NAS BANCAS

Maradona: ele não se cala

Sem frases feitas, Maradona trata as palavras com ímpeto semelhante ao que exibia nos gramados. Fala sobre drogas, politicagem e o sonho de ser técnico da seleção argentina

A presença de Diego Armando Maradona em campo era sempre o prenúncio de que algo inusitado, original, surpreendente poderia acontecer. Pode parecer paradoxal esperar pelo surpreendente, mas o que são os gênios senão aqueles capazes de pensar diferente do senso comum? Assim como fazia com seus adversários, Maradona driblava o óbvio e entortava as expectativas. Um comportamento semelhante aparece nessa entrevista realizada pelo jornalista Diego Borinsky, para a revista El Gráfico, da Argentina. A matéria aborda aspectos relevantes da vida pessoal e profissional de Maradona, como o envolvimento com drogas e os bastidores das Copas de que participou. A conversa também é recheada de perguntas sobre as preferências do craque, que revela, entre outras coisas, qual o melhor jogador argentino da atualidade, qual seu melhor sucessor e o maior jogador que viu atuar.

Para começar, nada melhor do que falar sobre seleção argentina, que não vence uma Copa do Mundo desde 1986 e sequer chegou a uma semifinal depois da final de 1990. Para Maradona, falta "uma sacudida no vestiário. A seleção precisa de um pouco de rebeldia, alguém que lhe dê um outro sentido, um outro tom". De que forma isso poderia ser conseguido? "Não sei, não estou lá dentro para saber. Mas adoraria estar". A resposta parece uma indireta de que gostaria de assumir a seleção. Será? Algum tempo depois, não resta mais qualquer dúvida. Ao ser perguntado quem gostaria de ver no comando da seleção do país, ele diz sem rodeios: "Diego Maradona".

Maradona também não hesita em apontar o melhor jogador argentino da atualidade: Messi. "Sem nenhuma dúvida", diz. Em seguida, viriam Agüero e Riquelme. Com tanta fé no taco de Messi, Maradona demonstra certa humildade quando perguntado se o atacante do Barcelona pode se igualar a ele. "Se for para o bem do futebol argentino, que me passe". O desprendimento sugerido cai por terra na seqüência, quando surge a comparação entre os gols de Messi, no jogo do time catalão contra o Getafe, e o monumento que Don Diego ergueu contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 1986. "Não tem nada a ver com o meu". O jornalista argumenta que as circunstâncias, de fato, não se comparam, porém as jogadas foram bem semelhantes. O ídolo tenta desconversar: "Não, não têm nada a ver. Gols assim, em treinamentos, eu fiz aos milhões, mas não foram gravados. Se vamos falar sério nesta matéria, não me faça dizer certas coisas...".

Depois de mais um tanto de conversa, Maradona é questionado se, de todos os seus possíveis sucessores, Messi é que mais se aproxima dele: "Coloquemos Messi, vá lá, façamos esse jogo".

As preferências de Maradona pontuam a entrevista. Agora, o tema é o Boca Juniors, clube com o qual construiu profunda identificação. E o ex-jogador é logo questionado sobre a relação com Carlos Bianchi, o maior ganhador de títulos da história do Boca (quatro campeonatos argentinos, três Libertadores e dois Mundiais Interclubes), mas raramente alvo de seus elogios. "Agradeço de coração a Bianchi pelos títulos, mas ele está com [Guillermo] Coppola [ex-representante do jogador, a quem acusa de ter gerido mal o seu dinheiro], e ele sabe que se vai ao aniversário de Coppola está do lado contrário ao meu". Em que Coppola falhou? "Em tudo, me ferrou completamente. Tirou o sustento de minhas filhas".

Sempre assertivo, o eterno dez argentino só demonstra alguma dúvida quando o assunto é o maior jogador que viu atuar: "Está entre Romário e Van Basten".

E se...

Maradona conta como reagiria se estivesse em situações hipotéticas:

Se ocupasse a cadeira de cartola-maior do futebol, na Fifa: "Daria muito mais importância aos jogadores. Elaboraria calendários que permitissem um rendimento maior dos atletas e melhores espetáculos. Se o Mundial de rúgbi é disputado em 45 dias por que o de futebol tem de ser realizado em apenas 30?"

Se cruzasse na rua com o goleiro inglês que levou dois gols seus na Copa do Mundo de 1986, o com "a mão de Deus" e o antológico originado com a seqüência de dribles desde o meio de campo: "Gritaria 'goleiro', 'goleiraço'. 'Você não quis me convidar para o jogo em sua homenagem. Nem vou dormir por causa disso, Shilton. Que pena' "

Se estivesse em um carro no deserto e visse o juiz mexicano Edgardo Codesal, que apitou a final da Copa de 1990, pedindo carona: "Eu tiraria uma fina dele"

Se Havelange, Coppola e Codesal estivesse se afogando e ele passasse num barco com apenas um colete salva-vidas: "Que morram os três, não atiro o colete para nenhum deles. Eu não perdôo"

Ele é francês, canta em espanhol e é fã de Maradona. Escute a música de Manu Chao em homenagem a Maradona: