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O Comentarista do Futuro

Até quando?

Comentarista do Futuro deixa 2021 no Dia da Consciência Negra e vai a 1905 assistir Bangu x Fluminense, 1º registro da atuação de um jogador negro no Brasil

Por Claudio Henrique @comentaristadofuturo                  Atualizado em 23 nov 2021, 17h05 - Publicado em 23 nov 2021, 17h04

Peço sinceras e profundas desculpas a todos vocês, queridos leitores e leitoras de 1905, por fazer parte da Humanidade que daqui a 116 anos — em 2021, de “quando” venho — ainda estará em meio a debates e na luta contra o racismo. Fracassaremos, pelo menos até lá, e isso me envergonha. Deixei o futuro na semana de uma data que, todo ano, vai marcar e confessar essa triste derrota de todos os seres humanos, pela incapacidade de nos enxergarmos como iguais. Sintomaticamente, será justo e somente neste dia que, ano após ano, muitas pessoas terão o impulso de reclamar dos “muitos feriados que existem no Brasil”. Daí ter sido, em alguma medida, reconstrutivo, para minha alma, assistir ontem ao inesperado triunfo do Bangu Athletic Club por 5 x 3 sobre o Fluminense, no campo da Fábrica de mesmo nome da equipe vencedora. Fernando Carragal, meia do alvirrubro, estreou e ganhará a eternidade apontado como o primeiro jogador negro a atuar numa partida de futebol em nosso país. Se ele jogou bem? Se fez gol? Nem posso garantir, pois passei a maior parte do tempo olhando para as arquibancadas. Queria observar a reação do público, para atestar que esta doença, a discriminação racial, não é atávica, mas sim provocada por um vírus do mal que se propaga atravessando séculos e contaminando seguidas gerações. Até quando?

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O recém-fundado Bangu é um clube com base operária, por motivos óbvios e fabris, mas dominado, como quase todos os demais, pelos aristocratas inventores do futebol, os ingleses. Além da bola, eles trouxeram para o Brasil sua mentalidade nada inclusiva, insistindo na tese de “esporte pra branco”. Já se passaram 17 anos do dia em que a Princesa Izabel assinou a Lei Áurea, amigos e amigas! Mesmo com todas as suas imperfeições e ineficiências, a regra é clara: igualdade de direitos. Adianto a vocês que, em breve, o Bangu será expelido da futura Liga de futebol do Rio de Janeiro simplesmente por cumprir a Abolição da Escravatura e a Lei Natural das Coisas. Aos brancos poderosos, esses pernas-de-pau do bom senso, (não) sinto e faço questão de informar que, pela quantidade de glórias, o Brasil alcançará o Século 21 como “o país do futebol”; e quando rabiscarmos uma lista dos 10 maiores craques de todos os tempos, fatalmente lá estarão (anotem os nomes): Friedenheich, Leônidas da Silva, Zizinho, Didi, Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho e Neymar. Todos negros. Réchi-tégui engole essa! (desculpa, de novo, leitor, mas isso não vai dar pra explicar…)

A propósito, observei que, com exceção das abastadas famílias inglesas que ontem se esparramavam nos melhores lugares, todo mundo ali na plateia era meio negro, meio branco, meio índio… 100% brasileiros! Carragal ainda disputará outros 27 jogos pelo Bangu, marcando seis gols. Seria melhor se o seu pioneirismo épico sequer fosse digno de nota, pela naturalidade como deveríamos tratar o assunto. Mas é. Assim como o são e serão Miguel de Campos — negro que estava entre aqueles que, em 1900, fundaram e defenderam a Ponte Preta, de Campinas (SP) —, Francisco Rodrigues, que fará algo semelhante daqui a dois anos, no nascimento do Riograndense, em breve em atividade lá pelos Pampas do Sul do país, e Joaquim Prado, que ano passado teria atuado pelo Paulistano (SP). Em 2021, sinto informar, vítimas de racismo que não se calarão ainda terão que, em nome e defesa da igualdade, ser destacadas. Das arquibancadas, emergirão incompreensíveis ofensas racistas contra atletas. Não apenas no Brasil, mas também em vizinhos latino-americanos e na Europa.

