Após o mau início de ano no Vasco, Carlos Alberto muda de ares imaginando voltar ainda a São Januário. Antes disso, quer recuperar no Grêmio a autoestima

O Grêmio é seu primeiro time fora do eixo Rio-São Paulo. Como tem sido esse início?
Nada a reclamar. O futebol do Sul é parecido com o da Europa, onde me adaptei muito bem. É um estilo de jogo que combina com o meu. Usam muito a força, e eu trabalho bem a parte física. Ainda posso tirar proveito da minha técnica para sobressair. A galera me recebeu muito bem em Porto Alegre. Espero que continue assim.

No Porto, você conquistou uma Champions League e foi campeão mundial. A Libertadores é o título que falta ao seu currículo?
Com certeza. Já percorri na Europa o caminho para chegar a um Mundial de Clubes e pretendo refazê-lo agora, nas Américas. O início foi bom [vitória sobre o Oriente Petrolero por 3 x 0], e o Grêmio tem grandes possibilidades de alcançar o mesmo destino.

Carlos Alberto: prepador em mutação no Grêmio

Foto: Edison Vara

"Tem muito formador de opinião que quer formar seu caráter para as pessoas mais desprovidas de inteligência. Às vezes, me pintam como um bicho dentro de campo"

Renato Gaúcho o convenceu a ir para o Grêmio?
Ele me ligou antes da negociação, realmente. Fomos campeões da Copa do Brasil juntos, no Fluminense. O Renato foi o treinador que me subiu para o profissional e me colocou como capitão do time aos 22 anos, mesmo com muitos jogadores experientes no elenco. Um deles, o Roger, faz parte da comissão técnica do Grêmio hoje. Quando cheguei, até brinquei com ele: “Eu era o teu capitão e agora tu é meu professor”.

O estilo copeiro do futebol gaúcho não pode aumentar seus problemas com cartões?
A minha maneira de jogar sempre foi a mesma. Aqui a arbitragem é mais dinâmica, deixa o jogo correr. No Rio de Janeiro, pelo fato de o futebol ser mais técnico, mais cadenciado, os árbitros não toleram muito contato físico. Mas futebol é esporte de impacto, não tem jeito.

Você se considera um jogador intempestivo?
Não. Tem muito formador de opinião que quer formar seu caráter para as pessoas mais desprovidas de inteligência. Isso é um crime. Às vezes, me pintam como um bicho dentro do campo. Mas sou um ser humano normal, trabalhador, um cara de grupo. Não é à toa que fui capitão em várias equipes.

Mas, durante sua passagem pelo Vasco, você levou muitos cartões…
Na minha chegada ao Vasco, já criaram esse estereótipo de jogador intempestivo. Se você for analisar meu histórico anterior, vai ver que nunca tive problemas desse tipo em outros clubes. Não sou desleal e nunca machuquei ninguém. O cartão amarelo lá no Rio é o primeiro recurso dos árbitros. Eles não sabem levar o jogo. Fica a minha crítica à arbitragem carioca.

Jogar a segunda divisão e levar o Vasco de volta à elite foi seu maior desafio na carreira?
A vida é movida por desafios. Era um risco muito grande e eu não poderia falhar. Mas às vezes o jogador precisa criar um fato novo na carreira. Algumas pessoas viram minha ida para a série B como um grande fracasso. Eu vi uma oportunidade de voltar ao cenário do futebol nacional e ser um jogador respeitado. Capitanear o time no acesso à série A marcou muito a minha vida.

No ano passado, as seguidas lesões comprometeram sua temporada…
Lesões são imprevistos da vida. Você pega o teu carro, sai de casa e bate em um poste. É um acidente, concorda? A lesão é isso, um acidente. Me entristece ver gente da imprensa insinuar que o jogador fica contente quando se machuca. Ninguém sabe o que um atleta passa quando não pode exercer a profissão.

Chegou a jogar no sacrifício pelo Vasco?
Várias vezes. No sacrifício, cheio de infiltrações. Mas 2010 ficou para trás e já é página virada. Falei que 2011 seria o meu ano e reafirmo. Vou dar sequência à vida aqui no Grêmio.

Seu casamento com o Vasco terminou da noite para o dia…
Não terminou. Naquele momento, eu achei que deveria sair. Tenho um relacionamento muito bom com o Rodrigo Caetano e com o Roberto Dinamite. Conversamos e resolvemos tudo.

A discussão no vestiário com o Roberto Dinamite foi a gota d’água?
As pessoas interpretam mal a palavra discussão. Foi um desabafo, sem ofensas. Tudo vira polêmica. Disseram que chegamos às vias de fato. Não houve nada disso. Tenho opinião formada e não sou obrigado a concordar com o que dizem por aí. A gente estava treinando, tudo certo, mas o time não ganhava. No Brasil, futebol é resultado. Não tem mais o que explicar.

Entrevista originalmente publicada na edição 1352 (março/2011) da Revista PLACAR