil, mas o Rei que entronizará o 10 de suas costas ainda não estreou nos campos. Calma, falta pouco, é este ano, setembro… Esse aí sim vai ser ‘o cara’, o cão chupando manga!

    No futuro, jamais esquecerei o dia de ontem, eu entre os 90 mil torcedores nas arquibancadas, ouvindo seus gritos ecoando nas 25 mil toneladas de concreto de Wembley. Mágico! Se Nilton Santos conseguiu tomar ‘um calor’ na gélida Londres, foi outro jogador brasileiro que tirou da cartola lances imponderáveis. Dando provas de que chegou pra não mais sair, o arqueiro Gilmar defendeu dois pênaltis, impedindo uma derrota mais desagradável. Já revelo a todos que será ele debaixo dos paus nos próximos três mundiais, botando o ‘Leiteria’ Castilho no banco. Mas são dois goleiraços. É aquela história: ‘Quem não tem cão, caça com gato.’

    Mas pra nossa Seleção ontem, definitivamente, não era ‘Dia da Vitória’, mesmo o mundo comemorando os onze anos do triunfo russo sobre os nazistas. Com cinco minutos de jogo, os caras já tinham 2 tentos, marcados por Tommy Taylor e Colin Grainger. Na segunda etapa, a surpresa de um Brasil chegando ao empate e, 10 minutos. Mas os ingleses estavam melhores e perderam as penalidades máximas (John Atyeo, aos 17’ e Roger Byrne, aos 26’), uma antes de cada tento da etapa final – novamente a dupla Tommy Taylor e Colin Grainger, nessa mesma ordem. Verdade seja dita, o escrete brasileiro precisa de mudanças. E elas virão! Dos onze que suaram em Wembley, apenas cinco serão titulares na Copa da Suécia. O enérgico Flávio Costa – do tipo cão que ladra… e Morde! – é o primeiro que sai. Ele encerrou ontem sua saga na Seleção, cumprindo a última missão que recebeu da CBD: liderar a primeira excursão do futebol brasileiro à Europa. Vai seguir colecionando triunfos e histórias antológicas do folclore da bola, sempre carregando o fardo e o estigma de ter sido o comandante na tragédia de 50. Poucos daquele grupo do fatídico ‘Macaranazzo’ não ficaram também nesse mato sem cachorro. Alguns, sinto informar, vão acabar na penúria… Matando cachorro a grito.

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    Como vim do futuro, com a minha Máquina do Tempo, posso e vou dar uma dica ao próximo treinador. Alô, Zezé, Feola, Aymoré, quem quer que seja… (claro que sei o nome, mas este segredo vou guardar) Precisamos de renovação! E não é apenas trocando o branco e azul pelo amarelo-canário das camisas do escrete. Aposte na garotada! E em pontas com as pernas tortas! Pro ataque, se tiver menos de 18 anos, sotaque de Minas e tocar violão mal pra cachorro, é esse o homem! Outra coisa: aguente firme, não importa o que imprensa e torcida falem. Os cães ladram e a caravana passa! Brasiiil!

    .Zé Carioca -
    Zé Carioca – //Reprodução

    P.S.: A primeira a vez que ouvirei falar em Stanley Mattews será daqui a 18 anos, lendo um dos melhores entre os muitos livros de futebol que ainda devorarei: o ‘Manual do Zé Carioca”, personagem que poucos de vocês, queridos leitores, já devem ter visto mas que ano passado foi lançado pela Walt Disney, como uma espécie de “figura brasileira” no mundo dos quadrinhos. ‘Manual do Zé Carioca”! Eu recomendo! Para crianças de qualquer idade!

    P.S.2: Como esta correlação filosófica entre brasileiros e o tal “complexo de vira-latas” ainda não foi criada, autorizo desde já qualquer pensador ou escriba nacional a adotá-la sem precisar me dar crédito por isso. Inclusive Nelson Rodrigues!

    Nota do editor: Este texto foi originalmente publicado em 1956, um dia após o jogo, e por isso o autor teve que omitir o acidente com os jogadores do Manchester United, base deste forte time da Inglaterra que bateu a Seleção Brasileira por 4 x 2. Pouco menos de dois anos depois do primeiro confronto entre os dois países, em fevereiro de 1958, quase todo o elenco do clube inglês morreu, vítima de um desastre aéreo. A tragédia desfalcou e desestruturou o ‘English Team’ na Copa da Suécia, a primeira conquistada pelo Brasil.

    FICHA DO JOGO
    INGLATERRA 4 X 2 BRASIL
    (amistoso, primeiro confronto entre as duas Seleções)

    Data: 9 de maio de 1956
    Estádio: Wembley (Londres, Inglaterra)
    Juiz: Maurice Guigue (França)
    Público: 97.000 pagantes.

    Inglaterra: Reg Matthews (Coventry City); Jeff Hall (Birmingham City); Billy Wright (Wolverhampton Wanderers); Roger Byrne (Manchester United); Ronnie Clayton (Blackburn Rovers); Duncan Edwards (Manchester United); Stanley Matthews (Blackpool); John Atyeo (Bristol City); Tommy Taylor (Manchester United); Johnny Haynes (Fulham) e Colin Grainger (Sheffield United). Técnico: Walter Winterbottom.

    Brasil: Gilmar (camisa 1, Corinthians); Djalma Santos (4 – Portuguesa), Pavão (2, Flamengo), Dequinha (6, Flamengo) e Nílton Santos (3, capitão, Botafogo); Zózimo (5, Bangu) Paulinho (7, Flamengo), Álvaro (8, Santos) e Didi (10, Botafogo); Gino (9, São Paulo) e Canhoteiro (11, São Paulo). Técnico: Flávio Costa.

    Gols: 1º Tempo: Tommy Taylor (3’) e Colin Grainger (5’); 2º Tempo: Paulinho (8’); Didi (10’), Tommy Taylor (20’) e Colin Grainger (38’)

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