Até quando?  

A jornada será árdua, queridos leitores e leitoras de 1905. Nos próximos 20 anos, até a Presidência da República vai se meter e determinar que, num futuro torneio sul-americano, o Brasil se faça representar apenas por jogadores brancos. Mas teremos também lindas histórias de resistência. No Rio, vai surgir pelas atuais cercanias da Capital Federal um clube que virá cumprir sina em defesa da presença de negros no futebol: Vasco da Gama. Do Norte, virá o Euterpe, primeira agremiação no país forjada e formada apenas por e para negros. Serão muitos os heróis nessa luta, mas o que abate qualquer Viajante do Tempo é saber que, em 2021, apenas um dos 20 clubes na futura Primeira Divisão do futebol brasileiro terá como comandante — “técnico”, assim chamaremos — um negro (justo o Fluminense, abatido ontem); ou atestar que, entre as 40 maiores agremiações nacionais, só uma delas, a Ponte, registrará um negro na Presidência.

Até quando?

Não me admiraria encontrar alguém que hoje esteja repetindo que o Fluminense entrou em campo com seu Segundo Quadro (“reservas”, assim chamaremos), numa tentativa de reduzir a importância da vitória banguense na tarde de ontem. Será sempre assim: mesmo com o destaque que alcançarão com a bola nos pés, os negros serão o alvo preferido para entradas desleais, gente querendo derrubá-los, prontos para apontar o dedo e defini-los como culpados de qualquer insucesso. Nos anos 30, serão organizadas competições entre países e, na segunda edição do evento, um zagueiro negro, eterno, vai ser tratado como vilão após a desclassificação do Brasil. A história se repetirá em 1950, desta vez com um goleiro, negro também. Perdemos porque o nosso jogador foi arrumar o meião do uniforme? “Só podia ser preto!”, vão dizer. Teve uma convulsão antes do jogo? “Coisa de preto!” Eram os mais fracos entre o time de craques do Brasil? “Aqueles mais moreninhos…”

Até quando?

Bangu (novato no Futebol) e Fluminense (concluiu ontem a 22ª partida de sua história) vão crescer e se enfrentar muitas outras vezes, inclusive daqui a 14 dias, no “return match”, com vitória tricolor, e, nas próximas décadas, decidindo campeonatos estaduais no Rio. O primeiro jamais vai esmorecer em suas crenças e origens populares; o Onze das Laranjeiras estará no grupo de clubes que protagonizarão infâmias da história do esporte, como o uso de perucas para disfarçar o cabelo ou pó-de-arroz como “branqueador de pele”; mas depois vai se redimir e extrapolar no número de craques e ídolos negros de sua torcida. Por todo o país e pelo mundo, as agremiações de futebol terão suas versões próprias de redenção, maior ou menor, rápida ou lenta, no racismo. Em 2021, de “quando” venho, ainda precisaremos ressaltar nomes e feitos como o do tecelão e apoiador banguense Carragal. Arthur Wharton, por exemplo, primeiro jogador profissional negro do mundo, que, na Inglaterra, foi guarda-metas nos anos 80 do século que acabamos de deixar pra trás.Triste será a recorrência de gritos chamando atletas de “macaco” e a covardia de futuros tribunais da Justiça Esportiva ao aplicar penas aos agressores.

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Até quando?

P.S. 1: Perdemos, em, março, o escritor francês Júlio Verne; mas racismo em 2021, acreditem, não é Ficção Científica

P.S. 2; Ganhamos este ano a teoria de Einstein; mas racismo não tem “relatividade”: o certo é o certo; errado é discriminar.

FICHA TÉCNICA

BANGU 5 X 3 FLUMINENSE

 Local:  Jardim da Fábrica de Tecidos Bangu, na Rua Ferrer

Data: 14 de maio de 1905 
Árbitro: Não existia isso 
Público: Difícil precisar

Renda: Desconhecida

BANGU:  Frederich Jacques, James Hartley e Justino Fortes; Segundo Maffeu, Thomas Hellowell e César Bochialini; Dante Delocco, John Stark, William Procter, Francisco de Barros e Francisco Carregal

FLUMINENSE:  “Segundo Quadro” (os reservas);

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