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Local sagrado: como funciona a montagem de um vestiário profissional

A PLACAR, o Botafogo abriu as portas do espaço no Nilton Santos onde roupeiros se desdobram para que tudo saia como manda o figurino

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 23 nov 2021, 15h38 - Publicado em 23 nov 2021, 15h26

Reza a lenda que, ao entrar pela primeira vez em General Severiano, logo depois de vestir o uniforme do Botafogo para treinar, Garrincha ouviu um sussurro do técnico Gentil Cardoso. “Aqui aparece de tudo mesmo, até aleijado”, teria dito o comandante, perplexo com a curvatura das pernas do inigualável camisa 7. Outra anedota envolvendo ídolos alvinegros eternizada em antigas páginas de PLACAR dá conta de que, pouco antes de entrar em campo para Brasil x Espanha na Copa de 1962, em Viña del Mar, no Chile, Didi abandonou a habitual elegância e teve de ser acalmado por Nilton Santos. “Vou mostrar para esse filho da puta que sei jogar bola”, esbravejou o inventor do chute folha seca. A mãe em questão era a de Alfredo Di
Stéfano, ídolo argentino que defendia a seleção ibérica, a quem o brasileiro sempre acusou de tê-lo boicotado no Real Madrid, e que, machucado, assistiria ao triunfo canarinho das tribunas. “Vai jogar tua bola, não vai mostrar nada a ninguém”, repreendeu a Enciclopédia do Futebol.

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O vestiário é, afinal, onde ocorrem os mais saborosos diálogos, onde os atletas extravasam depois de um título ou choram uma derrota amarga. Não à toa, é tratado como local sagrado por jogadores e treinadores. Sua função primária, porém, é, como o nome já diz, dar privacidade para que todos se vistam — e se dispam, claro. É aí que entra uma figura geralmente muito querida pelo grupo e essencial para a engrenagem, ainda que totalmente anônima: o roupeiro. No Estádio Nilton Santos, localizado no bairro carioca de Engenho de Dentro e batizado em homenagem ao ex-lateral, morto em 2013, quem manda é José Barbosa, o roupeiro Zé, botafoguense doente de 41 anos. No Botafogo desde 1999, ele refaz sua rotina a cada partida.

“Somos os primeiros a chegar e os últimos a sair”, diz, repetindo um velho chavão da bola que, no caso dele, se justifica. Em dias de jogos, Zé e seu parceiro Amaury Alves têm de estar a postos seis horas antes de a bola rolar, para deixar tudo em ordem. “A gente se sente parte fundamental do time com o carinho recebido. É realmente um trabalho de muita responsabilidade, mas nossa equipe de rouparia tem anos de casa e nós fazemos tudo com amor”, conta. Para as partidas em casa, são três jogos do uniforme listrado, o titular, além de três pares de chuteiras para cada atleta. “Existe muita superstição aqui dentro. Alguns pedem até quatro pares”, diz o roupeiro, ressaltando que há modelos com trava de alumínio ou borracha, para cada tipo de terreno ou clima. Já nas partidas como visitante, as malas (ou melhor, os enormes baús onde roupas, chuteiras e bolas são levadas) vão ainda mais cheias, com três jogos de uniformes de cada modelo (listrado, branco e preto) por atleta relacionado. Ou seja, contando onze titulares e doze reservas, ficam disponíveis no Engenhão “apenas” 69 camisetas. Longe de casa, são 207!!!

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Estrela solitária e anônima: Zé Barbosa no Nilton Santos, antes da vitória sobre o Brusque, na Série B do Brasileirão
Zé Barbosa, no vestiário do Botafogo Vitor Silva/Botafogo/Divulgação

Em campo, um momento tradicional é aquele em que os adversários trocam as camisas. A gentileza, no entanto, não é ilimitada. Por questões de sigilo contratual, o clube não revela quantas peças são entregues pelo fornecedor de material esportivo a cada temporada. Mas sabe-se que cada atleta só pode ceder uma camisa por jogo — as outras duas retornam ao baú para ser lavadas e reutilizadas nas partidas seguintes. Zé Barbosa explica que não dispõe de nenhuma máquina para estampar números ou nomes caso eles desgrudem ou rasguem por algum motivo. “É por essa razão que levamos sempre três uniformes por atleta. Imprevistos acontecem.” Os uniformes do Botafogo são fornecidos pela Kappa, marca italiana que ficou famosa no início deste século com um inovador desenho, mais ajustado ao corpo. Muitos boleiros curtem esse corte, pois gostam de realçar a forma física, enquanto outros se sentem mais à vontade na modelagem mais folgada. “O tamanho é predefinido pelos atletas individualmente. A maioria do elenco atual usa M.”

Roupeiros são, muitas vezes, os integrantes mais longevos de um vestiário e, de tempos em tempos, têm de se adaptar aos novos modismos. As camisas de manga longa, por exemplo, como as que faziam sucesso em excursões do Fogão pela Europa nos anos 1960, praticamente não existem mais. As marcas têm optado, com raras exceções, por utilizar uma malha térmica, a chamada “segunda pele”, por baixo das camisetas de sempre, de manga curta. Outra mania é a de personalizar caneleiras com fotos dos familiares e cortar a parte inferior dos meiões, usando por baixo uma meia comum, mais grossa, que garante mais aderência do pé com a chuteira. Sabendo dessa onda, o Botafogo incluiu no enxoval polainas, além dos tradicionais meiões — metade vai a campo com umas e a outra metade, com as outras. Com a boa fase do time, Zé não vê a hora de voltar às origens e comandar um vestiário de Série A, como nos tempos do uruguaio Loco Abreu, seu ídolo, de quem cuidava com carinho da camisa 13.

Estrela solitária e anônima: Zé Barbosa no Nilton Santos, antes da vitória sobre o Brusque, na Série B do Brasileirão
Estrela solitária e anônima: Zé Barbosa no Nilton Santos, antes da vitória sobre o Brusque, na Série B do Brasileirão Vitor Silva/Botafogo./Divulgação

Matéria publicada na edição impressa 1481 de PLACAR, de novembro de 2021 

Capa da PLACAR de novembro
Capa da PLACAR de novembro PLACAR/Reprodução
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