Todo bom time começa por um bom goleiro. Em 1992, o São Paulo tinha em Zetti a segurança necessária para sustentar um grupo campeão. O ex-goleiro é o símbolo de uma geração que conduziu o Tricolor a um inédito patamar e que, segundo ele, abriu um novo precedente no futebol brasileiro.
Zetti foi titular de ponta a ponta na campanha que deu o primeiro caneco da Libertadores ao São Paulo - o primeiro de um clube brasileiro desde 1983, com o Grêmio. Entre outras façanhas, defendeu o pênalti que selou o campeonato ante o Newell's Old Boys.
A dois dias de completar 20 anos da conquista, o antigo dono da camisa 1 tricolor reconstrói as principais lembranças da saga naquela Libertadores e, de quebra, confidencia, humildemente: "Não tínhamos obsessão de ganhar a Libertadores."
Em que período começou a ser formado o time que seria campeão continental em 1992?
Não teve um momento específico, já vinhamos numa crescente. Em 1989 tiramos uma boa base do Brasileiro; em 1990, fomos bem no Brasileiro, mas perdemos a final (para o Corinthians). A partir dali, o Telê (Santana, técnico do São Paulo à época) começou a reformular a equipe pensando em 1991, quando fomos campeões brasileiros (ante o Bragantino). A equipe era jovem, mas, aos poucos, foi ganhando confiança. O Telê foi buscando as necessidades do time. Descobriu o Cafu, que tinha grande talento; o Antônio Carlos, que era uma promessa. A eles se juntaram outros jogadores mais experientes. Era um time barato, sem estrelas. É que as coisas foram se encaixando. A maioria dos times investiam pesado para jogar a Libertadores. O São Paulo não. Fomos exceção.
E aí veio a Libertadores de 1992...
Para falar a verdade, (a Libertadores) nem era a nossa prioridade. Naquela época, disputar a Libertadores significava um prejuízo para os times. Gastava-se muito com as viagens, estadia... Fora que financeiramente não tinha o retorno que tem hoje. A única vantagem era jogar o Mundial no final do ano. Portanto, não tínhamos essa obsessão de sermos campeões. Mas o título em 1992 mudou as coisas. Foi um marco para o São Paulo e para os times brasileiros. Se antes não davam muita atenção, passaram a olhar diferente.
E a estreia naquela Libertadores não foi tão memorável assim: derrota por 3 x 0 para o Criciúma, em Santa Catarina. Como ficou o vestiário depois do jogo? Temiam pelo pior na sequência da competição?
Ficamos preocupados, é verdade. Mas tínhamos grande confiança em reverter o resultado em casa [Nota da Redação: naquela Libertadores, o São Paulo fez os três primeiros jogos da fase de grupos fora de casa, saldando uma vitória, um empate e uma derrota]. Éramos muito fortes no Morumbi. A pressão de vencer em casa vinha do próprio Telê. Tanto é que no jogo da volta, contra o mesmo Criciúma, goleamos (o Tricolor aplicou 4 x 0).
Qual foi o jogo mais complicado daquela campanha?
Foi contra o Barcelona (de Guayaquil, Equador), nas semifinais. Ganhamos o primeiro jogo em casa por 3 x 0 e fomos tranquilos para o jogo da volta. Só que os caras abriram 2 x 0 no começo do jogo. Bateu o desespero. A pressão deles em nossa defesa era muito grande, achei mesmo que não aguentaríamos. Achava que a qualquer momento tomaríamos o gol. Mas no fim deu tudo certo.
É possível pinçar um momento inesquecível nessa campanha?
O pênalti que peguei do Gamboa, na final (contra o Newell's Old Boys). Foi a defesa mais importante da minha carreira. Não foi a mais difícil, mas a mais decisiva, a que marcou a minha história e a história do clube.
Em relação a 20, 25 anos atrás, hoje em dia é mais difícil disputar a Libertadores?
São momentos diferentes. Antes, a logística era bem pior. O deslocamento, a receptividade das torcidas rivais... era tudo bem pior. Não existia essa estrutura que se tem hoje. O retorno financeiro também não era satisfatório. Hoje em dia isso mudou.
Temos uma Libertadores mais glamourosa e menos 'rústica'?
Estamos no caminho para isso. Nunca será como a Liga dos Campeões. Mas hoje os rivais se respeitam mais, há uma troca de informações maior, mais mídia cobrindo. Vou te falar, é maravilhoso jogar a Libertadores. É gostoso demais. Às vezes bate uma saudade. Jogar contra equipes como Cerro (Porteño, do Paraguai), Universidad Católica... São equipes de porte. Libertadores não é exibição, é competição de verdade. Tem que correr, suar, lutar mais que os caras.
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